Com o maior amor do mundo nos braços, como ainda é possível sentir tristeza, dúvida e medo?
O ano em que fui uma mãe recém-nascida vai chegando ao fim e com ele tantas lições aprendidas, lágrimas derramadas, novos medos descobertos e, sim, a compreensão do tamanho milagre representado pela personificação do amor.
Sim, quando nasce um filho, nasce uma mãe. O que não lhe explicam é que, assim como aquele bebezinho lindo, a mãe também está aprendendo tudo do zero. Muitas vezes, escapa à compreensão também o fato de que a mulher que existia antes, nunca sai da maternidade. De certa forma, ela termina a jornada lá, no momento em que o olhar dela cruza com o daquele serzinho magnífico que vem ao mundo anunciando sua chegada a plenos pulmões.
Ela nunca sai da sala do parto… Quando volta ao quarto, corredor acima, trazendo consigo o novo integrante da família, a cada metro avançado, um pedaço dela vai lentamente se desfazendo. Essa desconexão de si é algo desafiador, doloroso e até mesmo cruel.
“Calma, eu volto”, pensei tantas e tantas vezes. Minha inocência chega a ser engraçada agora, um ano após ser recém-nascida. A outra de mim nunca voltou, não há espaço para ela, agora é o tempo da minha nova versão.
Por vezes durona e dona de si, por vezes frágil e desajeitada. O “eu” que já não encontra espaço para o singular, apenas o plural existe em minha alma: nossa família, nossa casa, nossos problemas, nossas alegrias, nosso amor… Apenas o plural.
E o plural pode ser injusto, pois se a febre e a doença doem em nós três, por que o bebê precisa superá-las sozinho? Quero tomar para mim, deixa que eu enfrento, me dá a febre, me dá a dor. Para mim! Não para ele! Foi nesse momento que realmente descobri qual o sabor do desespero.
E voltar ao trabalho, o que foi aquilo? Aprender a senti-lo longe, voltar a produzir, voltar a criar. Entender que nunca mais a mente estará focada apenas num único e específico projeto. Como eu disse, aprendi a ser plural.
E a mãe da gente? Sabe quando ela dizia: “quando você for mãe, vai entender”? E foi com tanta surpresa e calor no coração que eu entendi tantas coisas. O cansaço, a preocupação, o sacrifício. Acho que foi ali que enxerguei minha mãe pela primeira vez. E agora, 36 anos depois de fazer o mesmo percurso pelos corredores da maternidade, levando um bebê recém-nascido para o quarto, ela e meu pai mudam toda a programação para me ajudar a aprender a caminhar novamente, suporte para passar pela fase de mãe recém-nascida. Que magnífico!
E o amor da vida da gente? Ver o homem que você ama tornando-se pai é esplendoroso. Mas aprender a enxergá-lo além da paternidade é desafiador. Mais um momento de conexão e desconexão, mais um desafio para superar.
Parece muita coisa né? Deixe-me te contar, mães recém-nascidas pensam em tudo e em todos, o tempo todo.
Então é ruim? Digo, a maternidade é ruim?
Deixa eu te falar, ontem quando cheguei do trabalho, meu filho me olhou, sorriu, correu para os meus braços e disse: mamama. Tem como isso ser ruim?
E quando ele virou de lado pela primeira vez, um prodígio (me deixa, eu fiquei orgulhosa). E quando ele engatinhou, então! Aí, ele aprendeu a andar… ANDAR, todo independente percorrendo os quartos e cômodos da casa. E nessa semana ele tentou colocar o chinelo do papai nos pés. Em que mundo alguma dessas coisas pode ser ruim?
A maternidade é uma jornada cheia de imperfeições, dúvidas, desafios, mas, sobretudo, é um festival de descobertas, superações, alegrias, renascimento. É fácil? Não! É a coisa mais difícil que já fiz na vida. Vale e pena? Vale! É a coisa mais maravilhosa que experimentei em toda minha existência!
Após a maternidade, aprendi a perceber a magia em meio ao cotidiano. O milagre em meio à correria. O amor na sua forma mais duradoura.
E como deixar de ser uma mãe recém-nascida então? O segredo, descobri faz pouco, é saber que sua melhor versão está por vir, com mais um ensinamento, uma lição, com mais uma dor superada, com o som da risada do seu filho ecoando em sua mente um pouco antes de dormir, com o calor da mãozinha dele segurando a sua, com mais um estripulia da qual você não pode rir abertamente, mas fica imaginando: “olha só a inteligência dessa criaturinha”. A maternidade é a jornada da imperfeição em sua melhor forma! O “eu” mãe, o “eu” mulher, o “eu” profissional. Tudo se mescla diante da pluralidade conquistada e aprendida por uma mãe perfeitamente imperfeita.

