Quem caminha pela Rota do Enxaimel, em Pomerode, pode ser surpreendido por uma trilha sonora que parece atravessar o tempo. Vindas do lado de fora do Mahlzeit Café Colonial, melodias típicas ecoam de um instrumento raro e, ao mesmo tempo, absolutamente inovador. Trata-se de um realejo eletromecânico, criado pelo empresário Ivan Blumenshein, que une tradição centenária e tecnologia contemporânea em uma peça única no mundo.
O realejo, conhecido por embalar ruas e praças na Europa, especialmente entre os séculos XIX e XX, sempre exerceu fascínio sobre Blumenshein. “É algo que sempre achei mágico”, relembra. O primeiro contato veio ainda na infância, ao ver exemplares em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, onde o instrumento já era raro. Anos depois, durante uma temporada na Alemanha, ele reencontrou o realejo em funcionamento e decidiu que queria ter um.

A ideia inicial, no entanto, esbarrou em obstáculos práticos. Os instrumentos tradicionais são grandes, caros e totalmente artesanais. Foi então que surgiu o desafio: construir um realejo próprio. O primeiro modelo, feito há mais de uma década, ainda segue em uso em eventos como a Osterfest, em Pomerode. Mas o projeto mais ambicioso viria depois: um realejo capaz de tocar sozinho.
O resultado é o instrumento instalado hoje no Mahlzeit. À primeira vista, ele mantém a essência do realejo clássico: o som é produzido pelo ar que percorre flautas internas, criando timbres característicos. A diferença está no “cérebro” da máquina. Em vez do tradicional rolo de papel perfurado, que determina as notas, o sistema utiliza válvulas solenoides comandadas por um microcontrolador.
Na prática, isso significa que cada flauta possui uma válvula individual, acionada eletronicamente. Um motor gera o fluxo de ar na pressão exata, enquanto o microcontrolador “lê” a música digitalmente e envia os comandos para abrir e fechar as válvulas no tempo correto. O efeito é o mesmo de um realejo tradicional, mas com precisão, autonomia e possibilidades muito maiores.
“Ele é um realejo do ponto de vista sonoro e dos arranjos musicais, mas movido por tecnologia diferente”, explica Blumenshein. “As músicas que antes estavam no papel agora estão programadas digitalmente.”
A inovação não está apenas na automação, mas na originalidade do projeto. Segundo o criador, esse instrumento é único no mundo, por envolver soluções projetadas especificamente para ele. É uma releitura contemporânea de uma tradição quase extinta, desenvolvida artesanalmente e com engenharia própria.
Mais do que um atrativo tecnológico, o realejo cumpre um papel simbólico dentro do Mahlzeit. Assim como a casa centenária restaurada e o cardápio baseado em receitas típicas, o instrumento reforça a proposta de valorização cultural. Ele não apenas reproduz músicas: ele recria uma atmosfera.
Ao som das melodias, visitantes são transportados para um imaginário europeu que dialoga diretamente com a história de colonização da região. O realejo, nesse contexto, deixa de ser apenas um objeto curioso e se torna parte da narrativa do lugar, um elo entre passado e presente, tradição e inovação.
Na Rota do Enxaimel, onde cada construção guarda memórias de outras épocas, o som do realejo eletromecânico prova que preservar a cultura também pode significar reinventá-la.
































