Um ano se passou desde que o Rio Grande do Sul enfrentou a maior tragédia climática de sua história, uma calamidade que deixou marcas profundas na paisagem e na alma de seus habitantes. As águas revoltas não apenas devastaram cidades inteiras, mas também rasgaram o tecido da vida cotidiana de milhares de famílias.
Dener Jean Koepp, Jeferson Lopes de Castro, Lucas Loures Alichandre e Paulo Ricardo Duarte, integrantes do Corpo de Bombeiros Voluntários de Pomerode, partiram para o Rio Grande do Sul para se juntar aos esforços de resgate e ajudar os atingidos pela maior tragédia climática que assolou o Estado Gaúcho. Na época, força-tarefa foi coordenada pelos Bombeiros Voluntários de Santa Catarina.
A equipe se deslocou para o estado vizinho no dia 05 de maio de 2024 e retornou para Pomerode na segunda-feira, dia 13. Durante a operação, atuaram nas cidades de Três Coroas e Eldorado do Sul.

O chamado ao dever
Desde sua formação em 2022, o bombeiro voluntário Dener Jean Koepp sempre esteve pronto para atender ao chamado do dever. “Comecei meu curso de formação em 2021 e me formei como bombeiro voluntário em 2022,” conta ele com um brilho de orgulho nos olhos. “Mesmo temporariamente afastado por compromissos com trabalho e estudos, o espírito de serviço nunca deixou meu coração.”

As férias de Dener, em maio do ano passado, coincidiram com uma oportunidade que ele jamais poderia recusar. “Naquele período, eu estava de férias e finalmente pude me voluntariar para uma missão desse porte. Quando surgiu a chance, fui sem pensar duas vezes. Acredito que tudo acontece como tem que acontecer”, relembra ele emocionado.
Dener passou oito dias no Rio Grande do Sul, dedicando-se completamente à causa. “Foram oito dias no total, contando o tempo de viagem. Atuamos em Três Coroas e Eldorado do Sul, onde a necessidade era urgente.”
Sua rotina era um mosaico de desafios e sacrifícios. Acordar cedo, participar de reuniões e ser designado para missões que variavam desde distribuição de mantimentos até resgates aquáticos era apenas uma parte do dia a dia. “Após a manhã de trabalho, almoçávamos, quando a comida chegava, e voltávamos imediatamente às atividades. À noite, limpávamos os equipamentos, cuidávamos da nossa higiene pessoal e jantávamos. A reunião final era um momento de reflexão e união antes de descansarmos para o próximo dia de batalha”, descreve.

Entre tantas cenas de dor e superação, uma se destacou na memória de Dener. “O que mais me impactou foi ver as casas completamente destruídas. Estar ali, ao vivo, sentindo o ambiente e vendo o sofrimento das pessoas, é algo muito mais profundo do que qualquer imagem na televisão. Aquilo tudo representava vidas interrompidas e sonhos desfeitos. Foi impossível não se emocionar”, confessa.
A experiência deixou marcas profundas em Dener, ensinamentos que ele carrega com fervor. “A principal lição é que não podemos desistir, por mais difícil que a situação pareça. Vi pessoas que perderam tudo, mas ainda assim ajudavam outras. Elas não deixaram a dor paralisá-las. Isso me ensinou muito sobre resiliência e solidariedade”, afirma com convicção.
Para Dener é na capacidade de encontrar luz mesmo nas trevas mais profundas que está o poder da solidariedade humana. “Não escolhemos onde ou quando vamos enfrentar adversidades, mas podemos escolher como vamos reagir a elas. E eu escolho sempre estar do lado daqueles que precisam.”
Ao finalizar a entrevista, Dener compartilhou uma reflexão que vai além do trabalho voluntário. “Uma das coisas mais profundas que aprendi é que nada acontece por acaso. Talvez, no momento, não entendamos o porquê de certas situações, mas tudo tem um motivo. Mais cedo ou mais tarde, as peças se encaixam.”
Oito dias de intensa dedicação
Há um ano, o bombeiro voluntário Jeferson Lopes de Castro, vivenciou uma experiência que transformou não apenas sua vida, mas também a de muitos que foram tocados por sua generosidade. “Eu estava sempre à espera, ansioso para o momento em que poderia servir em uma grande missão.”
Com 11 anos de dedicação à Corporação de Pomerode, Jeferson relembra os sentimentos quando soube que poderia ajudar as vítimas da catástrofe no Rio Grande do Sul. “Quando a convocação chegou, foi como se o universo estivesse me chamando para cumprir meu destino. Eu disse à minha esposa: ‘Eu gostaria de estar lá para ajudar de qualquer forma.’ E com um sorriso de apoio, ela respondeu: ‘Se você quer ir mesmo, vai.’”
A decisão não foi fácil. Jeferson, que também trabalha como professor em uma escola sabia que precisava de permissão para se ausentar. “Minha esposa e a diretora da escola foram meu porto seguro. Em minutos, recebi a resposta que precisava: ‘Vá, faça o que seu coração pede. Estamos com você.’ Foi um mar de emoções”, confessa.

