Talvez você já tenha o visto andando em Pomerode. Diferente de animais domésticos, ele pode e deve ingressar e permanecer nos mais diversos lugares. Fargo, como foi nomeado, é o cão de apoio emocional do Raphaël Christino Rallon, de 19 anos, e atua auxiliando seu tutor no dia a dia.
Raphaël é diagnosticado com Autismo do tipo SOE e, desde dezembro de 2022, conta com um novo melhor amigo para lhe proporcionar conforto, apoio e alívio emocional. A história dos dois iniciou em março de 2022, quando Raphaël teve contato pela primeira vez com a Helen Keller – Escola de Cães Guias.
Na época, morava em Balneário Camboriú e, na escola, estava cursando uma disciplina chamada Projeto de Vida. Em grupo, precisaram escolher uma instituição beneficente que pudessem ajudar. “Eu sugeri que fizéssemos sobre a Helen Keller, já que é um grupo voltado para uma causa social bem legal. Nós conseguimos o contato de uma pessoa de dentro da escola e marcamos para ela ir no próprio colégio falar um pouco de como eles trabalham. Na oportunidade, ela levou um cão-guia para conhecermos”, lembra.
Já no início de abril, Raphaël decidiu que faria um trabalho voluntário na Escola de Cães Guias Helen Keller como parte de um requisito no grupo de escoteiro que faz parte. “Foi aí que comecei a ter mais contato com o Fargo, ele estava na escola nos dias que eu ia. Lá, eu fazia de tudo, ajudava a limpar as baias, dava banho nos cachorros, colocava a ração no pote, etc.”
Durante o período que Raphaël frequentava a Helen Keller, o Fargo estava finalizando o período de treinamento para se tornar, oficialmente, um cão-guia. No entanto, durante alguns exames, foi detectado que ele tinha uma displasia no quadril esquerdo e, com isso, não poderia se tornar um cão-guia.

Com o intuito de não precisar aposentar os cachorros que não passavam no teste final de saúde, a escola começou a direcioná-los para pessoas que poderiam se beneficiar de um cão de apoio emocional. “Durante os períodos de treinamentos, eles sempre fazem um momento de liberdade, onde os cães podem brincar, fazer as necessidades, etc. Foi nesse momento que eu tive mais contato com o Fargo e me aproximei dele. No fim de 2022, como agradecimento pelo trabalho voluntário que fiz, a escola me ofereceu ele”, explica.
Fargo se tornou oficialmente o cão de apoio emocional para Raphaël no dia 19 de dezembro de 2022, momento em que o novo tutor e a família haviam acabado de se mudar para Pomerode. Na chegada à nova cidade, ele e o irmão, Théo Christino Rallon, de 15 anos, iniciaram os estudos no Colégio Fátima.
Para os pais, Yan Rallon e Patrícia Christino Rallon, a escola foi uma benção, já que entendeu desde o princípio a necessidade do novo estudante. “É um grupo muito focado, professores e profissionais muito queridos. Desde que viemos para cá, estamos fazendo esse trabalho com a comunidade. Uma das condições é que o Fargo esteja sempre vestido. No entanto, na escola, a instituição pediu que, em determinados horários, tirasse o colete dele, porque as crianças ficavam alucinadas. Ai o Fargo foi ficando ‘chameguento’, porque todos querem fazer carinho nele. Mas ele obedece aos comandos, ele espera para comer, anda junto ao Rapha”, destaca Yan.
Desde o primeiro dia, Fargo se tornou o companheiro e melhor amigo do seu tutor. Esteve com Raphaël na rotina de aula, nos diversos passeios pela cidade e região e, claro, dentro de casa. “Desde outubro de 2023, o Fargo começou também a me acompanhar nas atividades escoteiras externas, porque até então ele só frequentava o grupo comigo.”
Novos desafios
Para um futuro bem próximo, novos desafios estão se aproximando. No dia 22 de fevereiro, Raphaël iniciará o curso de Educação Física na Furb, em Blumenau. Já no dia 26, ele inicia como jovem aprendiz na Netzsch, em Pomerode.
Na empresa, ele atuará no setor de usinagem, local que, infelizmente, Fargo não poderá estar junto. “Mas de tarde, quando eu for pro Senai, minha intenção é passar em casa e pegar o Fargo para ir comigo”, relata.
Como a faculdade é em Blumenau, os dois se deslocarão para a cidade de ônibus e, inclusive, fizeram alguns testes para garantir que tudo ocorra de forma correta. “Fui na sede da Volkmann, apresentei o Fargo e já fui três vezes para Blumenau. O Fargo fica bem de boa no ônibus.”
Sobre os próximos passos, Raphaël admite que espera que seja uma experiência muito legal e proveitosa. “Sei que terei novos desafios, mas eu e ele conseguiremos superá-los tranquilamente.”

Benefícios do cão de apoio emocional
Um dos principais papeis do cão de apoio emocional é oferecer presença, companhia e afeto. Dessa forma, ajuda a tranquilizar o tutor em diferentes momentos e também contribui para a independência da pessoa. “Ele me ajuda bastante. No ano passado, por exemplo, tive uma grande dificuldade em uma disciplina. Aí eu conversava com o Fargo, ele me lambia e me tranquilizava.”
Assim como o animal ajuda diariamente seu tutor, Raphaël entende que o cão pode ajudar outras pessoas da mesma forma. Em novembro de 2023, por exemplo, os dois estiveram na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Pomerode fazendo um trabalho social com as crianças e adultos da instituição. “Fiz uma apresentação minha e do Fargo, expliquei no que ele me ajuda. Posso dizer que esse ato de compartilhar o Fargo foi uma experiência bem legal”, destaca.
Para o futuro, um dos desejos da Apae é que o cão possa também dar apoio aos estudantes durante as sessões de fisioterapia. “Esse é um projeto futuro, mas que pretendo colocar em prática. Acredito que a ajuda emocional possa fazer com que o paciente consiga se distrair. Às vezes, pode ser meio tenso para eles, então ter um cão para relaxar seria uma benção.” Além disso, a ideia é também fazer um trabalho com o Centro de Convivência Pommernheim, de Pomerode, mas que ainda terá que ser estruturado.
Vivências e responsabilidades
O pai de Raphaël entende que o filho tinha tudo para ser um autista limitado. Porém, com o passar dos anos, o jovem demonstrou sua independência. “Nós detectamos cedo, mas o aspecto dele é tão especifico que demoramos cerca de três anos para fechar o diagnóstico. Quando fechamos o diagnóstico, ele já estava com quase nove anos. Enquanto autista, ele tem características muito marcantes, ele é persistente, disciplinado, mas tem as deficiências dele, principalmente no ler e escrever. Por isso, tudo que é audiovisual é muito produtivo para ele”, relata Yan.
Com a chegada do Fargo, Raphaël precisou lidar com ainda mais responsabilidades, desafio que cumpre com excelência. “O Rapha é responsável por todos os cuidados do Fargo, então isso ajuda na disciplina dele. Nós acabamos ajudando, mas a autonomia é dele. Eles dormem no mesmo quarto, brincam e fazem companhia um para o outro, estão sempre juntos”, finaliza.

































