No olhar sereno de Daniela Zinke, 20 anos, cabe a determinação de quem aprendeu desde cedo que cada pequeno movimento pode ser um passo gigante. Paratleta da bocha paralímpica, modalidade que exige precisão e estratégia, Dani – como é carinhosamente conhecida – deu seus primeiros arremessos dentro da Apae de Pomerode, em 2013. “Foi a professora Ilsani Baptista, de Educação Física, quem viu o potencial dela. A Dani era bem novinha, mas já mostrava um foco impressionante”, conta Iraci Zinke, mãe da atleta, que acompanhou de perto cada etapa dessa trajetória.
Diagnosticada com paralisia cerebral em consequência de um parto prematuro, Dani encontrou na bocha uma forma de se expressar. “O esporte mudou a vida dela. Melhorou a comunicação, a autoestima, a alegria. Ela fala mais, se solta mais. A bocha abriu um mundo novo pra Dani”, emociona-se Iraci.
A superação que virou rotina
Desde o início, a caminhada foi feita de conquistas discretas, mas firmes. “Nos primeiros anos ela era muito nova e precisava esperar a idade mínima para competir no escolar. Depois disso, foi só evolução”, diz a mãe.
Hoje, Daniela compete na classe BC1, categoria que reúne atletas com maior comprometimento motor, e participa das disputas com o auxílio de uma professora auxiliar em quadra.
Nos últimos anos, os pódios se multiplicaram: Dani é tricampeã das Paralimpíadas Escolares, venceu os Parajasc, as Olimpíadas da Apae e, mais recentemente, conquistou o primeiro lugar no Regional Sul, encerrando um ciclo de “segundos lugares” que a desafiava.
“Foi uma alegria enorme. Ela vinha sempre batendo na trave, mas dessa vez venceu. Ver o brilho nos olhos dela não tem preço”, comemora Iraci. A própria Dani resume a sensação com simplicidade: “Eu só pensei em jogar. Joguei do meu jeito. E deu certo.”
Entre medalhas e sonhos
Na parede de casa, os quadros cheios de ganchinhos abrigam dezenas de medalhas — tantas que o espaço já não dá conta. “Ela fica preocupada que não vai caber mais”, brinca o pai, Frank Zinke, orgulhoso.
Mas por trás de cada conquista há uma estrutura que a família batalha para manter.
“Os custos são altos. Uma bola oficial pode chegar a R$ 500, e o kit completo, com seis bolas, ultrapassa R$ 6 mil. Elas têm validade de cerca de três anos, então a gente precisa estar sempre se virando”, explica Iraci.

A atleta atualmente treina pelo Paradesporto de Blumenau, mas há esperança de voltar a treinar na cidade natal, em Pomerode.
Um coração tranquilo nas disputas
Diferente de muitos competidores, Dani não se deixa levar pela pressão. “Ela é muito tranquila. Se ganha, ótimo. Se perde, tudo bem. Nunca se desespera”, diz Iraci, entre risos.
Essa serenidade é, paradoxalmente, uma de suas maiores armas nas quadras. O jogo de Dani costuma ser decidido “na última bola”, em disputas que exigem concentração absoluta.
Iraci, que por anos foi a auxiliar da filha nas competições, confessa que nem sempre era fácil segurar o ímpeto de torcedora: “Como auxiliar, você não pode falar, não pode reagir. É uma tensão danada! Hoje ela já não quer mais que eu seja auxiliar, então esse papel agora cabe à professora dela.”

O próximo desafio
O calendário de 2025 reserva um grande objetivo: o Campeonato Brasileiro de Bocha Paralímpica, que será realizado em São Paulo, entre 7 e 14 de dezembro.
Será a terceira participação de Dani na competição nacional. “É o fechamento de um ano cheio de conquistas”.
Mas a preparação exige apoio. A família busca patrocinadores — empresas ou pessoas físicas — que possam contribuir com recursos, suplementos, serviços de personal trainer ou mesmo apoio logístico. “Não precisa ser só dinheiro. Qualquer ajuda faz diferença para ela continuar evoluindo”, reforça Iraci.
Mais do que um jogo
A bocha, para Dani, é mais do que um esporte. É comunicação, é liberdade, é conquista. “Eu consegui”, disse ela, ao lembrar da rival de longa data que costumava vencê-la e que, desta vez, viu a pomerodense erguer o troféu. “Dentro de jogo é dentro de jogo. Fora, somos amigos”, diz com o sorriso tímido de quem aprendeu que a verdadeira vitória está em continuar jogando.
Daniela Zinke representa o melhor de Pomerode: talento, humildade e perseverança. E, assim como nas suas jogadas, segue traçando caminhos precisos rumo ao futuro — um lançamento de cada vez.
