Equipado com a nobreza de sua missão e o coração cheio de esperança, Jeferson partiu para o Rio Grande do Sul, onde a natureza havia desencadeado sua fúria sem precedentes. A equipe de voluntários de Pomerode comprometeu-se com uma semana de serviço, tempo suficiente para deixar uma marca permanente, mas não sem enfrentar a incerteza da volta.
Na cidade de Três Coroas, Jeferson passou uma manhã e boa parte de uma tarde distribuindo doações, um trabalho árduo, mas vital. No entardecer, enquanto a equipe se preparava para auxiliar nas buscas por duas crianças desaparecidas, ele permaneceu na base, pronto para qualquer emergência. “Foram três atendimentos de emergência, um deles exigiu procedimentos médicos. Cada momento ali era crucial”, recorda.
O destino então os levou ao Aero Clube de Eldorado do Sul, um ponto estratégico para a chegada de ajuda humanitária. “Ali, assumi a frente no recebimento, armazenamento e distribuição dos alimentos, agasalhos e materiais doados. Era um trabalho incessante, mas ver as equipes revezando na pista, com tamanha dedicação, era inspirador”, conta.
O que verdadeiramente marcou Jeferson foram os agradecimentos, expressões puras de gratidão daqueles que haviam perdido quase tudo. “Pessoas pediam a Deus um caminho, uma ajuda. E no dia seguinte nossa equipe apareceu com alimentos, agasalhos, médicos e com toda ajuda. E sem sombra de dúvidas para mim, as mensagens que eram escritas nas tampas das marmitas que começamos a ganhar, era muita emoção a cada frase.”
A lição que Jeferson carrega é profunda: “Aprendi que o pouco que temos pode ser o muito que tantos outros desejam. Agradeço por tudo que tenho e continuarei a fazer o bem, sem olhar a quem.”
Para Jeferson, estar preparado para qualquer situação é essencial, mas o que realmente faz a diferença é o espírito de solidariedade. “Agradeço imensamente pela oportunidade de fazer parte dessa missão. Também sou grato aos voluntários que cobriram minha ausência e a todos que nos receberam de braços abertos. Foi sensacional, uma experiência que renova a fé na humanidade.”
Lições de vida e coragem
Entre os vários heróis anônimos que se levantaram para oferecer socorro ao Rio Grande do Sul, estava o bombeiro voluntário Lucas Loures Alichandre. “Quando vi a situação do Rio Grande do Sul pelas mídias, senti que era meu dever estar lá. Imaginei as famílias em desespero, e meu coração não permitiu que eu ficasse parado.”
Lucas partiu em uma jornada de solidariedade no dia 5 de maio, rumo ao desconhecido. “Chegamos em Rolante e logo fomos enviados para Três Coroas, onde a missão era encontrar duas crianças levadas pela fúria das águas. Encontramos os pequenos anjos já sem vida no dia seguinte, e essa experiência foi devastadora, mas também nos deu força para continuar.”

