O pinheiro ficou intacto por incríveis 48 horas

Eu deveria ter esperado. A tradição diz — e minha consciência até sussurra — que o correto é montar o pinheiro no primeiro fim de semana do Advento. Mas quem disse que eu tenho esse autocontrole? Eu adoro o Natal com a mesma intensidade com que meu filho de quase dois anos adora… bem, qualquer coisa redonda que possa ser arremessada ou chutada. Então, assim que novembro, lá fui eu, tirando caixas de cima do armário como quem abre um calendário do advento clandestino.

Este ano, eu estava otimista. No ano passado, para proteger o pinheiro, tivemos que erguer uma fortaleza: sofás empurrados, almofadas estrategicamente posicionadas, praticamente um muro de Berlim natalino separando o bebê dos enfeites. Uma barricada que, aliás, ele encarou com a determinação de um explorador do Discovery Channel. A cada momento de desatenção minha, lá estava ele, tentando invadir o território proibido, arrancando bolinhas e levando-as para destinos desconhecidos.

Mas agora ele está maior, pensei. Compreende mais. Talvez até admire a árvore, essa obra cintilante da natureza (de plástico), com o respeito que ela merece.

E, de fato, o pinheiro ficou intacto. Por incríveis — absolutamente incríveis — 48 horas.

No trigésimo minuto da terceira manhã, ouvi uns sons suspeitos na sala. Caminhei com aquela intuição afiada que só mães e gatos possuem. Lá estava ele: meu pequeno atleta, olhos brilhando, segurando uma das bolinhas douradas como quem segura um troféu. Antes que eu dissesse qualquer coisa, ele olhou para mim, sorriu e anunciou, com a convicção de quem descobre a própria voz:

BollLLLa!

E então, com a força de um chute de categoria de base, lá foi a decoração natalina atravessando o tapete.

Desde então, algumas bolinhas já foram escaladas para o time titular. Outras figuram no banco de reservas, mas honradas por terem participado. A cada dia, descubro uma nova função inventada para os enfeites: bola, carrinho, chapéu.

E quer saber? Tudo bem. A árvore continua lá, meio desalinhada, ligeiramente desfolhada em alguns pontos, mas firme. E eu também continuo aqui, adiantando o Natal como sempre, acendendo as luzes antes do tempo, abrindo caixas antes da hora e colecionando essas memórias caóticas, engraçadas e luminosas — exatamente como deve ser a época mais maravilhosa do ano.

Porque talvez o pinheiro não sobreviva imaculado até o Natal. Mas essas histórias… ah, essas sim vão durar muito mais que 48 horas.

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