Um rim, dois renascimentos: A história dos irmãos Márcio e Susan

Um ano e meio após o transplante que deu nova vida ao irmão, eles comentam sobre a experiência

Em abril de 2024, Susan Elaine Kopsch realizou um gesto de extrema generosidade ao doar um rim para seu irmão Márcio Rogério Kopsch. O transplante, muito aguardado pela família, foi realizado no Hospital Santa Isabel, em Blumenau.

Agora, cerca de um ano e meio depois da cirurgia, Márcio resume a oportunidade de recomeçar de um jeito que dispensa adjetivos: “É outra vida”. Com lágrimas nos olhos, ele lembra dos longos quatro anos de hemodiálise, três vezes por semana. Da fraqueza que o consumia após cada sessão e roubava a energia para as atividades simples do cotidiano.

Cada vez mais debilitado, a espera na lista por um rim compatível se tornou insustentável. A mãe dele, agora falecida, trazia em si o desejo de doar, mas não havia possibilidade. Ela partiu antes de saber a coragem e a entrega compartilhada entre os dois filhos. “Tenho certeza de que, de onde ela estiver, está muito feliz.”

À espera de um transplante, o corpo de Márcio brigava para resistir e estar preparado para uma nova chance. Uma das provas mais representativas desse intenso desejo foi o fato de que ele precisou perder 47 quilos antes de passar pelo procedimento. O número assusta, mas a meta tinha um único objetivo: caber num futuro. E ele conseguiu, sem remédios, sem cirurgia. Os quilos a menos na balança apontavam: é chegada a hora. A doadora foi a irmã, Susan. Decidida, informada, serena. “Eu estava muito firme. Pesquisei, me cuidei e fiz todos os exames. Dois dias após a cirurgia, já estava em casa”, conta.

Sentado ao lado da irmã, Márcio baixa os olhos e a voz ao definir o que esse gesto significou para ele: “É uma parte dela dentro de mim. Se não fosse por ela, eu não estaria mais aqui”. Para retirar o rim de Susan, foi preciso apenas 20 minutos, contou o médico. Logo depois, já estava implantado em Márcio e, quase imediatamente, funcionando plenamente. A creatinina estabilizou em 1,1; a vida estabilizou num sorriso que tinha virado raro. Agora tem praia, tem neto no colo, tem segunda-feira que não começa com agulha. A hemodiálise deixou marcas nos braços, mas devolveu uma certeza: o corpo aguenta quase tudo quando a esperança puxa pela mão.

Susan não romantiza. Fala do medo que muita gente sente, do cansaço de quem segue na máquina por décadas. Fala também do que não cabe em estatística: “A família é tudo”. A esposa de Márcio largou o trabalho para acompanhá-lo, “segurou firme”, como eles dizem. A companheira de Susan também prestou todo apoio. O transplante não foi só cirurgia; foi logística de afeto.

Entre uma reflexão e outra, eles debatem o que muitos pensam e poucos dizem: doação pós-morte deveria ser natural — não por lei, mas por legado. “Se acontecesse comigo, eu doaria tudo”, dizem quase em coro. E a frase ecoa no que viveram e viram nos anos em que Márcio teve contato com outros pacientes que aguardavam pela doação: quando o órgão chega de um falecido, o tempo importa e muito.

Márcio não esconde as dificuldades daqueles anos preso à poltrona da hemodiálise, nem a saudade dos colegas que não resistiram à espera. Dessa vida, ficaram as cicatrizes nos braços, no abdômen e também no coração. Porém, todas elas significam que ele sobreviveu por meio da coragem e da decisão de partilhar tomada por Susan. Agora, ele precisa cuidar do coração, do peso e acompanhar exames de dois em dois meses. Mas a frase que mais gosta de repetir é simples como quem sabe o peso do cotidiano: “Agora dá pra viver tudo de novo.”

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