Na noite gelada da última segunda-feira, dia 30, duas crianças indígenas foram encontradas em situação de abandono e com sinais severos de hipotermia no Centro Histórico de Porto Alegre. Elas estavam acompanhadas de uma jovem, também indígena, quando foram avistadas por pedestres próximo à Praça Montevidéu, um dos pontos mais movimentados da capital gaúcha. O resgate ocorreu durante uma das noites mais frias do ano, em meio à quarta onda de frio registrada no Rio Grande do Sul em 2025, com temperaturas cerca de 5 °C abaixo da média histórica para o período.
Segundo a Guarda Municipal, a cena era chocante: a criança mais nova, de apenas dois anos, estava deitada na calçada, tremendo, com o rosto coberto de muco e queimaduras causadas pelo frio nas mãos e face. Sua irmã, de sete anos, estava encolhida em um canto próximo, igualmente mal agasalhada — ambas vestiam apenas calça e um casaco fino, roupas completamente inadequadas para o frio intenso. A jovem que as acompanhava alegou inicialmente ter 17 anos, mas posteriormente descobriu-se que tem 19. Nenhuma das três possuía documentos de identificação.
O caso causou forte comoção e mobilizou uma investigação por parte da Divisão Especial da Criança e do Adolescente (Deca), da Polícia Civil. As vítimas foram encaminhadas para um abrigo da rede de proteção social, e o Conselho Tutelar foi acionado. A Polícia Civil confirmou que as crianças são irmãs e que tanto elas quanto a jovem pertencem a uma comunidade indígena guarani.
A investigação, contudo, esbarra em obstáculos delicados. O pai das meninas, de 43 anos, foi localizado e ouvido na delegacia, mas alegou não compreender o português, afirmando falar apenas o idioma guarani. Para prosseguir com o interrogatório, um indígena da mesma aldeia se ofereceu como intérprete, mas os policiais não puderam confirmar a fidelidade da tradução.
A mãe das crianças, de 35 anos e com sete filhos, deverá prestar depoimento ainda esta semana. O casal pode ser responsabilizado por abandono de incapaz. A jovem de 19 anos também será ouvida formalmente, já que existe a hipótese — ainda sob apuração — de que ela possa ser a mãe biológica de uma das crianças, dada a ausência de documentação que comprove as idades e os vínculos familiares.
































