A história da emancipação de Pomerode, celebrada todo mês de janeiro, guarda capítulos de disputas políticas, tensões culturais e personagens que marcaram época. Entre eles, destaca-se Wadislau Constansky, o paranaense de Curitiba, descendente de poloneses, que chegou ao distrito do Rio do Testo na década de 1930 para atuar no registro civil.
Embora não fosse natural da região, Constansky tornou-se um dos principais articuladores da emancipação de Pomerode nos anos 1950. Sua trajetória foi marcada por controvérsias: ligado ao PSD, partido alinhado a Getúlio Vargas, enfrentou resistência de famílias tradicionais locais e foi alvo de desconfiança por não falar alemão em uma comunidade majoritariamente germânica. Ainda assim, sua atuação política em Blumenau foi decisiva.
Em parceria com o vereador Pedro Zimmerman, Constansky levou o projeto de emancipação à Câmara de Vereadores, enfrentando opositores como Arno Weege (UND). Enquanto Weege acabou influenciando na escolha do nome “Pomerode”, foi , Constansky quem liderou o movimento pela emancipação, conquistada graças ao apoio das bancadas do PSD e PTB.

O professor e pesquisador Michel Honório da Silva, autor do artigo “Combates pela Cidade: Pomerode, de Distrito a Município (1934-1959)”, ressalta que a figura de , Constansky permanece envolta em lendas e especulações, mas não pode ser ignorada. “Ele foi um dos grandes articuladores da emancipação de Pomerode. Sem sua atuação política, talvez o município não tivesse conquistado sua autonomia naquele momento histórico.”

(1934-1959)”. Foto: Jonathas Albuquerque/Testo Notícias
Apesar de ter sido um dos vereadores mais votados em Blumenau, Constansky nunca exerceu mandato político em Pomerode. Sua influência se deu nos bastidores e no registro civil, onde deixou marcas administrativas e formou profissionais locais. Nos anos 1970, afastou-se da vida política e mudou-se para o litoral catarinense, onde faleceu.
A memória de Constansky, quase esquecida nos relatos oficiais, revela como a emancipação de Pomerode foi fruto de embates políticos, disputas familiares e da persistência de figuras que, mesmo controversas, desempenharam papel fundamental na construção da história da cidade.
Raízes às margens do Rio do Testo
Foi em 2 de setembro de 1850 que Hermann Bruno Otto Blumenau obteve do governo provincial a autorização para fundar a colônia que levaria seu nome, marco inicial da distribuição de terras e da chegada das primeiras famílias de imigrantes germânicos.
O Vale do Rio do Testo, integrado ao processo de expansão da colônia Blumenau, começou a receber seus colonos na segunda metade do século XIX. Em 1861, surgiram as primeiras ocupações às margens do rio, seguidas pelo estabelecimento da família Luebke em 1863, dando origem ao Ribeirão que levaria seu nome. “A demarcação dos lotes, feita pelo engenheiro Carl August Wunderwald, desenhou um território organizado de forma linear, acompanhando o curso do rio e seus afluentes.”

Distrito de Rio do Testo. Mais tarde com a instalação do municipio de Pomerode, em 21 de janeiro de 1959, o prédio passou a abrigar as instalações da prefeitura. Foto: Acervo Heike Weege/ Fotos Antigas de Pomerode
Com o avanço da colonização, pequenos núcleos de povoamento se consolidaram, estruturados em torno de três pilares fundamentais da vida comunitária germânica: a igreja, a escola e a sociedade de atiradores. “Esses elementos não apenas garantiram a sobrevivência material dos colonos, mas também preservaram sua identidade cultural.”
Da Vila ao Distrito
No início da década de 1930, o Rio do Testo vivia um momento decisivo em sua trajetória político-administrativa. A transformação veio em 26 de janeiro de 1934, quando o Decreto nº 468, assinado pelo interventor federal Aristiliano Ramos, elevou a antiga vila à categoria de distrito do município de Blumenau. “Poucos dias depois, em 11 de fevereiro, a instalação oficial marcava o início de uma nova fase para a comunidade.”
