Filha, neta e sobrinha de agricultores, Eneide Barth, 54 anos, carrega no currículo o título de engenheira agrônoma e mestre em Produção Vegetal, mas é na memória da infância em Ituporanga que encontra a origem da própria vocação. As visitas frequentes aos avós, já falecidos, marcaram sua história.
Ela recorda a sensação de liberdade: “Eu adorava aquele lugar. Gostava muito de estar ao ar livre, correndo as pastagens, lidando com animais, as galinhas, os pintinhos, o cavalo. A sensação de vida livre no campo foi uma coisa que me cativou desde a mais tenra infância”, afirma. Foi ali que nasceu o desejo de permanecer conectada à terra.
Quando chegou o momento do vestibular, não houve dúvida: a primeira opção foi agronomia. Para cursar a faculdade, precisou se posicionar diante do pai, que preferia que ela estudasse mais perto de casa. Mas ela decidiu sustentar sua escolha. “na época eu disse: ‘olha pai, se tu queres que eu faça uma faculdade, essa faculdade vai ser a agronomia. E tem em Florianópolis e em Lages. Então eu vou para Florianópolis porque fica mais perto de casa’”, e assim ela seguiu seu caminho.
Antes de ingressar na extensão rural, Eneide viveu na prática o trabalho agrícola. Durante três anos, cultivou morango sem uso de agrotóxicos, movida pelo desejo de produzir alimentos mais saudáveis. A agroecologia ainda dava seus primeiros passos, e os desafios eram muitos. A experiência, no entanto, consolidou sua visão de que era possível buscar alternativas para reduzir a penosidade do trabalho no campo.
Mais tarde, após atuar no projeto Microbacias em Apiúna, prestou concurso e ingressou na Epagri em 2002, iniciando a trajetória como extensionista rural em Ascurra, uma experiência que guarda com muito carinho: “É um lugar que me deixou saudades. Fiz amizade com colegas de trabalho e com os agricultores. Foi um período de trabalho de desempenho da agronomia que me deu muita satisfação”, lembra.
Ao longo dos anos, construiu uma reputação de profissional firme e segura. Em um meio historicamente masculino, nunca se sentiu intimidada. “O que eu tenho para dizer será dito, independente de quem esteja presente”, afirma.
Embora reconheça que o machismo existe, afirma que jamais permitiu que isso diminuísse sua postura profissional. Seu compromisso sempre foi levar informação técnica ao produtor, respeitando o saber de quem vive da terra. Para ela, a relação ideal é uma via de mão dupla: “de um lado, o conhecimento científico, de outro, a experiência prática de quem segura a enxada”.
Os desafios que encontrou nas propriedades, segundo relata, não estavam ligados ao fato de ser mulher, mas à resistência natural às mudanças. “Não é porque eu sou mulher, é porque eu sempre fiz assim”, costuma ouvir. A tradição familiar e os métodos herdados ao longo de gerações criam apego, e propor novas práticas exige diálogo e paciência.
Ela destaca que a humildade é sempre necessária: “nós da agronomia, nós não sabemos tudo, nós não temos a mesma experiência que o produtor, a gente segura os livros, o produtor segura a enxada, então isso tem que ser respeitado, então o que a gente precisa promover é uma convergência entre o conhecimento científico e técnico”. É nesse momento, diz ela, que está a maior recompensa da profissão: acertar junto com o agricultor.
Entre os trabalhos que mais a orgulham estão as três edições das Agrotecs, realizadas em 2012 e 2014 em Pomerode e em 2016 em Itajaí. As mostras reuniram tecnologias voltadas à agricultura familiar, priorizando máquinas adaptadas à pequena propriedade e produtos biológicos para controle de pragas, sem uso de agrotóxicos. Foi um projeto desafiador, desenvolvido em parceria com colegas, que reforçou sua convicção de que inovação e sustentabilidade podem caminhar juntas no campo.
Ao falar sobre o papel feminino no agro, Eneide reconhece que ainda há espaço para maior protagonismo. Observa que muitas mulheres participam das decisões e contribuem significativamente para a renda familiar, mas nem sempre ocupam posição central na produção. Para ela, o avanço da igualdade passa pela valorização da competência. Eneide também defende que cargos de liderança sejam ocupados por mérito técnico e dedicação, e não por afinidades políticas. “O que tem que prevalecer é a competência”, declara.
Mesmo diante das múltiplas responsabilidades, como trabalho, casa, filhos e pais, Eneide afirma que nunca pensou em desistir da agronomia. Pelo contrário, se declara apaixonada pela profissão e pela possibilidade de aprender constantemente.
Acredita que produzir alimentos de forma sustentável é um desafio permanente e essencial para o mundo. Seu conselho a quem pensa em seguir o mesmo caminho é direto: “se houver dúvida, escolha a agronomia”. Para ela, é uma formação ampla, transformadora e que nunca perderá relevância.
No campo e fora dele, Eneide representa uma geração de mulheres que conciliam múltiplos papéis sem abrir mão da própria identidade. Com conhecimento técnico, coragem para se posicionar e respeito pela tradição agrícola, construiu uma trajetória que inspira outras mulheres a ocuparem, com firmeza, seu espaço no agro.
