Hans-Joachim Musilinski: o cidadão honorário que eternizou Pomerode em imagens e canções

Fotógrafo e jornalista alemão deixou um legado de milhares de fotos, exposições e músicas que celebram a cultura pomerana

O que faz um jornalista alemão atravessar oceanos e transformar uma pequena cidade em sua grande paixão? Essa é a pergunta que abre nossa viagem pelo legado de Hans-Joachim Musilinski, e a resposta está em sua paixão pela fotografia e no encontro inesperado com Pomerode.

Amor por Pomerode: Musilinski, vestiu a camiseta com os dizeres “Ich Liebe Pomerode” durante a Sessão Solene em que recebeu o título de Cidadão Honorário. Foto: Acervo Família Riemer

Musilinski descobriu a cidade em 2003, navegando pela internet, quando se deparou com a história do imigrante Carl Weege. A curiosidade se transformou em destino: no ano seguinte, desembarcou em Pomerode e iniciou uma relação que jamais se encerraria. Desde então, em visitas consecutivas ou alternadas, sempre trouxe na bagagem aquilo que mais o encantava: imagens que revelam a essência da comunidade pomerodense de alma pomerana.

Mais do que paisagens, suas lentes buscaram rostos e histórias. Crianças, trabalhadores, idosos e famílias tornaram-se protagonistas de um registro que ultrapassa o valor estético: é memória viva. Suas exposições, apresentadas tanto no Brasil quanto na Alemanha, criaram uma ponte cultural entre continentes e eternizaram o cotidiano pomerodense.

Ao longo dessas visitas, Musilinski não apenas fotografou. Ele se deixou transformar pela cidade, cultivando amizades e muitas parcerias. Hans-Joachim Musilinski não veio apenas registrar Pomerode: ele veio para sentir, viver e devolver à comunidade o reflexo de sua própria história. Cada exposição, cada música e cada texto são testemunhos de um compromisso afetivo que se tornou parte da memória coletiva.

Fotografia como destino: desde os 10 anos, com uma câmera simples, Musilinski transformou o ato de fotografar em missão de vida. Foto: Acervo dupla Sandro e Wilson

Por isso, o “Um Olhar para o Passado” traz um pouco da trajetória desse fotógrafo que transformou sua curiosidade em amor e sua arte em legado. Ao longo desse especial, vamos revisitar suas exposições, suas parcerias e o impacto de seu trabalho na preservação da cultura pomerana e da história de Pomerode.

O homem que fez da fotografia sua vida

Hans-Joachim Musilinski nasceu no dia 10 de março 1940 em Arnswalde (antiga Pomerânia). começou a fotografar aos 10 anos de idade, quando ganhou de seus pais uma câmera simples que custou apenas 10 marcos.

Desde então, nunca mais largou o equipamento. Foram mais de 70 anos dedicados à arte de registrar o mundo, sempre repetindo sua frase favorita: “fotografia é minha vida”.
Com sua câmera, percorreu países como Estados Unidos, Tailândia e diversas regiões da Europa, produzindo fotolivros e exposições que revelavam culturas, pessoas e paisagens. Mas foi em 2004, ao visitar Pomerode pela primeira vez, que encontrou uma paixão duradoura: a cidade que o acolheu e que ele eternizou em imagens e melodias.

Pomerode, uma inspiração sem fim

Musilinski nasceu na antiga Pomerânia, mas foi em Pomerode que encontrou uma segunda casa para sua arte e para o coração. Desde 2004, sua relação com o município se transformou em crônicas, artigos, milhares de fotos e até composições musicais.

E foi exatamente o jeito simples, as paisagens e o dia a dia de Pomerode a fonte inesgotável de inspiração para o fotógrafo. Ao caminhar por suas ruas e festas, Musilinski registrou rostos e histórias que revelam a essência da comunidade pomerana.

Exposição: Cartaz oficial de uma das mostras de Musilinski em Pomerode. Imagem: Reprodução

Fotografou crianças, trabalhadores e até senhoras centenárias, como Marta Wollick, que aos 106 anos ainda sorria diante de sua lente. Também eternizou rainhas da Festa Pomerana e transformou essas vivências em mais de 35 músicas compostas com amigos, muitas delas em Platt Pomerano.