Michel explica que, com essa mudança, o Rio do Testo passou a integrar uma divisão territorial de caráter administrativo, posicionando-se entre o conceito de “bairro” e “cidade”. A vila manteve seu nome e continuou existindo, mas agora como sede de um governo local responsável por organizar e representar as localidades vizinhas. “Essa elevação trouxe maior autonomia e visibilidade política, permitindo que os moradores reivindicassem melhorias diretamente junto ao poder municipal.”
Entre 1934 e 1958, o distrito foi administrado por um intendente exator e um fiscal distrital, ambos subordinados ao prefeito de Blumenau. A nova configuração delimitou com precisão os limites territoriais do Rio do Testo, que abrangia uma área de 214 km² e se conectava a municípios e distritos vizinhos como Joinville, Indaial, Timbó e Massaranduba.
A criação do distrito não foi apenas um ato burocrático: respondeu às demandas da população que buscava um centro administrativo mais próximo de suas realidades. “Assim, o Rio do Testo consolidou-se como um espaço de articulação política e comunitária, reforçando sua importância dentro da estrutura blumenauense e preparando o terreno para os capítulos seguintes de sua história.”
Decreto nº 468, de 26 de janeiro de 1934.
Criando no município de Blumenau o distrito de Rio do Testo e seus respectivos 60 MICHEL HONÓRIO DA SILVA limites, divulgado no Diário oficial de Santa Catarina daquela data.
Decreto nº 468
O Coronel Aristiliano Ramos, Interventor Federal no Estado de Santa Catarina, no uso das suas atribuições e consultando aos interesses do município de Blumenau, DECRETA Art. 1º – Fica criado, no município de Blumenau, o distrito de Rio do Testo […]. Art. 2º – A sede do novo distrito será o povoado do Rio do Testo. Art. 3º – Para a instalação do distrito, fica designado o dia 11 de fevereiro próximo vindouro. Art. 4º – O primeiro provimento vitalício da respectiva Escrivania Distrital será feito livremente pelo Governo, independente de concurso. Art. 5º. Revogam-se as disposições em contrário. Palácio do Governo em Florianópolis, 26 de janeiro de 1934.
Aristiliano Ramos Plácido Olímpio de Oliveira
Vale do Rio do Testo e Pommeroda
Entre a segunda metade da década de 1930 e os anos 1940, o distrito de Rio do Testo vivenciou transformações profundas. O crescimento populacional foi acompanhado pela redução das taxas de analfabetismo, resultado direto dos incentivos governamentais voltados à educação e à saúde. “Essas medidas faziam parte de um projeto nacional mais amplo, que buscava não apenas combater fragilidades sociais, mas também difundir uma ideia de “brasilidade” em diferentes regiões do país.”

Departamento de Cultura de Pomerode
Nesse cenário, a elevação de Rio do Testo à categoria de distrito ampliou sua representatividade política diante de Blumenau. “A nova configuração administrativa garantiu maior autonomia às localidades e aos moradores, fortalecendo o diálogo com o poder municipal e permitindo que demandas locais fossem ouvidas com mais clareza”, afirma Michel.
Para o pesquisador, a história do Vale do Rio do Testo revela, contudo, que sua trajetória não se deu de forma linear. Antes da criação do distrito, suas localidades integravam o chamado Distrito Rural de Blumenau, ao lado de Massaranduba e Itoupava. Nos relatórios de gestão da época, apareciam subdivisões como “Vila de Rio do Testo”, “Pommeroda”, “Pommeroda I” e “Pommeroda e fundos”. “Essa fragmentação mostra que a ideia de uma coesão territorial histórica precisava ser repensada, já que cada núcleo desempenhava funções e significados próprios dentro da formação da região.”
A elevação de Rio do Testo a distrito ocorreu em meio a um período de intensa agitação política no Brasil e, em especial, no Vale do Itajaí. As mudanças não se limitaram ao campo administrativo: houve investimentos em infraestrutura, novos gastos públicos e alterações territoriais que culminariam na emancipação de localidades até então subordinadas a Blumenau.
