Especial Marcas da violência – Lutando contra as chamas

Sufocada pelo pavor durante 30 anos, Núbia suportou espancamentos e humilhações até encontrar a liberdade

“A mulher sempre fica esperando a mudança do marido, porque quando ela dá valor à família, não quer ver a destruição, quer que dê certo.” Núbia, de 55 anos, foi uma entre milhares de mulheres que tiveram as vidas sugadas pelo ciclo de um relacionamento abusivo. Entre agressões e pedidos de desculpas, há sempre uma vítima desejando que o pesadelo chegue ao fim.

Núbia conheceu o futuro marido ainda jovem. Aos 24 anos, engravidou da primeira filha e, com isso, o casal decidiu morar junto. Não demorou muito para que a lua de mel, tão esperada no começo do relacionamento, acabasse. “A primeira vez que ele tentou me bater foi com uma vara de pescar, eu estava de resguardo. Quebrei a vara, até ali eu tinha coragem”, afirma.

Como boa parte dos adolescentes, principalmente as meninas, Núbia tinha o desejo de ter um bom marido e formar família. “Posso dizer que no começo eu tinha ‘a’ família, porque até ali não enxergava quem era meu marido, mas, quando você enxerga mesmo a pessoa, a máscara cai.”

Depois daquela vara de pescar partida ao meio, foram diversas as agressões sofridas: apanhou de cinta, recebeu tapas, socos, foi humilhada e xingada, principalmente quando o marido bebia. Quando mais precisou do apoio da família, não o encontrou, já que Núbia se mudou do Nordeste do Brasil para Blumenau quando tinha 19 anos.

“Eu, particularmente, tinha medo, porque pensava que estava sozinha, meus filhos eram pequenos ainda, tinha sete filhos e sempre enfrentava necessidades, porque ele saía e me deixava passando fome, eu tinha que limpar a casa das minhas amigas em troca de alimentos”, lembra.

Quando não conseguiu mais aguentar a situação, procurou na bebida uma solução para a tamanha dor que sentia. “Fui fraca e não tenho medo de contar isso, às vezes nos refugiamos em qualquer coisa.”

Ao apanhar, Núbia corria para o álcool para encontrar o esquecimento. Quanto mais se aproximava do fundo do poço, mais o companheiro gostava. “Quando ele me conheceu, eu era bem vaidosa e, com aquilo, eu fui me perdendo, perdi a vontade de viver, de tomar banho, eu fedia a bebida”, conta.

Com os problemas que foram surgindo, o casal perdeu a guarda dos filhos por duas vezes. Em uma das audiências realizadas, ele disse que batia na esposa porque ela merecia, por ser teimosa.

“Eu queria ter minhas crianças de volta e ele não dava nem bola, dizia que os filhos não eram dele.” Para ela, o que mais doía não eram os tapas ou socos, mas sim as palavras que saíam da boca do companheiro. “Se você leva um tapa na cara, daqui a pouco você esquece, mas se eu te disser uma coisa que te magoa, isso vai fundo.”

Núbia era humilhada diariamente dentro da própria casa. O companheiro fazia questão de lhe “jogar na cara” que não tinha a própria renda e, por vezes, usou o artifício para violentá-la sexualmente.

“Vocês não sabem o que é o seu marido olhar pra ti e falar ‘vamos, vai pagar o arroz e o feijão que tu tá comendo’. Aquilo pra mim doía muito. Eu ia, mas ia chorando… Aí o amor foi se desgastando”, admite.

Foram diversas as situações degradantes enfrentadas durante os 30 anos em que permaneceu casada. Inclusive, a violência era também presenciada pela família do marido, que não fazia nada para que ela cessasse.

“Um dia, ele me deu uma surra de cinta na frente da família dele, mas ninguém fez nada, ficaram rindo da minha cara. Minha sogra dizia que eu tinha que apanhar mesmo.”

Pequenos passos em direção a uma grande mudança

Núbia é atendida pelo Centro Especializado de Assistência Social de Blumenau (Creas) desde que os filhos ainda eram crianças. Hoje, a filha mais velha está com 30 anos. Por isso, é importante destacar que nem sempre o rompimento da violência acontece de forma brusca ou rápida. São pequenos passos em busca da conscientização e da liberdade.

A assistente social e então coordenadora do Creas de Pomerode, Rosemere Belz Claudino, exemplifica que cada situação é muito específica e tem suas particularidades. É importante que se faça uma reflexão do que é preciso fazer pela vítima para que ela reconheça o momento em que está sofrendo a violação.

