
Em uma manhã chuvosa de outono, com a respiração já ofegante e as gotas de suor escorrendo na testa, a turma do quinto ano da manhã da escola Hermann Guenther, de Pomerode, se diverte com a brincadeira de pega-pega.
O jogo consiste em dois tipos de jogadores: os pegadores e os que devem evitar ser apanhados. As regras são variadas. Cada grupo possui uma forma diferente de estabelecer como os participantes serão pegos. Em geral, é por meio de um toque da mão. Quem for tocado, automaticamente, vira o pegador da vez.
É uma brincadeira infantil muito conhecida pela maior parte das crianças brasileiras. Para o pequeno Ronalson, de 14 anos, é uma novidade que se tornou seu passatempo preferido nos intervalos escolares. Recém-chegado ao Brasil, ainda está se adaptando às novas rotinas. Junto com os novos amigos, passa boa parte do seu tempo assim, correndo e dando gargalhadas.

PMP/
Há pouco mais de seis meses em território brasileiro, Ronalson Jean ainda possui um longo caminho para conquistar seus sonhos. Hoje, sua principal meta é ser alfabetizado em português. Com um tom de voz baixinho e com algumas palavras ainda embaralhadas com o espanhol, ele conta que Pomerode é um paraíso de viver, se comparado as cidades que viveu nos países anteriores, República Dominicana e Haiti. “Aqui, posso brincar na rua sem meus pais precisarem se preocupar. Nas minhas antigas casas, minha vó e minha tia não me deixavam jogar bola na rua, pois era muito perigoso”, explica haitiano.
O jovem perdeu a mãe quando ainda era pequeno, morou até os 7 anos no Haiti e depois se mudou para a República Dominicana com uma tia. Fugindo da violência e atrás de melhores oportunidades, o pai de Ronalson está no Brasil há mais tempo. O garoto veio com a madrasta no início deste ano e espera com o coração apertado a chegada do irmão mais novo, que ainda está na antiga casa com a tia. “Não quero voltar lá nem para visitar meus familiares. Prefiro trabalhar um dia e poder trazer todos para cá”, conta, cabisbaixo, com os olhos cheios de planos.
Com um sorriso largo e contagiante, Ronalson conquistou a escola toda. O sistema educacional da República Dominicana é totalmente diferente, lá os alunos começam a ir à escola já com nove anos. O ano letivo anterior era bem distinto. A coordenação e os professores da escola Hermann Guenther mudaram suas rotinas dentro e fora da sala para poder ajudar ao máximo o novo aluno. “Não estamos fazendo toda essa dinâmica só por ele ser estrangeiro. Ronalson expira carinho. Ele tem um carisma muito grande. Não é preciso estar muito tempo com ele para perceber isso”, assegura o diretor Jelson Luiz da Silva.
A simplicidade do garoto encanta. Questionado sobre o que mais gosta de comer na nova pátria, responde sem hesitar que é maçã e o macarrão da escola. Quanto à matéria, disse que gosta muito de matemática. O professor Gilvan Reis confirma com um sorriso no rosto e um aceno com a cabeça. Ronalson diz que tem muita vontade de participar das aulas de robótica disponíveis para o nono ano, pois seu sonho é construir carros no futuro.
Mesmo tendo perdido a mãe cedo, ainda no Haiti, e ter tido uma infância em um local bastante violento, ele continua com o sorriso no rosto. Com muitos planos e sonhos na bagagem, o pequeno Ronalson Jean faz parte das milhares de crianças imigrantes que buscam por uma vida melhor para si e sua família.
Imagens

Foto: PMP 
Foto: PMP 
Foto: PMP
































