A revolta das cobertas e os sinais do inverno

Os próximos dias prometem ser de arrepiar. Literalmente. Os sites de meteorologia já estão em polvorosa: vem aí uma massa de ar polar daquelas que fazem o vidro da janela suar por dentro e o café esfriar antes da segunda golada. Aqui em Pomerode, já estamos todos nos preparando, ou fingindo que estamos, o que é quase a mesma coisa.

No meu caso, o plano de contingência contra o frio envolve três frentes de batalha: um filho de um ano e cinco meses, dois cachorros e uma casa que, embora acolhedora, insiste em lembrar que isolamento térmico é um luxo arquitetônico.

O pequeno — que tem energia de sobra e sono leve — declarou guerra aberta às cobertas desde que aprendeu a se virar no berço. Não importa quantas vezes eu o cubra durante a noite: minutos depois, lá está ele, de perninhas de fora, rindo na cara do inverno.

Já os cachorros, coitados, vivem num dilema. Á noite a coberta é uma amiga, de dia, o objeto perfeito para disputar cabo de guerra, ou seja, não há material suficiente para reposição.

Enquanto isso, eu vasculho gavetas atrás de luvas desaparelhadas, reencontro cachecóis que ainda têm o cheiro do último inverno e preparo a caneca de café como se fosse um ritual de resistência.

E mesmo com toda a logística noturna, mesmo torcendo para que o filho aceite ao menos uma meia nos pés e os cachorros não decidam brincar de pega-pega às três da manhã, há um certo encanto nessa chegada do frio. Ele obriga a gente a se aproximar. A colocar mais uma coberta na cama, ainda que seja tirada depois. A se preocupar com o outro: com os que não têm onde se aquecer, com os que enfrentam o inverno por dentro, mesmo estando ao sol.

Talvez o frio sirva pra isso também: pra aquecer as mãos que ainda sabem cuidar. E no meu caso, também pra me lembrar que nenhuma previsão meteorológica é páreo para a teimosia de um bebê e de dois rottweillers com personalidade.

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