A viagem de um pomerodense à Europa transformou-se em uma imersão profunda nas origens da imigração pomerana no Brasil. O propósito central do percurso foi visitar a terra de onde seus ancestrais partiram em 1866, quase 160 anos atrás.

O trajeto incluiu República Tcheca, Polônia e Alemanha, com foco especial nas regiões históricas da antiga Pomerânia. A pesquisa conduzida teve como foco acompanhar as marcas deixadas pela família Raduenz/Radünz e, por extensão, compreender como viviam os pomeranos antes da imigração para o Brasil, da gastronomia à arquitetura, passando pela religiosidade e pelos vestígios do período pagão pré-cristianização.

A jornada de Genemir Raduenz começou em Praga, onde seu filho Gustav participou do Mundial de Hip Hop. Em seguida, a família atravessou a Polônia de trem até Szczecin (Stettin), antiga capital pomerana. A partir dali, visitaram dezenas de vilas relacionadas à origem dos imigrantes que formaram comunidades como Pomerode. Entre elas, Swidwin (Schivelbein), Resko (Regenwalde), Jarchlino (Jarchlin), Kulice (Külz), Nowogard (Naugard), Wyszogóra (Piepenburg) e Konarzewo (Kniephof), entre várias outras em território polonês, mais conectada à Pomerânia Oriental.

Na parte alemã da Pomerânia Ocidental, cidades como Stralsund ganharam destaque pela forte preservação arquitetônica e gastronômica ligada à Liga Hanseática. “Foi onde comemos arenque lembrando nosso Heringsbrott e um streuselkuchen (cuca), parecia que estávamos em Pomerode”, conta Raduenz.
Em Greifswald, o viajante visitou o Pommersches Landmuseum, considerado o maior acervo do mundo dedicado ao povo pomerano, com uma seção exclusiva sobre Pomerode. A ilha de Rügen também chamou a atenção; assim como Göhren, onde ficam as famosas casas pesqueiras dos Mönchgut (o grupo folclórico Pomerano inclusive usa o traje típico Mönnchguter Fischer Trach), e Bergen auf Rügen, onde é possível conhecer a influência dos vikings na cultura pomerana.
Experiência
“Os oito dias no território ancestral foram marcados por experiências emocionantes e descobertas relevantes para minha pesquisa. O castelo de Schivelbein e o rio Rega, nomes ainda presentes na geografia de Pomerode e Blumenau, trouxeram forte impacto histórico. Mas a visita mais comovente ocorreu em Jarchlin, onde encontrei aberta a igreja do século XV onde meu trisavô foi batizado. O momento culminou com a permissão da cuidadora, quase octogenária, para fechar o templo com uma chave de aproximadamente 480 anos”, conta emocionado. Uma igreja singela, de pedras e com aspecto medieval, com sua torre de madeira na técnica enxaimel.

Outros locais reforçaram a profundidade da experiência, como a antiga casa feudal de Külz, onde as famílias (muitas de Pomerode) laboravam nos campos, e hoje é unidade de estudos da Universidade de Stettin; as ruínas da propriedade de Kniephof, onde seu pentavô faleceu em 1863; e as florestas outonais que marcaram a paisagem percorrida durante a viagem. A hospedagem em uma antiga casa senhorial restaurada permitiu vivenciar, ainda que momentaneamente, o ambiente típico das propriedades pomeranas do século XIX.

Vivência
Segundo Genemir, a observação direta do território trouxe elementos que livros e documentos não revelam: a paisagem, o clima, a arquitetura remanescente, a flora e até a fisionomia da população local. Para ele, até a forma de preservar muda dependendo da localidade. “A preservação do patrimônio pomerano varia conforme a região. Na atual Polônia, as referências culturais limitam-se a igrejas antigas, algumas casas e poucos museus, em razão da expulsão dos pomeranos após a Segunda Guerra Mundial. Já em Mecklenburg-Vorpommern, na Alemanha, a manutenção da memória é mais evidente, com museus, arquitetura típica e comunidades rurais que lembram o modo de vida ainda encontrado em localidades brasileiras de colonização pomerana”, explica.

No Brasil, apesar da permanência da língua, da gastronomia e das casas típicas, o pesquisador percebe um processo de perda gradual da herança cultural, motivado principalmente pela falta de conhecimento e de políticas de incentivo à preservação. Mas percebe que a arquitetura, o enxaimel sendo o mais relevante, pois “marca” a identidade, continua firme na cultura.
Os jovens precisam conhecer sua origem
Segundo o pesquisador, grande parte dos jovens pomerodenses ainda desconhece suas raízes, e o fortalecimento da identidade local depende de educação e estímulo. “Acredito que isso precisaria fazer parte da grade escolar, é imprescindível conhecer a história e as origens do local onde vivemos”, enfatiza.

A experiência trouxe a ele um sentimento de completude, ao unir teoria e vivência direta em uma mesma trajetória. “Estudar e pesquisar são a base, mas ver, sentir, interagir, traz outra dimensão”, essa viagem foi incrível.
Há planos de compartilhar os resultados dessa viagem em um encontro do grupo Roda de Conversa, com a possibilidade de ampliar essa divulgação futuramente.
































