A trajetória de Celaine Refosco, artista de Pomerode, ganhou um novo capítulo. Com uma obra que transita entre a técnica industrial e os limites do campo artístico, ela conquistou o Prêmio AF de Arte Contemporânea 2024, que lhe garantiu uma residência de três meses na Cité Internationale des Arts, em Paris — uma das mais prestigiadas instituições de acolhimento de artistas do mundo.

“Não esperava vencer. Estava mergulhada no trabalho no ateliê quando recebi a notícia. Foi uma surpresa e uma alegria imensa”, recorda. Para ela, o reconhecimento não é apenas uma conquista simbólica, mas também uma espécie de “placa indicativa” de que a sua prática artística está no caminho certo.

Paris como palco de descobertas
Situada às margens do Sena, a Cité Internationale des Arts reúne cerca de 350 artistas de diversas linguagens — da música ao teatro, das artes visuais à dança — que convivem em estúdios individuais e espaços coletivos. É um ambiente que favorece o encontro, as trocas culturais e os olhares cruzados.
“Meu entendimento sobre a Cité foi acontecendo à medida que caminhava por Paris e voltava ao meu estúdio. Estar ali era, ao mesmo tempo, mergulhar na história da arte e olhar de fora para minha própria prática”, conta Celaine.
A rotina, marcada por visitas diárias a museus e exposições, se somava ao tempo de pintura em seu estúdio. Foi nesse contexto que ela deu continuidade às suas pesquisas sobre natureza e ciência, em diálogo com temas como crise ambiental e colonialismo. Surgiram obras como Rios Voadores e Visões de Humboldt no Orinoco.

Convivência internacional, olhar latino-americano
O convívio com artistas de diferentes partes do mundo foi um dos pontos altos da residência. Segundo Celaine, a experiência mostrou que os latino-americanos carregam uma energia particular: “Temos algo raro nesses dias: vigor. Nossa capacidade de trabalho e potência criativa se destacam.”
Apesar do aprendizado com novas perspectivas, ela observa que o diferencial europeu não está tanto nas técnicas, mas no reconhecimento institucional e financeiro dado às artes. “Lá há uma compreensão do valor da arte para a sociedade, tanto como economia criativa quanto como força simbólica. Isso ainda nos falta.”

Transformações e futuros caminhos
De volta ao Brasil, Celaine afirma ter retornado mais destemida. “O destemor é fundamental para seguir adiante”, reflete. A artista já apresentou duas exposições importantes em 2025, a individual “Um Grande Horizonte”, na Galeria Mamute em Florianópolis, e a mostra SERÁ?, no Salão Angelim da FURB, em Blumenau.
Com humor e ambição, ela também projeta novas possibilidades. Segundo ela, um sonho é ter a oportunidade de estampar a arte do maior ovo de Páscoa do mundo.
E quando convidada a resumir o impacto da residência em uma frase, Celaine não hesita:
“Se eu consegui viver em Paris por 90 dias com uma só mala, posso viver onde quiser enquanto desenho, pinto e escrevo.”
































