Entre Aspas

Francielle Furtado

Turismo da desgraça
Infelizmente, queridos leitores, essa é uma prática repetidamente vista em épocas como esta, de muitas chuvas, alguns deslizamentos e aumento do nível dos rios. Em Pomerode, como noticiado nesta edição, algumas ocorrências foram registradas. A mais grave delas, até o momento, foi o deslizamento de terra na Rua Lothar Voigtlaender, no Centro. O primeiro deslizamento no local aconteceu na segunda-feira pela madrugada, e o segundo, na quarta-feira também na madrugada, depois do temporal registrado na cidade. 
O que me espanta é que muitas pessoas quando souberam do fato, simplesmente saíram de suas casas e foram “olhar” um monte de barro interrompendo uma rua. Mas não é só isso. Muitas pessoas também pegaram seus carros e foram circular pelas ruas da cidade, em busca de “analisar” o nível do Rio do Testo em Pomerode. E isso me assusta e me deixa indignada, pois depois de um período instável meteorologicamente, pelo que estamos passando, o solo fica vulnerável, as águas são enigmáticas e os riscos são, infelizmente, incalculáveis. 
Riscos esses que as pessoas não pensam antes de sair de casa e muitas vezes com os carros cheios, com crianças inclusive. Um ato irresponsável, no mínimo, de quem tem essa atitude. Nunca se sabe quando um deslizamento pode ter seguimento, ou quando e como o rio pode aumentar o nível. A natureza é perfeita e tem seus próprios “mecanismos” de ação. E por ser tão perfeita é que precisamos respeitá-la e respeitar seus sinais acima de tudo.
Além do mais, não é só, também, a questão de colocar vidas em risco. É uma questão de falta de respeito com o ser humano que, de alguma forma, sofre ou sofreu com alguma intempérie. 
Tive o prazer, a título de experiência, de trabalhar na enchente de 2008 em Blumenau e a enchente de 2011 em Pomerode, por um canal de TV. A bagagem profissional desses dois fatos é inenarrável. Tão inenarrável quanto a tristeza desses dois acontecimentos. 
Infelizmente, me recordo muito bem, quando me deslocava para o bairro Progresso para gravar uma reportagem e no meio do caminho veio a notícia de que algumas pessoas, que foram ver um deslizamento de terra na região, foram soterradas por uma queda de barreiras. Estamos, felizmente, em Pomerode, longe desses desastres naturais. Mas não estamos completamente imunes a isso. Repito: a natureza é perfeita e enigmática. 
Prova disso foi a enchente de 2011, a pior já registrada na cidade. Naquela época já me indignava, que enquanto pessoas lavavam suas casas, choravam pela perda de bens conquistados com muito trabalho, buscavam soluções para ter onde dormir, muitos cidadãos “passeavam” pela cidade em busca de ver a desgraça alheia. 
Apelidei, por mim, de turismo da desgraça. Outro exemplo que posso dar claramente, é em 2008, em Testo Central, quando houve o deslizamento na Rua XV de Novembro, vitimando um senhor. Na época ainda morava no bairro, na casa da minha mãe, e da janela da cozinha podíamos ver as filas de carros, nos dois sentidos, para ver o tal deslizamento.
A curiosidade é, sim, inerente ao ser humano e não condeno esse fator. Eu, como jornalista, sei disso mais do que ninguém. Mas é preciso ponderar, avaliar, se colocar no lugar das outras pessoas. Muitas vidas se perdem, muitas famílias perdem tudo e não tem nem por onde começar. Vale, muito, de quem não passou por isso, tirar o carro da garagem e estender a mão a quem precisa. Não alimentar o “turismo da desgraça” talvez seja o primeiro passo, para o respeito alheio e para a própria segurança.

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