Talvez você me conheça, tenha passado por mim na rua e ficado sem um cumprimento formal, um sorriso de canto de boca ou um pequeno aceno de cabeça que seja. Eu sei, absurdo! Mas o fato é, eu não te vi. Ou te vi e não te enxerguei (se é que faz sentido).
Desde criança tenho o mau hábito de caminhar pra lá e pra cá pensando na morte da bezerra, como minha mãe e meu pai bem definem desde criança. “É obrigada a tropeçar filha, tá sempre pensando na morte da bezerra!” “Não viu o pai passar de carro? Sempre com a cabeça no mundo da lua!” E por aí vai, poderia citar uma centena de exemplos.
Cresci, mas não me livrei desse costume.
É involuntário: um passo, dois passos, três passos e puff: a mente divaga entre o óbvio e não tão óbvio. Listas de tarefas para fazer. Repassar a vergonha do dia (ou de séculos atrás, ainda não superada). Dar risada de uma piada que me vem à mente do nada (essa geralmente vem acompanhada de olhares julgadores: tá doida?). Sibilar uma canção que não sai da cabeça, inclusive em línguas que nem sei falar. Tem até vezes em que minha mente entra em um longo debate comigo mesma, argumentação atrás de argumentação, eu poderia seguir por quilômetros.
É claro que, ao chegar a um cruzamento, ouço a voz da minha mãe na cabeça: “não atravessa sem olhaaaaar!” Fora isso, é de Nárnia (um lugar fictício retratado em livros “As crônicas de Nárnia” e que ganhou adaptações cinematográficas). Felizmente, vez ou outra eu também chego à solução para um impasse do cotidiano somente analisando o cenário e as opções na minha mente, enquanto minhas pernas se movem.
Então é isso, se eu não te cumprimentei, não é antipatia. Se você passou por mim e eu estava rindo, não estou louca. E se não te acenei de volta, é porque a mente estava em outro plano. Sinta-se à vontade para perguntar: pensando na morte da bezerra menina?

