Na noite de 10 de março de 2011, a chuva que caiu sobre Pomerode deixou de ser rotina para virar tragédia. Entre 18h e 20h, foram mais de 140 milímetros, o esperado para todo o mês. Em poucas horas, o Centro ficou isolado, pontes e barreiras caíram, centenas de pontos de alagamento se espalharam e mais de oito mil pessoas foram diretamente afetadas. A cidade decretou Situação de Emergência. Dentro e fora da sede dos bombeiros voluntários, aquela noite ainda ecoa.
O caminhão que ficou na rua
Quando a enxurrada começou a tomar as vias, Lucas Loures Alichandre e Marcos Krahn estavam fora da base. A equipe que estava inicialmente no caminhão havia saído para atender um princípio de incêndio e, sem saber, aquele deslocamento garantiria que ao menos uma viatura permanecesse operando.

“Já percebemos que a situação estava começando a sair da normalidade”, lembra Lucas. No retorno, ruas começavam a alagar. Um chamado levou o caminhão até Testo Alto, mas, no caminho, surgiram novos pedidos de socorro.
A primeira ocorrência ligada à chuva foi uma senhora ferida dentro de casa. A água havia invadido o imóvel e eles tentavam levantar os móveis quando ela foi atingida por um deles, que caiu sobre ela e fraturou seu braço. O caminhão conseguiu chegar até a residência e levá-la ao hospital. Depois disso, a missão passou a ser retirar pessoas ilhadas onde fosse possível alcançar.

O momento mais marcante veio na região central, onde o rio havia transbordado. Uma família estava presa dentro de casa. Sem barcos ou botes, equipamentos que a corporação ainda não possuía, Lucas e Marcos tomaram uma decisão: entraram na água.
Nadaram até a residência. Primeiro, retiraram um senhor que estava sentado sobre uma pedra, entre duas casas, cercado pela água. Depois voltaram para buscar um casal e duas crianças, já com água na altura do peito e sem saber nadar. Improvisaram com um móvel que boiava, colocaram a família sobre ele e conduziram todos até uma área seca. Havia o risco de a água subir ainda mais. “Foi uma situação desafiadora”, resume Lucas.

Marcos também traz à memória outro resgate, feito antes de se juntar à equipe do caminhão: um idoso que havia sofrido uma queda, em uma rua com água pela cintura, nos fundos da sede da Porcelana Schmidt. Com ajuda de vizinhos, ele foi colocado sobre uma escada e transportado até conseguir atendimento do SAMU, o hospital estava ilhado, assim como as ambulâncias.
Naquela noite, a prioridade era clara: onde houvesse pessoas e acesso, ali estaria o caminhão 1801. A única viatura que conseguia circular.
Quando a água subiu pelo teclado
Enquanto isso, na sede da corporação, o então bombeiro voluntário e hoje comandante, Carlos Ricardo Hein, via a água avançar.

A chuva se intensificou após as 20h. A lâmina que antes tomava a rua Hermann Weege começou a entrar pelas instalações. Veículos foram removidos para uma parte mais alta da via. Materiais eram erguidos às pressas. Hein permaneceu ao telefone, recebendo relatos de moradores com água invadindo casas em diferentes pontos da cidade. Até que a central precisou ser desligada.
A água chegou à altura do teclado do computador. Para evitar a perda total dos equipamentos elétricos, a comunicação foi interrompida. Já havia registros de alagamentos do Portal Norte ao Centro, mas dali em diante a crise ganhava outra dimensão: a corporação também estava sendo engolida.

O rádio falhava com o clima. As viaturas não conseguiam sair pela rua tomada. O apoio precisou vir de outras cidades. Dentro da sede, divisórias foram danificadas, documentos se perderam, uma ambulância e um veículo administrativo tiveram perda total. O marcador que hoje sustenta o alarme geral indica até onde a água chegou: cerca de 1,6 metro.
Quem estava nas ruas só descobriu a dimensão do estrago quando retornou, entre 4h e 5h da manhã. “Foi um cenário desolador”, recorda Marcos. Lama, perdas materiais e a impossibilidade de continuar qualquer atendimento dali.
Superação em meio à lama
Se a enxurrada expôs limitações, não havia embarcações nem equipamentos de resgate aquático, também revelou força coletiva.
Voluntários que estavam em casa ajudaram vizinhos. Bombeiros de cidades próximas vieram com botes e barcos. Moradores passaram na sede perguntando do que era preciso: alimentação, lavagem de roupas, qualquer auxílio.

“Fugiu da nossa capacidade na época, mas ajudamos da forma que era possível”, relembra Lucas.” Não houve vítimas fatais.
Nos dias seguintes, a força-tarefa se dividiu entre limpar, reorganizar e restabelecer atendimentos.
Quinze anos depois, a corporação é outra. Vieram barcos, botes com motor, veículos 4×4, roupas de neoprene, equipamentos de salvamento aquático. A central de emergências tornou-se móvel, com autonomia de energia e possibilidade de transferência para o piso superior. Estruturas foram realocadas para reduzir vulnerabilidades.
Os bombeiros passaram a apoiar outras cidades em enchentes, inclusive em missões fora do estado, como na tragédia registrada no Rio Grande do Sul. A experiência de março de 2011 moldou uma geração.
Naquela noite, enquanto a água subia pelas ruas e alcançava o teclado da central, homens nadaram no escuro para retirar famílias da enchente. A sede foi inundada, mas o compromisso permaneceu de pé.
“Tudo que foi feito em quesito e estrutura é para deixar a corporação mais preparada e menos vulnerável a esse tipo de evento, que estão suscetíveis a ocorrer cada vez com mais frequência, os fenômenos climáticos vêm se intensificando na sua força e cada vez com períodos menores entre um evento e outro”, salienta Hein. Hoje, quando o céu fecha sobre Pomerode, há memória e há preparo.
