O Distrito de Rio do Testo na Câmara Municipal de Blumenau
Na década de 1950, o distrito de Rio do Testo passou a ocupar espaço relevante dentro da Câmara Municipal de Blumenau. As demandas da população local encontraram eco nas vozes de dois representantes distritais: Arno Weege, empresário ligado à União Democrática Nacional (UDN), e Wadislau Constansky, escrivão vinculado ao Partido Social Democrático (PSD). “Suas atuações refletiam não apenas os interesses imediatos da comunidade, mas também o cenário político nacional, marcado pela disputa entre as principais siglas da época: PSD, PTB e UDN.”
O contexto político brasileiro havia se transformado em 1945, com a chamada Lei Agamenon, que estabeleceu o pluripartidarismo e a abrangência nacional dos partidos. Nesse ambiente, o PSD surgiu como partido de centro, próximo ao trabalhismo defendido pelo PTB e às diretrizes de Getúlio Vargas. Já a UDN nasceu como força de oposição, reunindo grupos liberais, antigos aliados marginalizados e setores das oligarquias destituídas pela Revolução de 1930. “Essa configuração nacional reverberava em Blumenau, onde as legislaturas da década de 1950 foram dominadas por representantes dessas três siglas.”

No plano local, Constansky e Weege se destacaram ao levar para o plenário as reivindicações dos moradores do Rio do Testo. Entre o segundo semestre de 1956 e o ano de 1957, Constansky apresentou 15 requerimentos, dos quais 11 voltados diretamente ao distrito. Weege, por sua vez, encaminhou oito solicitações, sendo cinco relacionadas às necessidades da comunidade distrital. “Essas propostas incluíam melhorias em infraestrutura, serviços públicos e representatividade administrativa, demonstrando a preocupação dos vereadores em dar respostas concretas às demandas sociais”, explica Michel.
A análise das atuações desses parlamentares permite compreender como a política nacional se refletia no cotidiano regional. Enquanto o PSD buscava conciliar interesses diversos, dialogando tanto com setores conservadores quanto progressistas, a UDN mantinha uma postura mais rígida e moralista. “Essa dinâmica se materializava nas disputas locais, revelando como os embates partidários influenciavam diretamente a vida dos moradores do Rio do Testo.”
Os debates pela emancipação de Rio do Testo
Em meados da década de 1950, Santa Catarina vivia um momento de intensas transformações políticas. O ano de 1956 marcou o início dos debates sobre a emancipação de diversos distritos, entre eles o de Rio do Testo, então pertencente a Blumenau. O projeto de lei nº 219A/56-E previa a criação de 16 novos municípios no estado, incluindo nomes como Meleiro, Treze de Maio, Trombudo Central e Corupá.
No caso de Rio do Testo, a proposta rapidamente despertou opiniões divergentes. Enquanto alguns viam na emancipação uma oportunidade de crescimento autônomo, outros acreditavam que o distrito prosperava justamente “à sombra de Blumenau”. Essa resistência se materializou em um abaixo-assinado datado de 4 de dezembro de 1956, enviado à Assembleia Legislativa em Florianópolis. “O documento reuniu cerca de 450 assinaturas, aproximadamente 6% da população local, e contou com o apoio de figuras influentes, como os irmãos Arno e Victor Weege, ligados à Indústria e Comércio “Hermann Weege” S/A, além da empresa “Porcelana Schmidt” S/A.”
O gesto revelava que parte da elite empresarial se posicionava contra o desmembramento, temendo impactos econômicos e políticos. Ainda assim, o movimento contrário não conseguiu frear por muito tempo a discussão. “O projeto de emancipação, apresentado em 1956, foi adiado diversas vezes na Câmara de Blumenau, gerando frustração na comunidade. Apenas em 1958 ocorreu o desfecho: uma votação acirrada, decidida por apenas um voto de diferença”, explica Michel.
Dois anos depois, em 1958, o tema voltou à pauta da Câmara Municipal de Blumenau. O vereador Arno Weege (UDN) apresentou o requerimento nº 22/58, solicitando posicionamento oficial da Casa. O debate, marcado por tensões políticas e até pelo luto nacional após o acidente aéreo que vitimou o governador Jorge Lacerda e o senador Nereu Ramos, culminou em uma votação histórica.
Na sessão de 15 de julho, após intensas divergências entre UDN, PSD e PTB, os vereadores decidiram em votação nominal: seis votos contra e cinco a favor do parecer que mantinha Rio do Testo como distrito. “O resultado, portanto, foi a aprovação do desmembramento, encaminhado à Assembleia Legislativa por telegrama.”
