VÍDEO: Do acidente ao pódio: a virada de vida de Marciana Piske

A paratleta de Pomerode transformou dor em superação e encontrou no vôlei sentado um novo propósito de vida, conquistando espaço na seleção brasileira e nos torneios internacionais

Em abril de 2015, a vida de Marciana Seiler Piske tomou um rumo inesperado. A caminho de Blumenau, onde cuidaria do pai, ela sofreu um grave acidente de trânsito. Uma van desgovernada cruzou sua trajetória na SC-421, na conhecida curva do Tiedt, em Pomerode, e, em segundos, tudo mudou: ela perdeu a perna esquerda e teve múltiplas fraturas.

Foram 26 dias de internação e mais de três meses sem conseguir se levantar. Quando finalmente deu os primeiros passos com a prótese, sete meses após o acidente, a emoção foi comparável a uma vitória. O gesto simples de ficar em pé representava uma nova chance de recomeço.

A adaptação, no entanto, não foi fácil. Marciana enfrentou o medo de viver para sempre com uma prótese, a pressão das opiniões externas e a insegurança de quem ainda aprendia a conviver com um novo corpo. “As pessoas dizem muitas coisas, algumas ajudam, outras só aumentam a tensão. Mas aprendi a viver o hoje, como me ensinou minha fisioterapeuta. Isso fez toda a diferença”, relembra. Pouco tempo depois, a determinação falou mais alto. Menos de um mês após iniciar o uso da prótese, voltou a dançar zumba, retomando também a rotina de exercícios que sempre fizeram parte de sua vida.

O esporte, aliás, já fazia parte da história de Marciana antes mesmo do acidente. Na adolescência, jogava vôlei convencional em Blumenau, paixão que havia deixado em segundo plano com a vida adulta. Quando recebeu convites para ingressar no paradesporto, foi resistente por cinco anos. Atletismo, natação e bocha não despertaram seu interesse. Até que, em 2020, surgiu a proposta para experimentar o vôlei sentado. “Eu nunca tinha visto esse esporte, mas senti que era hora de dizer sim. Esse sim mudou a minha vida”, conta.

O início não foi simples: logo após iniciar na modalidade, a pandemia interrompeu os encontros presenciais. O jeito foi improvisar treinos online, reproduzindo fundamentos e deslocamentos em casa. A dedicação de Marciana chamou a atenção do técnico Anderson e, mesmo à distância, ela recebeu apoio de atletas mais experientes, como Adria de Jesus, da seleção brasileira. A troca de mensagens e videochamadas foi fundamental para sua evolução técnica. Quando os treinos voltaram, em setembro de 2020, a evolução era nítida.

A trajetória no vôlei sentado cresceu rapidamente. Em 2021, Marciana participou de sua primeira competição nacional. Já em 2022, veio a convocação para a seleção brasileira principal. “Foi surreal. Eu tinha treinado online com uma atleta da seleção e, de repente, estava ao lado dela. Foi uma emoção indescritível”, relembra. Desde então, foram quatro convocações, além da oportunidade de disputar a Copa América pela Apesblu, torneio internacional que reuniu equipes de toda a América Latina. O time de Marciana terminou no pódio, e ela ainda foi eleita o destaque com o melhor saque da competição — conquista que ela descreve como um dos momentos mais gratificantes da carreira.

Hoje, aos 41 anos, Marciana concilia a rotina de atleta com o trabalho de analista financeira em uma empresa que apoia o paradesporto. Treina três vezes por semana, entre vôlei e academia, e ainda busca mais condicionamento com o pilates, sempre buscando evolução técnica e física. Recentemente, passou a contar com o auxílio de um preparador físico especializado, responsável por desenvolver exercícios específicos para sua posição em quadra. “O maior desafio agora é nos manter no pódio. É preciso treino, disciplina e muita dedicação”, afirma.

A atleta também destaca a importância do apoio familiar e da comunidade esportiva de Blumenau e Pomerode. Casada e mãe de dois filhos, ela aprendeu a organizar a rotina para encaixar treinos e competições. A cada desafio superado, reforça a crença de que o esporte vai além da prática física: é ferramenta de transformação, inclusão e saúde mental. “O esporte também ajuda pessoas com depressão, porque cria laços, dá um propósito. Encontrar gente que passa pelas mesmas dificuldades faz a diferença”, ressalta.

Com mais de cinco anos dedicados ao vôlei sentado, Marciana olha para o futuro com entusiasmo. Seu objetivo é retornar à seleção principal e conquistar novas medalhas, tanto individualmente quanto em equipe. “Quero mostrar que mesmo aos 42 anos ainda posso evoluir. Meu foco é crescer cada vez mais e ajudar meu time a chegar longe”, projeta.

Mais do que medalhas e troféus, a atleta celebra o caminho percorrido. Ao olhar para trás, reconhece a resistência inicial e o orgulho de ter dito “sim” ao esporte que transformou sua vida. “Eu diria para a Marciana lá do começo acreditar mais em si mesma. Hoje sei que tudo o que conquistei foi fruto da dedicação e do esforço. E o sim que dei abriu todas as portas”, emociona-se.

Inspiradora e resiliente, Marciana Piske é prova viva de que o esporte é capaz de ressignificar trajetórias, unir pessoas e abrir horizontes. Do acidente que quase tirou sua vida, nasceu uma atleta determinada, que hoje inspira outras pessoas a acreditarem no próprio potencial. O vôlei sentado não apenas devolveu a ela o prazer da prática esportiva, mas também revelou uma nova missão: mostrar que nunca é tarde para dizer sim a um novo começo.

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