Para ele, o maior tesouro da cidade não estava apenas na beleza natural ou nas tradições culturais, mas nas pessoas. Costumava dizer: “O melhor de Pomerode são as pessoas, as que construíram e continuam a construir o futuro da cidade.”

O reconhecimento internacional de Musilinski

Musilinski trabalhou como jornalista em grandes jornais alemães, como o Norddeutsche Neueste Nachrichten e o Ostsee-Zeitung. Realizou cerca de 30 exposições, sendo oito delas em Pomerode. Suas fotos foram doadas ao museu local, garantindo que seu olhar sobre a cidade permanecesse vivo nos arquivos históricos.

Em novembro de 2011, Hans-Joachim Musilinski levou para Greifswald, na Alemanha, uma grande mostra que reunia fotografias de todas as exposições realizadas em Pomerode. O trabalho consolidou sua trajetória como ponte cultural entre Brasil e Alemanha e rendeu-lhe honras especiais. Seu nome foi inscrito no livro de honra da cidade, ao lado de amigos pomerodenses, em reconhecimento ao impacto de sua arte e ao vínculo afetivo que construiu com a comunidade.

Exposições que uniram Pomerode e Alemanha

Musilinski, jornalista e fotógrafo alemão, “descobriu” Pomerode em 2003 ao pesquisar sobre imigração pomerana na internet. A curiosidade o levou a entrar em contato com a Secretaria de Turismo e, no ano seguinte, desembarcou pela primeira vez no município catarinense. Desde então, sua relação com a cidade se transformou em uma história de afeto, arte e memória cultural.

Entre 2005 e 2011, Musilinski realizou uma série de exposições que revelaram seu olhar sensível sobre Pomerode e seus habitantes. As mostras foram apresentadas tanto no Brasil quanto na Alemanha, reforçando o elo entre os dois países e eternizando a cultura pomerana em imagens.

Exposições de Musilinski em Pomerode

Pommern im Paradies / Pomeranos no Paraíso (2005)

Menschen aus Pomerode / Pessoas de Pomerode – Os netos dos imigrantes (2007)

Ich Liebe Dich Pomerode / Te Amo Pomerode (2009)

Mein Liebes Pomerode / Minha Amada Pomerode (2010)
Incluiu a Premier Musical alusiva à imigração e aos colonos pomeranos.

Auf den Spuren der Siedler / Minha Pomerode no rastro dos colonizadores (2011)
Com a Premier Musical alusiva à imigração e aos colonos pomeranos.

Die Stars von Pomerode / As Estrelas de Pomerode (2012)
Apresentou a Premier Musical “Dat alle Best in Pomerode sind dei Lühr” (O melhor de Pomerode é a sua gente).

Mein Herz schlägt für Pomerode / Meu Coração bate por Pomerode (2014)
Acompanhada da Premier Musical “Ich Liebe Dich Pomerode” (Eu te amo Pomerode).

O olhar humano por trás das lentes

Musilinski não fotografava apenas paisagens ou tradições. Sua verdadeira paixão estava nas pessoas. Crianças brincando nas ruas, trabalhadores em suas rotinas, idosos carregando memórias e famílias reunidas, todos se tornavam protagonistas diante de sua câmera. Em cada clique, ele revelava a essência de uma comunidade que preserva suas raízes sem deixar de sonhar com o futuro.

Na Alemanha: em setembro de 2025, Wilson Haffemann e a esposa Karin, visitaram Musilinski e a esposa em sua casa. Foto: Acervo dupla Sandro e Wilson

Além disso, Musilinski sempre procurou compreender como se deu o desenvolvimento da região, em especial de Pomerode, desde a chegada dos primeiros imigrantes até os dias de hoje. Seu olhar atento buscava registrar não apenas os momentos de celebração, mas também as dificuldades e adversidades enfrentadas ao longo da história, revelando a força e a resiliência de um povo.

Embora tenha viajado o mundo registrando comunidades indígenas nos Estados Unidos e até cenários de guerra, foi em Pomerode que encontrou uma paixão duradoura. Ali, seu olhar sensível para pessoas simples transformou histórias locais em registros universais, mostrando ao mundo a força da cultura pomerana.

