Tesouros escondidos são revelados após restauro de casa centenária na Rota do Enxaimel

Antigo casarão que abriga o Mahlzeit Café Colonial guarda detalhes arquitetônicos raros e resgata memórias da colonização no Vale Europeu

Em meio à paisagem bucólica da Rota do Enxaimel, em Pomerode, uma casa centenária voltou a respirar história. Construída por volta de 1909, a edificação que hoje abriga o Mahlzeit Café Colonial (expressão alemã que significa “bom apetite” ou “tenha uma boa refeição”) atravessou mais de um século como testemunha silenciosa da vida comunitária no interior da cidade. Recentemente, após um minucioso processo de restauração, ela ressurgiu como um espaço que une preservação cultural e experiência sensorial.

Originalmente, o imóvel funcionava como uma casa comercial, uma filial do tradicional comércio Haut, e atendia colonos da região duas vezes por semana. Ali, negociava-se o essencial: produtos que não eram produzidos localmente, como sal, querosene e fósforos, eram trocados pelo excedente agrícola das famílias. Esse modelo, típico da economia colonial, manteve-se ativo até o fim da década de 1980, quando o espaço passou a ser apenas residência da família Zumach.

Foto: Graziela Tilmann/Testo Notícias

Nova vida para preservar a história

Décadas depois, já fechado e sem uso, o casarão foi adquirido em 2022 pelo empresário Ivan Blumenschein e seus sócios. O que se seguiu foi um trabalho de restauração que durou três anos e exigiu precisão técnica e respeito absoluto à história. A estrutura original, especialmente o telhado, demandou intervenções complexas, conduzidas por uma empreiteira especializada e autorizada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), com acompanhamento de arquitetos e órgãos de preservação.

O restauro foi coordenado pela arquiteta Sandra Rahn e acompanhado pela Secretaria de Planejamento de Pomerode, pela Federação Catarinense de Cultura e pelo Iphan. A empreiteira Tribess, homologada para atuar em casas tombadas, conduziu os trabalhos. Paisagismo, desenho de móveis e decoração tiveram o envolvimento da arquiteta Cristina Fausel.

Tesouros revelados

Mais do que recuperar a edificação, o projeto buscou revelar seus tesouros escondidos. Um dos exemplos mais emblemáticos está no piso do salão principal. Durante décadas considerado escuro, o assoalho revelou, após o lixamento, uma sofisticada paginação de tábuas alternadas de peroba-rosa e canela-preta, um detalhe que evidencia o cuidado estético já presente na construção original.

A própria tipologia da casa também chama atenção: são, na verdade, duas estruturas integradas, uma destinada ao comércio e outra à moradia da família. Essa configuração, preservada no restauro, ajuda a contar a história do uso misto tão comum nas comunidades de imigrantes.

Outro elemento que encanta visitantes está nos fundos do terreno, às margens do Rio do Testo. Ali, uma antiga estrutura de tijolos, antes abandonada, ganhou nova vida com a instalação de uma roda d’água funcional, projetada especialmente para o local. Em referência a um antigo sistema que gerava energia por meio de um dínamo, a intervenção resgata uma solução engenhosa utilizada antes da chegada da eletrificação pública à região, algo que se efetivou apenas na década de 1970.

Foto: Graziela Tilmann/Testo Notícias

O entorno também recebeu atenção especial. Um projeto de recuperação ambiental resultou no plantio de centenas de mudas de espécies nativas da Mata Atlântica, reforçando o compromisso com a preservação não apenas do patrimônio construído, mas também da paisagem natural.

Hoje, quem visita o Mahlzeit encontra mais do que um café colonial. O espaço é, em si, uma imersão na cultura pomerodense. A estrutura em enxaimel foi mantida aparente, permitindo observar a técnica construtiva trazida pelos imigrantes alemães. Elementos como o antigo forno, o madeiramento original e a integração com o rio compõem um cenário autêntico, onde cada detalhe carrega uma narrativa.

Foto: Graziela Tilmann/Testo Notícias

A escolha de instalar o café justamente ali não foi por acaso. Em uma rota reconhecida por sua importância histórica, o casarão restaurado amplia as possibilidades de vivência cultural. “Não tem lugar mais apropriado para algo que valoriza a cultura do que uma casa tombada na Rota do Enxaimel”, resume Blumenschein.

Assim, o Mahlzeit se consolida não apenas como um novo ponto turístico, mas como um guardião de memórias. Entre vigas centenárias, tábuas reveladas pelo tempo e o som contínuo da água do rio, a casa reafirma sua vocação: ser um espaço de encontro; ontem, entre colonos; hoje, entre passado e presente.

Confira mais detalhes na entrevista com Ivan Blumenschein:

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