Ela está ali. Silenciosa, mas não submissa.
Encostada na parede da garagem, como quem diz: “quando você quiser, eu tô pronta, tá?”
É a minha bicicleta. Azul, charmosa, tentando me fazer voltar a sentir o vento no rosto. Ela já viu dias de glória (e outros nem tanto): voltas ao redor do quarteirão, pedaladas terapêuticas aos sábados e até uma tentativa frustrada de começar a ir para trabalho – de Testo Central até o Centro – todos os dias de bike (não rolou).
Mas agora ela só observa. Me vê sair correndo para o trabalho, me vê voltar carregando mochila, sacolas e uma criança que por vezes está vibrando de alegria e por outras, chorando por querer continuar em casa. Me vê vestida com roupas confortáveis demais para pedalar com dignidade e me ouve dizendo, quase sempre:
— “Preciso voltar a andar, quem sabe amanhã!”
Só que o amanhã, em Pomerode, chega com 8 graus às 7 da manhã e o barulho do micro-ondas esquentando o leite para um café solúvel rápido. Entre o frio e o cobertor que me abraça com carinho, a bicicleta fica para depois.
Também tem a questão da maternidade. Desde que me tornei mãe — há um ano e meio e uns bons trocados de olheiras — minha rotina ganhou o charme do caos. São fraldas, mamadeiras, brinquedos escondidos dentro do armário da cozinha (sim, isso aconteceu) e uma agenda que parece ter sido montada por um roteirista de série de ação: tudo explode ao mesmo tempo. E eu? Eu sigo tentando ser protagonista com o cabelo em dia, mas às vezes pareço mais figurante na própria vida.
A preguiça, claro, também colabora. Ela se sentou no sofá da sala e nunca mais saiu. Toma café comigo, me ajuda a adiar exercícios e me convence de que “hoje não é um bom dia pra recomeçar”. E eu, muito educada, deixo ela ficar.
Mesmo assim, a bicicleta permanece ali. Firme. Sem julgamento.
Ela não me cobra metas. Não me lembra da calça que não serve mais. Ela só espera. Um dia mais quente, uma manhã menos turbulenta, uma mãe um pouco mais corajosa.
E talvez esse dia chegue. Quem sabe numa sexta-feira de sol, com vento morno e vontade de respirar fora da lista de tarefas.
Nesse dia, eu vou pegar a bicicleta pela mão — ou melhor, pelo guidão — e sair por aí.
Mas até lá, ela segue encostada.
E eu sigo aqui, inventando desculpas… e crônicas.