Genrado Riemer, que conheceu Musilinski por volta de 2010, lembra com clareza a primeira impressão que teve do ilustre fotógrafo alemão. “A impressão que tive é que ele já estava envolvido com uma parte de Pomerode. Além do alemão, ele também sabia falar o dialeto platt, então foi algo que o aproximou ainda mais das pessoas”.

E foi essa proximidade linguística e cultural que abriu portas para uma conexão genuína com a comunidade. Mais do que cenários, Musilinski buscava histórias. Ele se interessava pela transformação da cidade, pela colonização pomerana e pela forma como os moradores mantinham tradições centenárias. “Acredito que ele tenha encontrado o lugar e as pessoas. Isso foi muito marcante para ele, porque sempre colocava isso quando falava sobre Pomerode”, relembra.

As paisagens, o verde da região e os detalhes da natureza o fascinavam, mas eram as pessoas que davam sentido ao seu trabalho. Músicas, costumes e o idioma pomerano eram retratados com delicadeza, revelando o orgulho de uma comunidade que resiste ao tempo.
Para escolher seus personagens, Musilinski recorria a indicações da comunidade e de lideranças locais. Assim, agricultores, artesãos e famílias comuns tornavam-se modelos de suas fotos, eternizando o cotidiano de Pomerode. “Ele procurava essas pessoas e registrava como elas mantinham a cultura e a tradição.”

De acordo com Genrado, esse vínculo foi tão profundo que, em reconhecimento ao seu trabalho cultural e ao intercâmbio com a Alemanha, Musilinski recebeu o título de Cidadão Honorário de Pomerode. “A homenagem repercutiu não apenas na cidade, mas também em Wismar, na Alemanha, onde ganhou destaque na mídia local.”

Assim como para muitos pomerodenses, a amizade entre Musilinski e Genrado acabou se mantendo ao longo dos anos, com contatos via e-mail e WhatsApp. Para o pomerodense, mais do que um fotógrafo, Musilinski foi um narrador de vidas. “Seu legado é feito de rostos, gestos e histórias que, através de suas lentes, se transformaram em memória coletiva.”

A amizade que virou música

Musilinski não apenas fotografou Pomerode. Ele também encontrou na música uma forma de se conectar ainda mais com a cidade e com seus moradores. Foi em 2009 que nasceu uma parceria especial com os músicos Sandro Romig e Wilson Haffemann. A amizade rapidamente se transformou em criação artística: letras escritas por Musilinski ganharam arranjos e melodias da dupla, dando origem a um repertório que celebrava a cultura pomerana.

Para Sandro Romig, Musilinski foi muito mais do que um parceiro de trabalho. “Falar de Hans-Joachim Musilinski é falar de um talento que transbordava. Excelente fotógrafo e jornalista, ele tinha o dom de enxergar o que ninguém mais via. Mas, para mim, seu maior talento era a humanidade.”

Arte além da imagem: Musilinski compôs mais de 35 músicas em parceria com amigos, como a dupla Sandro e Wilson, muitas em Platt. Fotos: Acervo Silvio Klotz

Ele recorda com emoção a convivência e o resultado da parceria artística. “Foi uma pessoa essencial na minha vida, alguém que ofereceu inspiração com textos que se transformaram em música e uma amizade sem medidas.”

O parceiro de dupla de Sandro,Wilson Haffemann também relembra o impacto dessa parceria. Ele destaca como o encontro mudou o rumo de suas criações. “Nos encontramos na Festa Pomerana, após uma de nossas apresentações, e estreitamos laços em função da música. Ele passou a colaborar escrevendo textos para futuras canções. Gravamos cerca de 170 músicas, das quais aproximadamente 30 são letras dele.” A parceria entre Musilinski, Sandro e Wilson mostrou que arte não tem fronteiras.