Segundo o pesquisador, mais do que uma decisão administrativa, o episódio refletia as disputas partidárias da época. “A vitória só foi possível graças à coalizão entre o PSD e o PTB, partidos alinhados a Vargas. A UDN, maior bancada da Câmara, votou contra.” Sem essa articulação política, como destacam os registros, “Pomerode provavelmente não teria conquistado sua autonomia naquele momento.”
Esse movimento não foi isolado. “O movimento refletia também uma tendência estadual: o PSD foi protagonista em diversas emancipações ocorridas em Santa Catarina em 1958, tanto no litoral quanto na serra”, complementa Michel.
A criação oficial de Pomerode
Após anos de debates e disputas políticas, a emancipação de Rio do Testo finalmente ganhou forma legal. A aprovação veio por meio da Lei Estadual nº 380, de 19 de dezembro de 1958, sancionada pelo governador de Santa Catarina, Heriberto Hülse (UDN), e divulgada pelo Decreto nº 69, em 2 de janeiro de 1959. A publicação no Diário Oficial, datada de 7 de janeiro, fixava o dia 21 de janeiro de 1959 para a instalação oficial do novo município: Pomerode.
Curiosamente, a escolha da data não foi aleatória. “O vereador Wadislau Constansky (PSD) sugeriu que a instalação coincidisse com o 25º aniversário da criação do distrito de Rio do Testo, reforçando o simbolismo histórico.”
O pesquisador afirma que a proposta foi aceita e transformada em um marco festivo, com a intenção de deixar um legado à nova cidade. “Até mesmo políticos que antes se opunham ao desmembramento participaram da definição, demonstrando que, naquele momento, a união prevalecia sobre as divergências.”
O nome “Pomerode” também carregava forte significado. Ele nasceu da junção de Pommern, referência aos imigrantes vindos da província prussiana homônima a partir de 1863, e Roder, verbo alemão que significa “tirar tocos”, ou seja, preparar a terra para o cultivo. “A denominação, já usada popularmente para identificar a vila central, foi oficializada após um telegrama enviado pelas indústrias Porcelana Schmidt S/A e Hermann Weege S/A, que pediam que a nova cidade homenageasse os primeiros colonos.”
Assim, no dia 21 de janeiro de 1959, Pomerode foi oficialmente instalada. A solenidade, descrita pelo jornal “A Nação”, ocorreu de forma simples, mas solene, reunindo autoridades civis, militares e eclesiásticas, além de representantes da imprensa e da sociedade local. O juiz Marcílio João da Silva Medeiros, da Comarca de Blumenau, presidiu o ato e destacou em discurso o futuro promissor do município. Outras figuras importantes também se pronunciaram, como o prefeito de Blumenau, Frederico Guilherme Busch Jr., o deputado Pedro Zimmermann e o secretário da Justiça do Estado, Henrique Blaese.

Diferente dos desmembramentos da década de 1930, que foram tratados pela imprensa com certo tom pejorativo, a criação de Pomerode foi celebrada publicamente. O jornal A Nação estampou a manchete: “Tornou-se uma realidade a maior aspiração do povo de Rio do Testo”, convidando inclusive os blumenauenses a participarem da festa.
Para o pesquisador, a emancipação não foi um processo simples. Ela nasceu de intensos embates políticos, abaixo-assinados e divergências entre partidos. “Mas, ao final, prevaleceu o esforço coletivo e democrático, que deu origem a um município marcado pela memória de seus colonos e pela força de sua identidade cultural.”
O legado de Constansky
Apesar das controvérsias, Wadislau Constansky foi um dos grandes articuladores da emancipação. Em parceria com Pedro Zimmerman, enfrentou opositores como Arno Weege e levou o projeto à Câmara. Sua atuação garantiu que Pomerode conquistasse autonomia em 1959, em meio a disputas familiares e partidárias.
De acordo com o pesquisador, ele foi um dos grandes articuladores da emancipação de Pomerode. “Sem sua atuação política, talvez o município não tivesse conquistado sua autonomia naquele momento histórico.”
