“São muitas mulheres que têm filhos pequenos, têm dependência financeira, então são vários os fatores que fazem com que as mulheres permaneçam nessas relações”, explica.

Núbia, por exemplo, além dos filhos, também sentia o fator financeiro como um empecilho para terminar o relacionamento. O aluguel da casa em que viviam era pago pela família do marido e ela acreditava que não conseguiria manter as despesas.

Depois que o deixou, ouviu de diversas amigas a mesma pergunta: “Você apanhava por causa de R$700? Em três meses que você está sozinha, deu conta de pagar o teu aluguel e teus filhos não passam fome. Quando estava com ele, vocês passavam fome e necessidade, você trabalhava para ganhar um prato de comida pros teus filhos”, conta.

Em Blumenau, Núbia participou durante anos e ainda participa do grupo destinado às mulheres vítimas de violência. A psicóloga do Creas de Blumenau, Sheila Fagundes Isleb, contextualiza sobre assuntos debatidos nos encontros.

“Elas podem socializar as suas dores e suas superações, compreender em nível macro a questão da violência e dar novos sentidos aos discursos que as impedem de romper com o ciclo da violência. A culpa, discriminação e invisibilidade são temas importantes para trazer ao debate, fortalecer o autoconhecimento e o senso crítico que podem auxiliar as mulheres na caminhada de defesa dos seus direitos para uma vida sem violência.”

São muitos os desafios encontrados no caminho do atendimento e, por isso, a secretária de Assistência Social de Pomerode, Renata Klee, acredita ser muito importante o trabalho feito no grupo.

“Porque elas conseguem ver outros exemplos e pensam que não estão sozinhas nessa situação. O grupo fortalece isso, essa autonomia da mulher para seguir em frente e ver que ela não é a única, mas é um trabalho que precisamos sim fortalecer muito”, evidencia.

Por outro lado, há também grupos reflexivos para os homens autores de violência. Em Pomerode, o grupo começou em agosto de 2019. A assistente social e coordenadora do Cras do município, Poliana Guizoni Schmitz, explica que os homens começam a participação com muita resistência. Não entendem qual o objetivo de estarem lá.

No entanto, quando iniciam o acompanhamento, se surpreendem. “Querem trazer a experiência deles, do que vivenciaram, principalmente os autores de violência, eles conseguem se reconhecer, ver que têm mais pessoas na mesma situação e que estão ali para se ajudarem de certa forma”, contextualiza.

O convite para participar, vindo dos profissionais de Blumenau, foi feito ao marido de Núbia. “Mas ele nunca aceitou”, salienta.

O nascimento de uma nova mulher

Na segunda vez que os filhos foram levados para um abrigo institucional, o juiz de direito da Vara da Infância deu à Núbia uma escolha: ou ela trataria o alcoolismo no Centro de Atenção Psicossocial (Caps) ou ele iniciaria o processo para a habilitação de uma das crianças para a adoção. “Aquilo, para mim, foi uma pancada”, admite.

A matriarca não pensou duas vezes e iniciou o tratamento. Antes disso, convidou o companheiro a fazer o mesmo, mas recebeu um não como resposta. “Eu disse que quando deixasse de beber ele veria outra mulher e que ele poderia ter certeza que não era para pior, era para melhor. Dito e feito, comecei o tratamento, fiz amigas e elas me deram força.”

Quando Núbia conseguiu, enfim, parar de beber, decidiu abolir a bebida da vida e nunca mais permitiu que entrasse em casa. Isso fez com que o marido deixasse o álcool de lado também. Uma luz no fim do túnel para ela. Imaginou que, com os dois parando com o vício, as agressões acabariam. Infelizmente, não foi o que aconteceu.

“Ao invés dele ver minha mudança e mudar junto comigo, o ciúme aumentou e eu apanhava mais ainda. Ele não me deixava sair, não queria trabalhar porque ia me deixar sozinha dentro de casa. E, quando eu saía, na volta sempre apanhava. Ele botou na cabeça de que a culpa era sempre minha e eu apanhava por isso”, salienta.

O amor pelo companheiro acabou quando ela mais precisou do apoio dele e não recebeu. Núbia lutava dia a dia para obter autorização para buscar os filhos no abrigo em que estavam. Enquanto isso, o marido não fazia nada.

“Nas visitas, as crianças perguntavam se o pai não ia ver eles. Aquilo foi me matando. Eu estava com um homem que não dava a mínima para os filhos. E o que eu fazia? Aguentava”, expõe.

