Quando a vida chega cedo…e cada pequena vitória importa

Relatos que unem três décadas para revelar a força dos prematuros e o cuidado que os mantém

“Eu descobri que estava grávida quando estava quase no quinto mês de gestação. Era muito novinha, não tinha noção do que estava acontecendo.” A memória que inaugura esta reportagem tem 30 anos e a voz é de Sheila Behling, mãe de Caio, que nasceu com 6 meses e três semanas, pesando 1,160 kg.

Foto: Arquivo Pessoal

A gravidez surpreendeu, o trabalho pesado do dia a dia complicou, e o parto veio antes da hora, sem UTI neonatal disponível perto de casa. “O médico não queria fazer em Pomerode, queria que eu fosse transferida para onde já tivesse uma UTI disponível para o neném, mas não havia.” O único leito apareceu em Florianópolis. Como Sheila era menor de idade e os profissionais do hospital não conseguiram contato com os pais, o obstetra, Dr. Paulo Pizzolatti, assumiu a responsabilidade pelo parto. “Para salvar o bebê”, conta ela, ainda hoje com gratidão.

Foto: Arquivo Pessoal

Caio foi levado numa ambulância convencional, aquecido como era possível. “Ele teve duas paradas cardíacas durante a viagem e foi reanimado. A Schwester (Irmã) Dora batizou ele na ambulância. “Quem viu o Caio quando nasceu e o vê hoje tem a certeza de que milagres existem.”

Foto: Arquivo Pessoal

Na UTI do Hospital Infantil Joana de Gusmão, Caio ficou 10 dias, depois seguiu para o berçário até completar 45 dias de internação. “Ele nasceu perfeito. Não tinha peso suficiente e precisava tomar banhos de luz”, lembra a mãe. O leite materno chegou no dia seguinte; uma intercorrência — “era muito forte” — levou a uma hemorragia interna e a uma transfusão no terceiro dia. A rotina era rígida: “Na época, na UTI eu só podia ver ele por 10 minutos.” A alta veio quando o bebê atingiu 1,890 kg. O pediatra que acompanhou o parto, Dr. John Kielwagen, colocou uma meta: chegar a 2 kg em duas semanas para evitar nova internação. Caio alcançou. “Teve alguns problemas como dor de ouvido, gripe, mas não teve nenhuma sequela por ter nascido prematuro.”

A mãe resume em poucas frases a travessia que marcou a família: “Há 30 anos, devo a vida dele ao Dr. Paulo por ter tomado a decisão de fazer o parto, mesmo sabendo dos riscos, à Schwester Dora que foi com ele na ambulância, e ao Hospital Joana de Gusmão… Eu tinha 16 e o Fabiano (pai de Caio e marido de Sheila) 17 anos, eram duas crianças cuidando de outra criança, mas ele foi nossa bênção”. Anos mais tarde a família ficou ainda mais completa com o nascimento dos outros dois filhos do casal, com ambas as gestações sendo tranquilas, sem intercorrências e sem novas chegadas adiantadas.

Foto: Arquivo Pessoal

Hoje, Caio Felipe Behling, nascido em 22/08/1995, é um adulto saudável, trabalha como design de interiores e segue como a prova viva de que a prematuridade pode ser o início de uma história de superação. “Para tudo Deus tem um propósito… Ver ele hoje, saudável, realmente é um milagre.”

A surpresa em dose dupla

Três décadas depois, a palavra “surpresa” volta à cena, agora no plural. Susana Vieira, de 38 anos, e Thiago Maurici Montanari, de 40 anos, não planejavam ser pais naquele momento. Ela fazia exames para congelamento de óvulos quando um teste de rotina deu positivo. “Nossa, que susto!”, lembra. O primeiro ultrassom mostrou uma “sementinha”; no segundo, em 9 de julho de 2024, veio a descoberta: “Um óvulo tinha duplicado… De um virou dois.” Eram gêmeos idênticos, mesma placenta e bolsas separadas. “A gente já sabia que iam ser ou dois meninos ou duas meninas.”

Foto: Dra. Juliana Thayse Lameira Breamgartener

A gestação correu tranquilamente até a 23ª semana, quando as primeiras contrações apareceram. No hospital, a equipe identificou trabalho de parto prematuro e iniciou a medicação com corticoide para maturação pulmonar, além de medicação para inibir as contrações. Deu certo por alguns dias. “Conseguimos levar adiante por mais um mês, o que foi muito importante para as meninas.”

