Outro dia, no meio da correria entre uma mamadeira e uma matéria a ser postada, resolvi que ia retomar o hábito da leitura. Aquela vontade genuína, meio saudosista, de voltar a ser aquela pessoa que lia três livros ao mesmo tempo, com marcador colorido e a mente ansiando pelo próximo capítulo. A verdade, no entanto, é que essa pessoa ficou presa em alguma edição passada de mim mesma — uma edição pré-maternidade, pré-prazo, pré-sono picado.
O problema é que, ao invés de simplesmente caminhar até o armário (sim, ainda não providenciei uma estante) escolher algum dos muitos livros que já comprei (com entusiasmo e boas intenções, diga-se de passagem), o que faço? Abro o site da livraria. Ou pior: passo na frente de uma. Aquela vitrine brilhando de capas novas, promessas de histórias imperdíveis, resenhas dizendo que este, sim, vai mudar a minha vida. E eu, com um histórico de leitura que anda mais para boletim de ocorrência do que para diário de bordo literário, me vejo tentada a concretizar uma nova aquisição.
A verdade é que tem algo de mágico, e talvez um pouco cruel, nesse impulso de querer um novo começo. Porque é isso que um livro novo representa: uma chance de recomeçar a ler, de criar um tempo que não existe, de se reinventar. É como se o livro viesse com horas extras inclusas, com um aviso: “não se preocupe, eu vou me encaixar na sua rotina caótica”.
Mas a realidade é outra. Os livros já comprados me olham do armário com um misto de decepção e paciência. Alguns ainda têm o marcador descansando na página 53, onde eu inevitavelmente parei. Outros sequer tiveram a sorte de serem abertos. E eu, culpada, prometo mentalmente que vou dar uma chance a eles antes de trazer um novo colega para a prateleira.
A vida adulta muda tudo, inclusive o tempo que antes era só seu. Agora, ler é quase um ato de resistência. E, ironicamente, o desejo de consumir novas histórias acaba me afastando daquelas que já me esperam em casa.
Mas sigo tentando. Com culpa, sim. Com recaídas, também. E, quem sabe, com alguma maturidade para aceitar que retomar um hábito não é sobre começar de novo o tempo todo, mas sobre continuar.
E um dia, espero, a pilha de livros lidos vai crescer. Nem que seja devagar, no meu tempo — ou melhor, no tempo que me resta.

