Educar para fazer o bem

Projeto leva alunos do colégio Dr. Blumenau para uma experiência com idosos do Pommernheim

Foto: Divulgação/Arquivo pessoal

Uma atividade de pesquisa inspirada em um livro levou alunos da educação infantil do colégio Dr. Blumenau para uma vivência que ultrapassou os limites da sala de aula e se estendeu até o asilo Pommernheim.

Tudo começou quando os pequenos, que têm cinco anos, conheceram a história do livro “Julião, Tico e o balão”, da escritora Ana Paula de Abreu. Julião é um menino que sonha em viajar o mundo e, depois de vencer um concurso de contação de histórias, é aconselhado por sua mãe a guardar dinheiro para realizar seus objetivos. Ele economiza e depois compra um balão para seguir em sua jornada. A partir da trama, os professores escolheram um país para cada turma pesquisar e o resultado foi apresentado na Feira do Conhecimento, em setembro deste ano.

Acontece que na turminha do nível quatro a atividade foi além. Como o país trabalhado por eles era a Alemanha, a professora Bruna Letícia Greuel viu no projeto a possibilidade de desenvolver uma ação social com os pequenos. A partir da lição da mãe de Julião sobre dinheiro ela criou um pedágio solidário na escola com a intenção de arrecadar recursos que seriam revertidos em doações para o Pommernheim.

– Pensamos no Pommernheim primeiro porque o nome é em alemão e porque muitos dos idosos que estão lá dominam o idioma. Poderia ser uma troca diferente para os alunos, um momento de aprendizagem único. Passamos a arrecadar com o pedágio no colégio, com alunos e funcionários, e depois demos um porquinho para que cada estudante, aos realizar tarefas simples em casa, ganhasse uma moeda de R$ 1 caso os pais quisessem doar – explica Bruna.

Segundo a professora, a iniciativa ajudou os pequenos a terem noções de matemática e educação financeira, e ainda mostrou que é preciso se esforçar para alcançar resultados. Estimulados por Bruna, eles acabaram participando de todas as etapas do projeto, desde a criação do pedágio, à arrecadação e à compra dos donativos.

A pedido da administração do asilo, o dinheiro arrecadado foi revertido em produtos de higiene e limpeza e a turma foi convidada a fazer a entrega dos produtos para os 30 idosos que moram no local. Segundo a professora, o ato se revelou em um momento especial, que mostrou uma realidade diferente da qual os pequenos estão acostumados.

– Mostramos que a velhice tem suas características e que não pode ser vista como uma coisa negativa, e sim um ciclo do qual todos nós iremos passar.

Lição de cuidado e carinho
Depois da primeira iniciativa, alunos voltaram ao asilo com suas famílias para uma tarde diferente

Com o sucesso da primeira ação envolvendo o Pommernheim e as crianças, a professora Bruna quis mais. “Senti necessidade de ampliar essa iniciativa”. Foi aí que surgiu a ideia de propor que pais e alunos “adotassem” um idoso para presenteá-lo neste Natal.

– Reforçamos o tempo todo com os pais e com as crianças que eles não estão abandonados, e que adotá-los seria uma forma de demonstrar afeto e de fazermos uma experiência de carinho e cuidado para todos os envolvidos – conta.

Do outro lado, Fabiana reuniu os pedidos dos idosos com o que eles gostariam de ganhar. Blusinhas de verão, calças de moletom, chocolates (dois pedidos), perfumes e talcos (a maioria). Coisas simples, mas que poderiam fazer a diferença na vida deles.

Em mais uma experiência de aprendizado, a professora então pediu que cada aluno pegasse um papel com uma letra. A ideia era que a letra correspondesse a um presente e ao idoso que pediu o mimo e entregasse aos pais para que fizessem a compra.

Na tarde do dia 26 de novembro, os pequenos voltaram ao asilo. Acompanhados pelos pais e uniformizados com uma camiseta especial da turma, entregaram os presentes, cantaram músicas e homenagearam os idosos. O Papai Noel também esteve por lá e fez a alegria de todos. Um dia de emoções e muito aprendizado, segundo Bruna.

– No fim das contas muitos pais até nos disseram que o presente que eles deram foi o mínimo diante da experiência que eles tiveram com os filhos lá. Foi muito emocionante constatar como esse momento significou muito para todos nós.

Para o próximo ano, a intenção da professora é voltar a desenvolver atividades com alunos no asilo. Para ela, além de exercer valores como a empatia, a solidariedade e o cuidado com o outro, a experiência ajuda os estudantes a entenderem melhor as fases da vida.

– Foi importante para eles entenderem como são os ciclos da vida. A terceira idade é o momento em que a pessoa tem muitas coisas para compartilhar, tantas memórias e lembranças que muitas vezes são ignoradas. E ter feito essa ação reforçou os valores que eu quero que eles levem para o futuro. Sempre abordo isso, eles são a nossa esperança de uma vida melhor.

Inspiração e desafio para o futuro

Esta não é a primeira vez que estudantes fazem parte de alguma ação social no Pommernheim e a coordenadora e fisioterapeuta do espaço, Fabiana Fragoso, é só elogios a ideias que promovam esse intercâmbio entre gerações.

O asilo tem capacidade para 47 idosos, mas conta com 30 moradores no momento. Todos eles são acompanhados por especialistas e têm o contato frequente com familiares. Mas, para Fabiana, a ação com as crianças foi especial para eles.

– Essa integração e a troca de carinhos e vivências foi um fato muito marcante e surtiu um bom resultado. Vem uma memória afetiva dos filhos, dos netos – conta.

Para os pais e alunos que participaram, Fabiana acredita que a melhor lição deste encontro foi reconhecer que idosos têm fragilidades e que é preciso aceita-las como parte da vida.

– Muitos dos nossos idosos estão debilitados, enfrentam doenças como o Alzheimer. Esse encontro acaba desmistificando um pouco a ideia de que todos os idosos estão sempre saudáveis e ativos.

De outra forma, também, a coordenadora imagina que o encontro tenha ajudado os pequenos a terem uma figura familiar, nos casos em que as crianças já não têm mais os avós vivos.

– Já lancei a provocação para a professora para que no ano que vem a gente faça uma vivência em que alunos passem o dia todo com os idosos, tomem café com a gente e participem das nossas atividades. Ou quem sabe estendam até para adolescentes, que normalmente são mais retraídos.

Amor acima de tudo

A fisioterapeuta Milene de Lorenzi Cancelier Mazzucco Karsten, 39 anos, é mãe do pequeno Felipe, de oito anos, e de Caroline, de cinco – e que é aluna da professora Bruna. Para ela, a forma como todo o projeto foi trabalhado garantiu que os conteúdos aprendidos em sala de aula se aliassem à vida e aos sentimentos de amor e solidariedade.

– Primeiro elas tiveram essas noções de matemática e educação financeira, mas estavam trabalhando outras coisas ao arrecadar dinheiro, como o companheirismo e a dedicação para alcançarem um objetivo – explica.

Além disso, Milene acredita que a ação com o asilo ajudou as crianças a enxergarem as nuances da vida. Muitos estão habituados à rotina dos avós mais ativos, que ainda trabalham. Ver as delicadezas desta fase da vida foi importante para eles, mas não mais do que o amor que envolveu todo o encontro.

– Foi uma mistura de sentimentos fabulosa, de família, com o pessoal do asilo, as crianças. A pureza dos idosos e das crianças, todo mundo saiu feliz e satisfeito por termos plantado essa sementinha no coração da gente. Fica uma lição de cuidado, de carinho. Foi muito especial para nós e a base de todo esse projeto foi o amor. Da escola, da professora, dos idosos, dos pais e das crianças.

Segundo ela, os pais ficaram tão impactados com o evento que se organizaram para ajudar o asilo em outras demandas. Ela pretende também fazer novas ações nesse sentido, em uma corrente que envolva a família toda.

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