Foto: Dra. Juliana Thayse Lameira Breamgartener

No aniversário de Thiago, 28 de novembro, as dores voltaram. Uma nova rodada de corticoide e sulfato de magnésio — “para a maturação cerebral das meninas, uma proteção” — sustentou a espera por 24 horas. Quando as contrações retornaram, a equipe do Hospital Santo Antônio reuniu os pais: cada dia na barriga contava, mas era preciso evitar sofrimento fetal. “Tudo que a gente podia fazer, foi feito… A melhor decisão a partir de então era confiar nos profissionais que estavam ali.” A decisão foi tomada. As gêmeas nasceram de 28 semanas.

A primeira respiração

Os pesos de ambas eram muito próximos de 1 kg. Alice chegou primeiro, “bem pressionada”, com o lado esquerdo escurecido pela posição prolongada. Cecília chorou baixinho, “mais um ‘miadinho’”, na descrição da mãe. O pai conseguiu tocar uma das meninas ainda na sala de parto: “Eles trouxeram a incubadora do lado e dei um toque.” A outra, naquele momento, seguiu direto para o suporte.

A cena que se repete no imaginário de quem passa pela UTI neonatal estava ali: máquinas, tubos, alarmes. E, como contam os pais, as duas equipes espelhadas, pediatras, obstetras, enfermeiros, porque “era sempre vezes dois”. Vieram as primeiras lições ao pé do leito: “Quando você dá oxigênio demais, as veias são tão fininhas… tem muitos bebês que ficam cegos”, diz Thiago, explicando a vigilância milimétrica dos aparelhos. E a compreensão que, apesar de toda a técnica, “tem que acontecer o que precisa acontecer… A vida em primeiro lugar”.

Sessenta dias de UTI: as pequenas grandes vitórias

“Sessenta longos dias.” O balanço de Susana e Thiago mistura alívio e cicatrizes invisíveis. “Graças a Deus elas não tiveram muitas intercorrências… Tudo que aconteceu com elas é considerado normal dentro de uma UTI para a prematuridade delas.” Não houve cirurgias. Mas cada detalhe exigiu fôlego: ganho de peso “grama a grama”, dias sem evacuar, uma “pequena intercorrência no estômago”, a dúvida sobre antibiótico, a caça a uma veia que terminou na testa de Alice: “Foi furada mais de 10 vezes… O último recurso seria pelo pescoço”, recorda o pai. Conseguiram evitar.

O ambiente molda quem entra e quem fica. “A gente viu o médico dando a notícia para o pai e para a mãe que daquela noite o bebê não resistiria”, diz Thiago, sem eufemismos. “É uma exaustão física e emocional”, define Suzana.

Foto: Dra. Juliana Thayse Lameira Breamgartener

Ao mesmo tempo, há ternura imensa à equipe que lutou dia a dia pela vida de Alice e Cecília e que continua lutando por cada pequeno grande guerreiro que passa por aqueles leitos: “A gente vê um carinho, um cuidado… como se fossem filhos deles. Nós os ouvimos dizendo baixinho para os bebês: ‘você consegue, estamos aqui’”, relembra Susana com lágrimas nos olhos e uma gratidão infinita no coração. E há rituais que ficam: “Eu chegava e falava: bom dia, preciosa. Isso eu ainda faço com elas em casa… E elas soltam um sorrisão.”

As meninas saíram da UTI sem sequelas conhecidas até agora, mas com um calendário cheio. “A gente tem três pediatras… Cardiologista, neurologista, oftalmologista, pneumologista… e fisioterapia todos os dias”, lista a mãe. O tempo também passa em modo corrigido: “Hoje elas têm dez meses de vida, mas sete meses corrigidos… A introdução alimentar começou só agora.” É uma nova rotina de “cheques”, cada especialista, cada exame, cada etapa. E a casa virou casulo: “A gente viveu uma Covid novamente”, resume Thiago. “Máscara, álcool em gel, sem visitas. Se vier, a porta tá trancada.” Com o tempo, “começa uma nova fase… Apresentar o mundo pras meninas”, sempre aos poucos.

O que os pais gostariam que todos soubessem

A mensagem de Susana mira quem encontra uma família com um bebê prematuro: “Prematuro não é apenas nascer antes da hora. É travar uma luta diária… Cada grama, cada respiro é uma evolução.” Empatia, diz ela, é ajudar sem invadir: “Estar lá não vai ajudar. O que vai? Pensar no almoço, passar uma roupa, mandar um bolinho… Uma palavra amiga.” Para os parentes próximos, informação e cuidado: “A gente ensinou as pessoas sobre o tema… É delicado. As visitas, quando permitidas, impactam e ajudam a entender os cuidados.”

