
Abaixo o preconceito: há onze anos em Pomerode, Patrícia revela que o respeito pela cultura local foi primordial para combater qualquer prejulgamento.
Falar sobre preconceito é algo que ainda gera muito desconforto e provoca discussões acaloradas. Há quem diga que o termo já foi esquecido e que a sociedade já evoluiu para uma seara sem discriminação. Mas os números não negam, o assunto é atual e precisa ser amplamente discutido. “Acredito que uma sociedade mais igualitária, justa, menos preconceituosa e mais amorosa seria ótimo para todos. Precisamos exercer, promover e praticar mais tudo isso, para que nossos filhos aprendam através do exemplo e repitam estas boas atitudes no futuro”, avalia a professora Patrícia Morena da Costa.
Ela é negra e nasceu no Rio Grande do Sul. Há onze anos escolheu Pomerode para ser sua casa. “Nós morávamos na Alemanha há quatro anos quando meu marido recebeu uma proposta de trabalho aqui. Sempre brinco que saímos da Alemanha para voltar ao Brasil e morar na ‘pequena Alemanha'”, conta.
A professora relembra que não conheciam ninguém no município e que, aos poucos, foram se integrando através dos eventos e festividades que participavam. “Quando chegamos aqui nos encantamos com a natureza e a organização da cidade. Lembro que me chamava atenção a maneira natural das pessoas alternarem entre os idiomas alemão e português durante uma mesma conversa”.
Em casa, a família de Patrícia praticava o idioma aprendido no tempo em que moraram no exterior e começaram a falar também quando estavam em locais públicos. “Era uma forma de manter o idioma aprendido, quando saía com meus filhos, conversávamos em alemão”.

Marta Rocha /Em sala de aula: professora Patrícia compartilha os conhecimentos que aprendeu na Alemanha com os alunos.
E foi essa conexão com a língua alemã o que a aproximou das pessoas. Patrícia relembra que no começo ficava constrangida quando a questionavam por saber falar alemão. “Me perguntavam surpresas como uma ‘morena’ podia falar o alemão e ainda mais o da Alemanha. Eu percebia que em alguns lugares as pessoas olhavam e achavam diferente eu falar alemão. Por isso, tenho certeza que essa língua me abriu várias portas aqui”, afirma.
Mas Patrícia reforça nunca ter se sentido discriminada em Pomerode. “Acho que essa atitude de alguns estava mais relacionada a um ‘pré-conceito’, que é um julgamento que se tem de alguém antes de conhecer e saber de sua história. E no meu caso isso estava relacionado ao fato de muitos acharem que só sabe falar alemão quem é branco ou descendente de alemão. Isso sem antes saber que para eu aprender alemão, estudei todos os dias e fiz cursos durante dois anos na Alemanha, mantendo o contato direto com a cultura, com os alemães e o dia a dia daquele país”, declara.
De acordo com a professora, na Alemanha há muitas cidades universitárias onde estudam estrangeiros de todas as partes do mundo, o que faz com que os alemães estejam sempre dispostos a ensinar. “Acho que isto faz com que o povo alemão esteja mais aberto e acostumado com diferentes culturas. Existem também muitos turcos, asiáticos, africanos e, recentemente, os refugiados. Lembro que alguns alemães falavam que achavam muito bom eu ter aprendido a falar o idioma. Para eles era uma honra alguém que chegou de outro país se esforçar para aprender o idioma deles, algo que sabem que não é fácil”, admite.
Patrícia acredita que conhecer e se integrar na cultura e nos valores de cada local é muito importante, assim como respeitar a mesma em sua essência. “Estar aberta para conhecer e viver os valores e as tradições de Pomerode faz com que eu consiga viver a cultura local e não me sinta discriminada. Em Pomerode o fato de eu ensinar o alemão, que é motivo de orgulho deste povo, é algo que faz a diferença para mim”.
A professora garante que se sente realizada em poder passar seus conhecimentos e vivências dos anos em que morou na Alemanha. “Gosto de desfilar na Festa Pomerana com meu traje típico, que antes nunca me imaginei usando. E em uma escola que dou aula, sou uma das organizadoras do Flohmarkt, o Mercado de Pulgas, um evento típico da Alemanha e que conseguimos colocar no calendário de eventos do município como forma de trazer esta cultura para Pomerode”, expõe.
Palavras como “abertura” e “entrega” são para Patrícia importantes ferramentas para vencer o preconceito e as barreiras que, muitas vezes, são impostas pela sociedade. “Muitas vezes não paramos para pensar no porquê repetimos estas atitudes e quais impactos elas têm na vida de quem sofre. E isso não está relacionado somente à cor, mas também à profissão, às mulheres, aos pobres, aos estrangeiros, à religião, aos deficientes, à aparência, aos homossexuais à língua e muitos outros fatores. A diversidade ajuda a construir uma sociedade, um país e um mundo mais justo e igualitário”, finaliza.
Imagens

Foto: Marta Rocha 
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Em sala de aula: professora Patrícia compartilha os conhecimentos que aprendeu na Alemanha com os alunos.
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Abaixo o preconceito: há onze anos em Pomerode, Patrícia revela que o respeito pela cultura local foi primordial para combater qualquer prejulgamento.
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