Ele ainda não tem dois anos, mas já tem vontades. Muitas.
Sabe o que quer, e o que não quer, com a firmeza de um ministro. “Não”. “Xim”, ele diz, com uma convicção que eu invejo. Às vezes o não vem antes mesmo que alguém faça uma pergunta, mas diz, só para garantir a autonomia. É o “não preventivo”, típico da idade.
As palavras começam a brotar como florzinhas depois da chuva — umas saem tortas, outras nascem inteiras. Cada uma é uma conquista, um espanto. “gute” (iogurte), “amião” (caminhão), “Paaaavão”, “pão”, “au-au”, “mais”. Ele testa o som, saboreia as sílabas, ri quando a gente entende, fica chateado quando ficamos com aquela cara de “quê?”. E quando isso acontece, ele tenta de novo, como um pequeno repórter que não aceita a primeira resposta.
Agora ele corre, escala, tateia. E ri desse poder novo de ir e vir. Quer subir em tudo: sofá, cadeira, degrau, vida. O corpo quer descobrir o mundo. E eu vou atrás, com o coração pulando no mesmo ritmo, tentando equilibrar o medo e o encanto.
Às vezes penso que essa é a idade em que eles começam a nos deixar — bem devagar, passo a passo. Já não querem tanto colo; querem chão. Já não aceitam tanta ajuda; querem tentar sozinhos. E ao mesmo tempo, ainda voltam — cansados, suados, os cabelos colando na testa, pedindo o abraço que é casa.
Falta pouco para ele completar dois anos. Dois.
É tão pouco tempo, e parece uma vida inteira.
O bebê ainda está ali, no jeito como encosta a cabeça no meu ombro quando o sono chega. Mas o menino já desponta, firme, curioso, dono do próprio riso.
Enquanto ele aprende palavras, eu aprendo silêncios.
Enquanto ele descobre o mundo, eu reaprendo a olhar para ele — não com o olhar da jornalista que busca fatos, mas com o da mãe que se espanta com o tempo.
Dois anos, quase.
E eu ainda me pergunto quem está crescendo mais: ele ou eu.