Foto: Dra. Juliana Thayse Lameira Breamgartener

Thiago é direto: “Eu diria pros pais serem chatos mesmo… É a proteção da sua família e a vida das suas pequenas.” E reforça o que aprenderam na prática: “Informação é tudo… Estudem um pouquinho sobre a gravidez e o que você precisa acompanhar.” Ele se lembra de casos de descompasso de crescimento em gêmeos que exigem acompanhamento frequente e, às vezes, cirurgia a laser, algo que o casal conheceu e monitorou de perto nas consultas. Perguntar nunca é demais, completa Susana: “Não é vergonhoso fazer uma pergunta… Ela pode acabar te ajudando a salvar a vida que você está gerando.”

Thiago ainda faz questão de comentar um aspecto burocrático, porém importantíssimo. O período de licença-maternidade é de quatro meses, porém, quando o bebê precisa de internação na UTI, como no caso das gêmeas, esse período é descontado, ou seja, a licença começa a partir da alta. “É importante que as pessoas saibam, pois os cuidados após os bebês irem para casa também são intensos”.

A neonatologista: definições, riscos e caminhos de cuidado

Para situar os relatos, ouvimos a Dra. Juliana Thayse Lameira Bremgartner, pediatra e neonatologista com 15 anos de atuação na UTI neonatal e em salas de parto no Hospital Santo Antônio, de Blumenau, e no Hospital OASE, de Timbó. O ponto de partida é claro: “Bebês prematuros são aqueles abaixo de 37 semanas de idade gestacional.”

Foto: Dra. Juliana Thayse Lameira Breamgartener

Ela aponta fatores que aumentam o risco de parto prematuro, como pré-natal inadequado, doenças maternas (diabetes, hipertensão, infecções), uso de drogas, idade extrema da mãe, gestações múltiplas, histórico de prematuridade, estresse e fertilização in vitro.
A médica descreve ainda os avanços que mudaram desfechos: “Atendimento adequado pelo pediatra/neonatologista em sala de parto, uso de corticoide antenatal, uso de surfactante exógeno, monitorização efetiva, uso racional de antibióticos e dieta adequada.”

O cuidado começa mesmo antes do nascimento: “Se possível, encaminhar a mãe para um serviço especializado… Iniciar os cuidados antenatais”, explica ela. Quando um bebezinho prematuro chega ao mundo, nasce, então, a ‘hora de ouro’: “Garantir, na 1ª hora de vida, bom controle dos sinais vitais, ventilação pulmonar adequada e gentil, e encaminhamento rápido à UTI neonatal.” Nada disso se faz sozinho. “A equipe multiprofissional (enfermeiros, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, psicólogos) garante o mínimo de intervenções e dá suporte aos familiares… tentando tornar esse período, tantas vezes longo, menos sofrido e mais humanizado.” E mesmo após a alta, há caminhos a seguir, pois o acompanhamento clínico, muitas vezes multidisciplinar, é fundamental.

Sobre prevenção, a orientação é objetiva: “Garantir um bom pré-natal, para tentar sanar intercorrências que surgirem durante a gestação.” E às famílias, a mensagem de quem vê a luta de perto: “Não é fácil ser pai e mãe de UTI, mas saibam que vocês também fazem parte do tratamento… Sua presença, seu toque, sua voz e sua fé são sentidos pelo bebê e fazem toda a diferença.”

Foto: Arquivo Pessoal

Entre tempos: a mesma coragem

Nas histórias de Sheila e de Susana e Thiago, há três constantes: o imprevisto, a decisão rápida e a rede de cuidado. Trinta anos separam a ambulância sem UTI que levou Caio a Florianópolis e a sala de parto “vezes dois” que recebeu Alice e Cecília. A tecnologia avançou; a precisão do cuidado se expandiu; a presença de equipes especializadas ficou mais estruturada. Mas a essência — coragem, informação e companhia — atravessa o tempo.

“Eu sempre digo, para tudo Deus tem um propósito”, diz Sheila. “A gente teve as pessoas certas na hora certa”, ecoa Susana. A neonatologista completa a tríade: “Seu bebezinho tem uma força gigante.” Entre paradas cardíacas na estrada e 60 dias de UTI, o fio que costura cada relato é a superação, não como palavra grandiosa, mas como gesto repetido: aprender a ler os olhares da equipe, perguntar sem medo, bater a porta para proteger quem acabou de chegar, celebrar o milagre que encanta uma família há décadas, sussurrar “bom dia, preciosa” para lembrar que viver é um recomeço diário.

Arte: Equipe Testo Notícias

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