Um tempo depois, começou a revidar as agressões. Foi nesse momento que ele entendeu que não podia mais atingi-la fisicamente. Mas a violência psicológica crescia cada vez mais. “Ele começou a me atingir verbalmente, me chamava de prostituta, além de vários outros insultos, tudo na frente dos filhos. Eu me escondia no banheiro só para ele parar.”

Núbia passou oito anos sem ter relações sexuais com o marido. Dormia todas as noites ao lado dos filhos. Por diversas vezes, ele disse gostar mais da esposa na época em que ela bebia. “Qual marido diz isso para a mulher? Ao invés de ficar feliz por eu ter parado com o vício, ele jogava na minha cara.”

Às vezes, quando saía de casa, pedia um beijo ao marido. Além de não receber, ouvia dele “que preferia beijar a boca de um cachorro do que a minha”. Núbia era magoada e humilhada, não conseguia se olhar no espelho sem chorar.

Até que, um dia, conheceu o Instituto Bia Wachholz, fundado em agosto de 2018 após o feminicídio de Bianca Wachholz, ocorrido no dia 25 de julho do mesmo ano. O objetivo do local é contribuir para a criação e aprimoramento de iniciativas públicas e privadas de enfrentamento às violências contra as mulheres. “Elas me deram apoio, entrei no grupo de artesanatos e de receitas, foi quando fui crescendo mais ainda espiritualmente”, lembra.

Na época, as brigas entre o casal eram constantes e alguns dos filhos já diziam à mãe para mandar o pai embora de casa. Núbia sabia que não gostava mais do marido, mas acreditava que eles estavam falando isso da boca para fora.

Até que, em um sábado de novembro de 2021, foi participar como voluntária de um bazar. Como pagamento, recebeu duas cestas básicas. Quando chegou em casa, muito feliz pela conquista, foi recebida pelo marido. “Ele olhou pra minha cara e disse ‘tu deu só por duas cestas básicas?’. Os meus dois filhos olharam para ele e perguntaram se ele não tinha vergonha de me falar isso”, relata.

Naquele momento, Núbia sentiu que era a gota d’água. Entendeu que, se o companheiro tivesse falado isso somente para ela, não teria tido tanto significado. No entanto, ele a humilhou na frente dos filhos e essa seria a última vez. Na terça-feira seguinte, foi até a delegacia e pediu por uma medida protetiva.

O fim de um ciclo

Quando colocou o marido para fora de casa, informou aos filhos que o primeiro que ficasse bravo iria junto com ele. Uma das lições mais importante que dá aos meninos é de que eles deem valor às futuras namoradas e esposas, “porque mulher não é saco de pancada”.

Para as filhas, o recado é outro: nunca deixar o marido ou namorado encostar a mão nelas. “A partir do momento em que deu o primeiro tapa, se você não der um basta, vai continuar sempre assim, até que chegará em um ponto em que você não impede mais nada.”

Hoje, quase um ano depois de se afastar do agressor, Núbia reencontrou a liberdade. Sai de casa quando quer, vai à Igreja com os filhos e voltou a se cuidar como mulher. “Estou linda e maravilhosa. Aconselho todas as mulheres a fazerem isso, a dar um basta e não voltar atrás”, declara.

Núbia não se considera uma ex-alcoólatra, entende que cada dia é um “dia a vencer”. No entanto, voltar a receber dos filhos todo amor e carinho após ter vencido o vício é uma realização de vida. “Penso que se não tivesse lutado tanto, não estaria contando a minha história, eu poderia estar morta, ou pela cachaça ou por ele.”

Além disso, Núbia ainda participa do grupo de mulheres oferecido pelo Creas. Inclusive, manda vídeos para as integrantes com o objetivo de apoiá-las e incentivá-las a comparecerem aos encontros. “Sempre digo que primeiro precisamos estar bem para ajudar o próximo.”

Ela relembra de um ensinamento passado pela mãe com o qual, após a experiência que viveu, não consegue concordar. “Minha mãe sempre me dizia que casamento era para sempre, e eu sempre pensava nisso. Para sempre? Para sempre nada. No primeiro tapa, se tu não parar, é pra sempre mesmo, ou tu vais estar debaixo dos pés do namorado/marido ou vai continuar apanhando pelo resto da tua vida.”

Agora, ela entende que em briga de marido e mulher é preciso meter, sim, a colher. “Se você é vizinha de uma amiga tua, ver ela apanhando e não intervir, no outro dia você pode ir no velório dela. Denunciem, nem que seja anonimamente, as pessoas precisam fazer isso”, evidencia.

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