Os adoçantes artificiais, muitas vezes vistos como substitutos saudáveis do açúcar, podem estar ligados a efeitos negativos no cérebro. Um estudo publicado na quarta-feira (3) na revista Neurology, liderado por pesquisadores da USP, apontou que o consumo frequente desses compostos está associado a um declínio cognitivo mais rápido.
Segundo a médica Claudia Kimie Suemoto, professora de geriatria da USP e uma das autoras do trabalho, pessoas que ingerem altas quantidades de adoçantes apresentam envelhecimento cognitivo acelerado em comparação àquelas que consomem menos.
Leia mais sobre saúde:
Como foi feito o estudo
A pesquisa acompanhou 12.772 adultos brasileiros durante cerca de oito anos, dentro do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (Elsa Brasil). Os voluntários responderam questionários sobre dieta e passaram por testes cognitivos periódicos, que avaliaram memória, linguagem e velocidade de raciocínio.
Foram analisados adoçantes como aspartame, sacarina, acessulfame-K, eritritol, xilitol e sorbitol — presentes em refrigerantes diet, sobremesas de baixa caloria, iogurtes e energéticos.
Principais resultados
Indivíduos que consumiram mais adoçantes apresentaram declínio cognitivo 62% mais rápido do que os de menor consumo, o que equivale a 1,6 ano de envelhecimento cerebral a mais.
O grupo intermediário também mostrou aceleração, com 35% mais declínio, equivalente a 1,3 ano.
O impacto foi ainda maior na fluência verbal e na memória, sobretudo entre pessoas com menos de 60 anos e portadores de diabetes.
Possíveis explicações
Os cientistas levantam hipóteses como:
Neurotoxicidade e neuroinflamação provocadas por derivados dos adoçantes;
Alteração da microbiota intestinal, com impacto na tolerância à glicose;
Efeitos sobre a barreira hematoencefálica, que protege o cérebro de substâncias nocivas.
Nem todos os adoçantes foram avaliados
O estudo não incluiu sucralose nem stévia, bastante populares hoje. No entanto, pesquisas anteriores já levantaram preocupações semelhantes, principalmente em relação à sucralose.
O que dizem os especialistas
Para Suemoto, embora os resultados sejam observacionais e não provem relação de causa e efeito, já servem de alerta:
“Se há sinais de que adoçantes podem prejudicar a saúde cardiovascular, aumentar risco de câncer e agora também afetar a cognição, talvez seja hora de reduzir o consumo”, afirmou.
Paulo Lotufo, outro autor do estudo, contou que passou a diminuir seu próprio uso de adoçantes após ver os resultados:
“Nunca imaginei tomar café sem adoçante, mas comecei a cortar e fui mudando hábitos.”
O estudo reforça a importância de moderação no consumo de adoçantes artificiais e da realização de novas pesquisas para confirmar os achados. Alternativas naturais, como mel, compota de frutas ou açúcar de coco, podem ser opções melhores, mas também devem ser usadas com cautela.
































