Existe um lugar na minha cozinha onde as leis da lógica e da física não se aplicam: a gaveta dos potes. Ela começou como um espaço inocente, cheio de boas intenções. Potes empilhados, tampas encaixadinhas, tudo sob controle. Durou uma semana.
Hoje, abrir essa gaveta é como acessar um universo paralelo. Você enfia a mão para pegar um pote e sai com três tampas, um tupperware sem fundo e um medidor de arroz que ninguém lembra de onde veio. É o caos materializado em plástico.
O mais intrigante é que os pares se separam misteriosamente. Um dia, o pote azul está lá, firme e forte. No outro, cadê a tampa dele? Sério. Cadê? Já revirei armário, olhei atrás da geladeira, até acusei o bebê (que agora é suspeito de furto qualificado de tampas). Nada. Sumiu.
Ao mesmo tempo, acumula-se uma população de tampas órfãs. São redondas, quadradas, transparentes, com e sem válvula. Nenhuma serve em nada. Já tentei testá-las em todos os potes da casa, numa espécie de dança do acasalamento dos recipientes. Fracasso absoluto.
Pensei em jogar tudo fora e começar do zero. Mas aí vem aquela voz da maturidade econômica: “E se um dia você encontrar o par perdido? E se precisar de um pote justo daquele tamanho que você jogou fora semana passada?”
Então sigo convivendo com esse microcosmo de desordem. Fecho a gaveta com cuidado, pra nada pular pra fora. De vez em quando, tiro tudo pra reorganizar. Faço pilhas, separo os pares, tento manter a ordem.
Dura dois dias.
E assim é a vida adulta: feita de boletos, louça, e de uma gaveta onde o tempo e o espaço perdem a razão. E onde, mesmo sem tampa, os potes continuam nos ensinando a viver com o que se tem.

