Quando a mente pede socorro: o alerta do Janeiro Branco

Campanha enfatiza a importância de olhar para dentro de si, refletir sobres as escolhas e buscar o cuidado necessário para enfrentar os desafios emocionais

Quando o psicólogo Leonardo Abrahão, em 2014, criou a campanha Janeiro Branco, não tinha noção do quanto sua iniciativa seria importante nos anos vindouros. O objetivo da campanha é promover a conscientização sobre a saúde mental e incentivar o autocuidado.

O Janeiro Branco foi oficializado no Brasil, como uma lei federal, em 2023. O Brasil é o país com a maior prevalência de casos de depressão na América Latina, de acordo com o relatório “Depressão e outros transtornos mentais”, da Organização Mundial de Saúde (OMS). “Janeiro é o mês em que, mesmo por um breve momento, as pessoas fazem uma retrospectiva, avaliam suas escolhas e projetam o futuro. Por isso, a campanha é tão necessária”, declara a psicóloga Renata Alcântara.

Profissional: psicóloga Renata Alcântara fala sobre as doenças mentais e a necessidade de cuidados. Foto: Arquivo pessoal

A saúde mental do brasileiro é motivo de preocupação. Um relatório da OMS sobre Depressão e outros transtornos mentais revela que 5,85% da população brasileira, ou cerca de 11,7 milhões de pessoas, enfrentam a depressão. Nesse cenário, o Brasil fica atrás apenas dos Estados Unidos, onde a taxa é de 5,9%. Um estudo epidemiológico mais recente do Ministério da Saúde projeta que, nos próximos anos, até 15,5% da população brasileira poderá sofrer de depressão ao longo da vida.

Ansiedade: outro mal invisível

Além da depressão, o Brasil também lidera o ranking mundial de transtornos de ansiedade, com 9,3% da população afetada, segundo dados da OMS. A pandemia agravou o quadro, e muitos casos de ansiedade evoluem para a depressão. “A ansiedade é uma resposta natural do corpo a situações estressantes, como uma prova importante ou uma viagem, mas quando ela se torna constante, a ponto de paralisar a pessoa ou causar sofrimento intenso, é necessário buscar ajuda”, alerta Renata.

Muitas pessoas não percebem o impacto negativo dos seus hábitos diários na saúde mental. “O que comemos, como nos relacionamos, nossa qualidade de sono e os estresses constantes podem ser gatilhos para condições como a ansiedade e a depressão”, afirma. A psicóloga enfatiza que é fundamental estar atento aos sinais e procurar ajuda antes que os transtornos se agravem.

Sintomas e formas de tratamento

A ansiedade, por exemplo, pode se manifestar de diversas formas. É importante saber quando ela é uma reação natural e quando se torna patológica. “Quando a ansiedade é causada por uma situação específica, como uma prova ou uma apresentação, tudo bem. O problema surge quando ela se torna tão intensa que interfere na rotina diária, no sono, na alimentação, e pode até causar sintomas físicos como tremores, falta de ar ou taquicardia”, explica Renata.

A boa notícia é que tanto a ansiedade quanto a depressão são tratáveis. A psicoterapia é um dos caminhos mais eficazes, e em alguns casos, a medicação também é necessária. “No entanto, o primeiro passo para o bem-estar emocional é cuidar de aspectos básicos, como alimentação, sono e atividade física. Muitas pessoas não percebem o quanto esses hábitos podem prevenir o surgimento de doenças mentais”, afirma a psicóloga.

Prevenção e autocuidado

A prevenção da ansiedade, por exemplo, pode ser feita com mudanças simples no dia a dia: uma rotina organizada, cuidados com o sono, alimentação balanceada, identificação de gatilhos emocionais, práticas de respiração e a redução de estímulos estressantes. Além disso, é importante fortalecer vínculos afetivos e reservar tempo para atividades prazerosas. “Embora nem todos tenham acesso à terapia, essas práticas simples podem ter um impacto significativo no bem-estar emocional”, destaca Renata.

Em relação à depressão, ela pode surgir a partir de eventos como o luto, mas também pode ser desencadeada por traumas não resolvidos da infância, problemas hormonais ou neuroquímicos. Os sintomas mais comuns incluem tristeza profunda, perda de interesse pelas atividades cotidianas, fadiga, alterações no sono e no apetite, dificuldade de concentração e pensamentos autocríticos. “Muitas vezes, a pessoa começa a ver a realidade distorcida, com ideias de incapacidade ou a sensação de que nada pode melhorar”, alerta a psicóloga.

Cuidar da mente: um passo fundamental para a saúde

O autocuidado é fundamental para prevenir e lidar com problemas de saúde mental. “Precisamos reservar um tempo para nós mesmos, para o autoconhecimento, e refletir sobre o nosso propósito de vida. Quando conseguimos fazer isso, estamos mais preparados para lidar com os desafios emocionais que surgem ao longo do caminho”, finaliza Renata.

“Assim, o Janeiro Branco não é apenas um mês de reflexão, mas um convite contínuo para cuidar da mente e promover o bem-estar emocional ao longo de todo o ano. A saúde mental merece atenção, acolhimento e ação, pois cuidar da mente é, de fato, um ato de amor próprio.”

Do caos à criação: Erick Schumacher transforma depressão em arte e esperança

Ninguém está sozinho em seu processo de cura. Esse é o legado que o pomerodense Erick Fernando Schumacher, 21 anos, deseja deixar com seu longa-metragem Portas Fechadas. Em meio ao caos, sem saber exatamente como ou quando sairia da depressão, ele encontrou na ideia de fazer um filme uma forma de expressão e esperança. “Quero mostrar para as pessoas que existe uma solução para o problema. Meu propósito é ajudar as pessoas com esse filme”, afirma.

Um novo caminho: Erick Schumacher enfrentou a depressão e agora deseja ajudar outras pessoas. Foto: Marta Rocha/Testo Notícias

A doença se manifestou em Erick por meio de crises de ansiedade e de pânico, dores no corpo e ausência total de motivação. “Eu queria sair de casa, mas tinha ansiedade e cólicas só de pensar na ideia”, relembra. O estopim veio quando sofreu uma crise de pânico no trabalho e precisou ser afastado. Hoje, acompanhado por psiquiatra e psicóloga, ele retoma a estabilidade e já faz planos para o futuro.

Além de buscar parceiros para transformar o filme em realidade, Erick também pretende trabalhar como bombeiro voluntário. No momento, dedica-se à conclusão do roteiro, cujo protagonista se chamará Charlie. O restante da história ainda está sendo construído, mas em breve ganhará vida. “Infelizmente, algumas pessoas não acreditam na doença e acabam não ajudando quando alguém próximo precisa. Com o filme, quero mostrar que existem profissionais capacitados para oferecer apoio. Quero contar um pouco da minha história e mostrar que é possível ficar bem”, destaca.

Proibido reproduzir esse conteúdo sem a devida citação da fonte jornalística.

Receba notícias direto no seu celular, através dos nossos grupos. Escolha a sua opção:

WhatsApp

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui