No Vale do Rio do Testo (Pomerode), com a predominância de imigrantes pomeranos, como ocorreu o processo de incorporação dos Schützenvereine? Nos Fascículos “Pomerode: sua história, sua cultura, suas tradições”, vemos que na primeira metade da década de 1980 acreditava-se que os primeiros Schützenvereine foram criados a partir de 1930 em Rio do Testo. Porém, em investigações posteriores foi descoberto que no ano de 1890 havia sido fundado o Schützenverein Ehr und Wehr (Sociedade de Atiradores Honra e Defesa). Como o nome sugere, esta sociedade deve ter contribuído para os colonos desenvolverem a defesa contra os ataques de indígenas e animais selvagens. Sua sede foi instalada no pequeno salão de propriedade de Wilhelm Krahn e situava-se na rua hoje denominada Progresso. Se antes havia uma diferença de quase 70 anos com relação aos primeiros anos de imigração em Rio do Testo, agora esta diferença havia caído para menos de 30.

Ainda nos Fascículos, encontramos a seguinte expressão: “…. Pois não se podia admitir a indiferença dos colonos pomeranos pelas suas festas tradicionais, que já vinham sendo praticadas na sua terra natal. Do mesmo modo não se podia aceitar como fato consumado de que somente meio século depois da colonização desde vale os imigrantes e seus descendentes iriam interessar-se pela prática do esporte de tiro ao alvo”. Porém conforme os próprios Fascículos, os Schützenvereine foram criados na Europa para defender as cidades contra os senhores feudais que cobiçavam as riquezas das cidades prósperas. Ou seja, estas associações foram criadas para impedir que as cidades fossem anexadas aos feudos, justamente o local onde os pomeranos vassalos viviam. Na Alta Idade Média, os senhores feudais deixavam gradativamente de atacar as cidades e seus filhos primogênitos passaram a seguir carreira militar. Por este motivo, séculos mais tarde, grande parte do corpo de oficiais prussianos possuía a preposição “von” antes do sobrenome, pois eram filhos dos latifundiários, da “nobreza rural” pomerana.

O mais famoso de todos eles foi Otto von Bismarck. Ao contrário das cidades, os feudos não se modernizaram após a Reforma Protestante, mantendo uma estrutura medieval. Era um mundo paralelo onde os senhores feudais jamais concederiam aos vassalos o porte de arma, pois se o tivesse o latifundiário seria o primeiro alvo a ser abatido! Além disso, não permitiriam a participação numa associação que foi originalmente criada para combatê-los (ver imagem com o esquema Cidades do Império Germânico X Feudos na Pomerânia). Dentre os imigrantes pomeranos, havia um pequeno número oriundo da alta burguesia, como o já citado tenente Emil Odebrecht, filho de juiz que atuava na capital da Pomerânia e posteriormente em Anklam. Estas cidades estavam localizadas na Pomerânia Ocidental, região mais próspera da Pomerânia.

Na Época de Emil Odebrecht, a indústria estava dando os primeiros passos em Stettin, que vivia uma fase gloriosa de seu progresso. Sua posição social lhe possibilitou o conhecimento das sociedades existentes na região da Pomerânia Ocidental. Mas a maioria dos imigrantes pomeranos era oriunda da Pomerânia Oriental, parte extremamente pobre, conforme relata Roland Ehlert no livro 500 anos de Pomerode: “A cena do filho, que com fome, na calada da noite, abria o armário em busca de alimento… Quando um filho queria comer fora de hora, a mãe chamava a atenção e dizia: Você já comeu. Vamos guardar para amanhã”. Também vemos a situação precária destes imigrantes nos versos de um convite de casamento na Pomerânia Oriental, mais precisamente da cidade de Stolp: “Metser, gåbels un leepels wäire ni forgeete, soo brüüke jij ni mit fingern eete” (facas, garfos e colheres não foram esquecidos, assim vocês não precisam comer com os dedos). Conforme os Fascículos da Fundação Cultural de Pomerode, em Rio do Testo surgiram primeiramente os Tanzsall (salão de danças), onde ocorriam os Tanzabende (bailes à noite). Estes bailes também ocorriam em algumas residências que dispunham de amplas salas concebidas para eventuais festas. Posteriormente a estes salões são anexadas as instalações das Schützenvereine. Esta é uma clara influência do Stadplatz de Blumenau ao qual Rio do Testo pertencia. Esta influência era inexistente nas comunidades pomeranas do ES e RS.

Busca do Rei Curt Hackbarth no centro de Pomerode. Acervo: Halli Nicolodelli
Georg Arnold Carl von Kameke (1817 – 1893), foi um general da infantaria prussiana e posteriormente ocupou o cargo de Ministro de Guerra da Prússia. Um exemplo de militar oriundo da família von Kameke, pertencente a “nobreza rural” pomerana. Foto: https://peoplepill.com/people/georg-von-kameke 
O pomerodense Brueder Wachholz (in memoriam) e suas várias conquistas/ honrarias estampadas na vestimenta. Foi um exímio Comandante de Marcha em inúmeras Schützenfest (Festa dos Atiradores). Foto: Arquivo Testo Notícias 
Esquema demonstrando a inexistência das associações/Schützenverein e das escolas nos feudos da Pomerânia. Segundo Rölke, no ano de 1853, um decreto prussiano proibiu o trabalho de crianças abaixo de 12 anos, abrindo assim gradualmente o espaço para o surgimento das escolas nas imediações das propriedades da “nobreza rural” (remanescentes dos feudos). Arte: redação Testo Notícias 
Frederico II, Rei da Prússia, visitando colonos pomeranos nas plantações de batata em 1763, no Sul da Pomerânia. Quando lhe perguntaram sobre os pomeranos ele respondeu: “São bons soldados e excelentes agricultores”. Obra do pintor Robert Warthmüller entitulada de “Der König überal”. Foto: http://www.bz-berlin.de/media/friedr-ii-kartoffelernte-warthmueller
Por este motivo existem até hoje os salões de baile nas comunidades pomeranas nestes dois estados sem a caracterização de Schützenvereine. Esta influência do Stadplatz sobre Rio do Testo também responde a um questionamento levantado por aqueles que estudam a cultura pomerana no Brasil. Conforme Rölke, diz-se que na Pomerânia Ocidental a comunidade pode ter o melhor pastor possível, e mesmo assim ele não conseguirá encher a igreja de fiéis. O contrário vale para a Pomerânia Oriental: pode ser o pior pastor, que mesmo assim não conseguirá afugentar os fiéis. A igreja estará sempre lotada! Por este motivo, nas comunidades pomeranas do ES e RS, as igrejas possuem grande frequência até hoje. Então por que motivo os descendentes de pomeranos da região do Vale do Itajaí, também originários em maior número da Pomerânia Oriental, não comparecem aos cultos com a mesma frequência que descendentes de pomeranos gaúchos e capixabas? Isto se deve principalmente ao fato das Schützenvereine terem substituído gradativamente a igreja como centro cultural e social para o pomerano catarinense.

Lembremos as palavras de Sueli Petry descritas no livro Os Clubes de Caça e Tiro na região de Blumenau: “nas instalações das sociedades não era praticado apenas o tiro; os problemas comunitários também mereciam atenção, havendo troca de ideias, informações e experiências que se tornavam úteis e decisivas para o benefício social, cultural e recreativo da Colônia”. Então se nos primórdios da colonização pomerana no Vale do Itajaí os encontros sociais ocorriam antes e depois dos cultos à volta da igreja, estas reuniões foram transferidas de forma gradativa para as estruturas das Schützenvereine à medida que estas começaram a surgir, principalmente a partir da década de 1930. Esta importância que os pomeranos orientais davam a frequência nos cultos se deve provavelmente a uma influência do povo Wenden, que no período anterior a cristianização da Pomerânia (ocorrida no ano de 1124), compreendia o templo religioso como algo sagrado. Por isso a igreja vivia lotada mesmo que os pomeranos não compreendessem nada da prédica, realizada apenas em língua alemã nas comunidades pomeranas do ES até a década de 1970. Dentre os pomeranos capixabas era muito comum ouvir a expressão: “Daí preeg wäir sër schöön, åwer ik hawe nischt forståe wat hai sägt” (A prédica do pastor foi muito bonita embora eu não tenha compreendido nada do que ele falou).

Após inauguração do primeiro Schützenverein em Rio do Testo (Pomerode), pouco a pouco foram surgindo outras sociedades. Esse processo começa de fato a ganhar impulso na década de 1930 com a segunda geração de descendentes dos imigrantes pomeranos nascidos no Brasil. Durante séculos, o foco de grande parte da população pomerana estava na sobrevivência. Segundo Franz Rehbein, a mesma situação era vivida pelos pequenos agricultores, artesãos, ferreiros e diaristas que habitavam as cidades da Pomerânia Oriental. Rehbein descreve sua infância como filho de alfaiate e posteriormente como diarista, para poder sobreviver. O pai não tinha máquina de costura. Todas as costuras tinham que ser feitas à mão. “Toda a preocupação girava em torno da alimentação e combustível para a calefação, nos meses de inverno”. O foco na sobrevivência esclarece a indiferença dos imigrantes pomeranos com relação a preservação de sua história, e consequentemente com as sociedades de atiradores. A gradativa formação das Schützenvereine em Rio do Testo pode ser considerada uma revolução na vida dos pomeranos que aqui viviam, pois conforme Ludwig III da Saxônia afirmou: “Os pomeranos não servem para guerrear.
Os pomeranos não prestam para organizar exércitos. Os pomeranos não têm serventia nenhuma para o fator de guerra. Porém, ressalvo que os pomeranos dão pressão às máquinas que trabalham nas indústrias para o processo de desenvolvimento da Europa. Lembrando que lá possuem as melhores técnicas agrícolas da região. Lá já faziam experiências para modificar as técnicas agrícolas. Porém, para este reino, os pomeranos são muito importantes para a área da alimentação”. Ludwig III fez menção apenas a classe roceira.

O Rei Curt Hackbarth em sua casa no centro da cidade de Pomerode. Enfileirados da esquerda para direira: Norberto Kamchen, Curt Hackbarth e Halli Nicolodelli. Na frente dos Cavaleiros e Rei, está o capitão da marcha, Brueder Wachholz. Acervo: Halli Nicolodelli 
Clube Pomerode na sua 1ª sede no local onde está atualmente, no centro da cidade de Pomerode. Acervo: Heike Weege 
Clube Pomerode na década de 1950. Acervo: Heike Weege 
O Rei Arno Glatz e sua esposa Wally Koch Glatz na localidade de Testo Central (Pomerode). Acervo: Rejane Koch Goede
Pois como vimos na edição anterior, a tarefa de organizar exércitos cabia aos primogênitos oriundos da nobreza pomerana. O rei da Prússia, Frederico II, que reinou de 1746 a 1786, visitou algumas vezes a Pomerânia e conhecia bem esta realidade. Por este motivo, quando lhe perguntaram sobre os pomeranos, ele respondeu: “São bons soldados e excelentes agricultores”. Aqui no Vale do Itajaí, os descendentes Pomeranos puderam com muita fé, suor e determinação avançar nos seus propósitos de terra própria e a busca incansável por prosperidade. A igreja, a escola, e, mais tarde a inserção dos Clubes Sociais, configuram a tríade determinante para os atuais índices de qualidade de vida. Entre os legados, temos em Pomerode atualmente 15 Sociedades de Atiradores que desenvolvem inúmeras atividades culturais.
