Arte além da imagem: Musilinski compôs mais de 35 músicas em parceria com amigos, como a dupla Sandro e Wilson, muitas em Platt. Foto: Acervo Família Riemer

Enquanto suas fotografias revelavam rostos e histórias, suas letras se transformavam em melodias que reforçavam o orgulho pomerano. “O auge foi uma exposição sobre Pomerode em Greifswald, na Alemanha, que abrilhantamos com nossa música. Musilinski fez Pomerode e Sandro e Wilson conhecidos na Alemanha. Sempre que podia, falava da cidade e das canções nos jornais. Tanto que, em sua cerimônia de despedida, foi executada uma de nossas músicas: Mit Schweiss und Tränen (Com suor e lágrimas)”, afirma Wilson.

Juntos, criaram um legado que une imagem, som e emoção, e que continua vivo na memória de Pomerode e de todos que participaram dessa jornada. “O mundo ficou menos nítido sem o seu olhar, mas meu coração guarda a gratidão de ter tido o privilégio da sua companhia”, complementa Sandro.

A homenagem que selou laços de afeto e memória

Foi em 4 de junho de 2019 que Pomerode viveu uma noite de emoção e reconhecimento. Em Sessão Solene na Câmara de Vereadores, Hans-Joachim Musilinski recebeu oficialmente o título de Cidadão Honorário de Pomerode.

Reconhecimento: Hans-Joachim Musilinski recebeu o título de Cidadão Honorário de Pomerode, realizou exposições na Alemanha e no Brasil, e deixou seu acervo como patrimônio histórico. Foto: Marta Rocha/Arquivo Testo Notícias

Vestindo uma camiseta com os dizeres “Ich Liebe Pomerode” (“Eu amo Pomerode”), o jornalista e fotógrafo fez questão de discursar em português. Emocionado, declarou: “Essas pessoas, para mim, são verdadeiros heróis, que com suor construíram suas casas. Vou continuar elaborando documentos sobre essa linda cidade, porque meu coração bate por Pomerode.”

Musilinski foi apenas o segundo a receber a honraria. A primeira havia sido concedida em 2007 ao ex-governador Luiz Henrique da Silveira (in memoriam). O reconhecimento veio através do Projeto de Decreto Legislativo Nº 133/2019, aprovado por unanimidade minutos antes da cerimônia.

Legado afetivo: a obra de Musilinski não apenas documenta, mas transmite amor e respeito por Pomerode e pelas pessoas que a constroem. Foto: Acervo Família Riemer

A noite não marcou apenas uma homenagem. Foi também a confirmação de um compromisso: Musilinski reforçou que continuaria escrevendo, fotografando e compondo sobre a cidade que conquistou seu coração. Mais do que um título, o gesto simbolizou a gratidão de Pomerode a um homem que transformou sua paixão pela fotografia em memória viva e em ponte cultural entre Brasil e Alemanha.

Apesar da emoção vivida naquela noite, o reencontro de Hans-Joachim Musilinski com Pomerode acabou não acontecendo. A pandemia de 2020 interrompeu viagens e encontros, e nos anos seguintes sua saúde fragilizada não permitiu que retornasse à cidade que tanto amava.

Trabalho: cidadão honorário, fotógrafo e compositor, Musilinski dedicou mais de 70 anos à arte de registrar vidas, culturas e também a essência pomerodense. Foto: Hans-Joachim Musilinski/ Acervo Família Riemer

Mesmo assim, Musilinski manteve viva sua ligação com Pomerode por meio de mensagens, e-mails e interações nas redes sociais, reforçando constantemente o carinho pela cidade. Já o título de Cidadão Honorário permanece como símbolo de uma ligação profunda, mesmo diante das limitações impostas pelo tempo e pelas circunstâncias.

Legado eterno

Hans-Joachim Musilinski faleceu no dia 6 de janeiro de 2026, na Alemanha, mas deixou um legado que transcende fronteiras. O anúncio foi feito pela esposa, Karin, que escreveu em suas redes sociais. “Decidiu partir para sua última grande viagem. Estamos tristes”.
Sua obra é marcada pelo amor à fotografia, pela dedicação ao jornalismo e, sobretudo, pela paixão por Pomerode. Mais do que imagens, textos e músicas, Musilinski eternizou a essência de uma cidade e de seu povo, transformando sua história em memória viva. E mesmo após sua partida, o mundo continua a ver Pomerode pelos olhos de Musilinski.

Confira a homenagem feita pra Musilinski:

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