Houve um tempo em que eu devorava livros.
Na adolescência, na juventude, parecia que cada página tinha pressa em ser descoberta. Lia por horas a fio. Lia como quem respira, porque era natural.
Hoje, os livros continuam ali, na estante, silenciosos. Mas eu já não sou a mesma.
Entre filho, casa e trabalho — e justamente o trabalho de jornalista, que exige ler o mundo o tempo todo — as páginas de ficção perderam espaço para prazos, notícias e a crua realidade.
À noite, quando o corpo pede descanso, é o sofá que me chama. Não com a intensidade de um clássico, mas com a doçura preguiçosa de uma série que não me exige nada além de estar presente. Não preciso pensar, só deixar os episódios se acumularem como quem empilha travesseiros. É tentador demais.
Mas sinto falta. Falta daquele mergulho sem hora para emergir, falta da intimidade com personagens que me acompanhavam dias a fio, falta da sensação de ter viajado sem sair de casa. A leitura era meu refúgio e, de algum modo, sinto que me afastei de uma parte de mim mesma.
Talvez o segredo não seja recuperar o ritmo voraz de antes. Talvez seja aceitar que agora a leitura precisa caber no bolso do tempo que tenho: algumas páginas no almoço, duas antes de dormir, uma crônica rápida no café da manhã.
O importante é retomar, ainda que aos poucos.
Porque, no fundo, sei que o livro nunca me abandonou. Ele está ali, na estante, me esperando com a paciência que só os livros sabem ter.