A rotina de Lucas e a equipe de bombeiros voluntários de Pomerode foi um mosaico de desafios e esperança. “Trabalhamos incansavelmente, seja na logística de mantimentos, no apoio às equipes médicas ou nas buscas e resgates. Usamos carros 4×4 e aeronaves para alcançar comunidades isoladas, transportando não apenas suprimentos, mas também um pouco de alívio e conforto”, explica.
Entre tantas cenas de desolação, Lucas destaca a força do espírito humano. “Ver famílias desesperadas pela perda de bens e entes queridos foi angustiante, especialmente encontrar pais sem notícias de seus filhos e crianças perdidas nos abrigos à procura dos pais. Mas o que mais me marcou foi a solidariedade. Pessoas de todo o Brasil, e até mesmo aqueles que perderam tudo, estavam lá, na água, ajudando no resgate. Isso me mostrou que, mesmo no caos, a bondade prevalece.”
A experiência trouxe lições valiosas para Lucas, tanto na vida pessoal quanto profissional. “Aprendi que a fé e a união familiar são pilares essenciais. Minha esposa foi meu porto seguro, permitindo-me ir e apoiando-me em cada passo. Como bombeiro, essa missão foi um divisor de águas. Aprendi com cada colega, cada situação, e isso enriqueceu minha carreira.”
Lucas também aproveita para deixar um recado especial. “Agradeço profundamente à minha família, à corporação de Pomerode e aos meus companheiros de missão, Dener, Jeferson e Duarte. Vocês foram incríveis. Precisamos construir uma cultura de resiliência, preparar nossa comunidade para enfrentar adversidades. Uma comunidade preparada é uma comunidade que se reconstrói.”
Para Lucas, a experiência reafirmou sua crença na bondade intrínseca das pessoas e na importância de estar sempre pronto para ajudar. “Foi muito marcante ver a solidariedade de pessoas de todo o país que estavam ajudando de alguma forma.”
Nada acontece por acaso
Assim como os colegas de farda, Paulo Ricardo Duarte também teve uma experiência marcante no Rio Grande do Sul, um testemunho emocionante da força humana e da providência divina.
Paulo atuou na missão aeromédica, uma operação que exigia precisão e coração. “Eu me sentia um anjo, levando alívio aos lugares mais inacessíveis”, relembra.
Junto a dois médicos, ele embarcou em uma aeronave, gentilmente cedida pelo jogador Neymar Jr., para levar suprimentos e cuidados médicos a áreas remotas. “Cada voo era uma nova batalha, cada pouso, uma nova esperança”, conta.

A cena que mais gravou em sua memória foi o momento em que, próximo à cabeceira de uma ponte prestes a ruir, Paulo e sua equipe quase ficaram sem água. “Foi quando olhei para o Lucas, meu companheiro, e murmurei: ‘Só por Deus mesmo para a gente achar água’”, diz ele, emocionado.
Mal terminou a frase, um helicóptero da Força Aérea Brasileira pousou quase milagrosamente atrás deles, descarregando fardos de água. “Ali, vi a mão de Deus estendida através de nós”, afirma Paulo.
Outro momento de profunda emoção foi quando Paulo teve que ajudar a distribuir mantimentos em uma comunidade desesperada. “Tínhamos que escolher quem receberia ajuda primeiro, e isso era dilacerante. Você tem que escolher, você vê criança no colo, vê idoso, pessoas com fome, pessoas com sede, pessoas querendo coisas e você não podia dar pra todo mundo”, confessa.
Entre as pessoas famintas e sedentas, uma menina de quatro anos se destacou. Ela pediu um abraço, dizendo que ele lembrava seu pai. “Ela me disse: ‘Você é muito parecido com meu papai’, e quando perguntei por ele, ela respondeu com uma dor que cortava o coração: ‘Meu papai foi embora com a enchente’.”
Em Três Coroas, Paulo estava com Lucas na difícil missão de encontrar dois corpos desaparecidos no rio. Com a ajuda de um cachorro farejador, conseguiram localizar as duas crianças, trazendo um fechamento doloroso, mas necessário, para as famílias aflitas.
A experiência transformou Paulo não só como bombeiro, mas também como pai e marido. “Levei como lição a importância de estar sempre preparado, tanto fisicamente quanto emocionalmente, para ser a esperança de alguém”, reflete.
A experiência transformou Paulo não só como bombeiro, mas também como pai e marido. “Como pai, cada situação lá me fez valorizar ainda mais a vida, a família. Cada vez que volto de uma missão, não só me orgulho de mim, mas também do legado que estou construindo para meus filhos.”

































