A psicóloga Alessandra Mara Hammerschmidt, de 32 anos, sempre carregou consigo o desejo de se tornar mãe por meio da adoção. Quando sentiu que o momento certo havia chegado, em julho de 2019, deu entrada no pedido de habilitação de forma solo.
O curso de formação demorou um pouco a acontecer e, dessa forma, se tornou oficialmente uma pretendente cerca de um ano mais tarde. Assim que toda documentação estava completa, recebeu o mesmo questionamento que Darliane Baehr Beck e Ralf Alexander R. L. Beck, cuja história você acompanhou nas páginas anteriores. “Me perguntaram se eu aceitava participar do grupo de busca ativa, então, disse que sim.”
No momento de informar quais características buscava no futuro filho ou filha, Alessandra havia assinalado que uma criança de até cinco anos seria bem-vinda. No entanto, não previu que seu coração de mãe se apaixonaria instantaneamente por uma adolescente prestes a completar 14 anos, Tayane Vitória Hammerschmidt, hoje com 16. “Depois de ver o vídeo dela, não tive mais dúvida: era a minha filha! Busquei saber sobre a história da Tay, como faria para me aproximar e assim por diante”, revela em meio a um largo sorriso.
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O primeiro contato com a adolescente foi estabelecido por meio de outro vídeo. Nele, Alessandra contou um pouco sobre si e perguntou a Tayane se as duas poderiam começar a conversar. Diante da resposta positiva, passaram às videochamadas. Cerca de 500 quilômetros separavam mãe e filha naquele instante, então a logística para os encontros presenciais precisou de muita organização.
Para a primeira visita à filha, a decisão foi a de fazer uma surpresa com a ajuda da assistente social. Alessandra fez uma videochamada e quando Tayane atendeu, percebeu que a mãe estava do lado de fora do abrigo. “Ela olhou e falou para a assistente ‘tia, ela está aqui’ e foi correndo portão afora para me abraçar. Essa foi a primeira grande surpresa que eu fiz para ela.”
A primeira, mas não a última. O período de aproximação entre elas continuou, Tayane passou um fim de semana na casa de Alessandra e, mais tarde, outro período de cinco dias. As duas oportunidades tiveram tons diferentes. Na primeira, a programação envolvia passeios e uma festa de aniversário. Já na segunda, Alessandra seguiu com sua rotina normal para que a filha entendesse de que forma seria o cotidiano das duas. “Eu fui trabalhar e ela ficou com a minha mãe, mantivemos as atividades, a rotina de família”, revela.
Foi no dia 26 de outubro que a segunda grande surpresa de Alessandra para Tayane aconteceu. Com todos os trâmites judiciais acertados, era chegado o momento de buscar a filha para morar definitivamente com ela. Um momento marcado pela emoção e que resultou em um vídeo guardado pela mãe com muito carinho.
Um importante capítulo da história de ambas começava ali e o roteiro ainda estava recheado com grandes desafios, que exigiriam dedicação e paciência. Antes de entrar na vida de Alessandra, Tayane passou por duas devoluções, ou seja, processo que ocorre quando a família pretendente desiste da adoção. A experiência deixou nela algumas marcas difíceis de apagar. Alessandra conta que o maior desafio foi o de fazer com que a filha entendesse que chamar a atenção, dizer “não” e orientar não eram sinônimos de falta de amor ou sinais de desistência. “Foi um trabalho de formiguinha, de mostrar para ela que eu não iria devolvê-la. Não importava o que acontecesse, ela era minha! O maior desafio foi fazer com que ela entendesse o que é uma família, que eu iria lutar, que não desistiria dela.”
Para isso, Alessandra precisou ir muito além das palavras, foi com ações que comprovou à filha como os laços formados entre as duas eram indissolúveis. Nesse contexto, ela mesma necessitou de tempo para entender e saber como reagir às atitudes da adolescente. “Chegou um momento em que ela era muito mais próxima da minha mãe do que de mim. Isso tinha relação com o papel que eu representava. Eu era a quarta pessoa que ela chamava de mãe, e as mães a abandonaram, tanto a biológica quanto as duas adotivas. Como então ela poderia acreditar no que eu dizia, que seria diferente, se outras já tinham feito exatamente isso?”, contextualiza Alessandra.

O remédio para isso foi a resiliência diária de mostrar, segundo a segundo, que Tayane fazia parte de uma família que a amava e lutaria por ela, não importava qual fosse o desafio. A vitória chega aos poucos, em pequenas mudanças no comportamento. A adolescente que antes era agitada e buscava atenção constante, agora demonstra tranquilidade, responsabilidade e tem no olhar o brilho da alegria. A mãe revela que Tayane conseguiu absorver o que significa poder contar sempre com alguém, “qual é a hierarquia dentro da família. Ela tem voto dentro da casa, tem opiniões e que elas serão aceitas, mas existe uma hierarquia, eu sou mãe e ela é filha, nossos papeis não são iguais. Eu tenho os meus direitos e deveres como mãe e ela os mesmos como filha”.
O processo de aprendizagem foi transformador para ambas, Alessandra revela que ser mãe lhe ensinou muito, inclusive a ser mais flexível e tolerante. Ela orienta para que os pretendentes à realizar adoção tardia leiam e se informem muito, que tenham paciência, persistência e contem sempre com ajuda especializada. É importante ter em mente que haverá dificuldades, assim como ocorre também na criação de um filho biológico. Haverá altos e baixos, “mas os momentos bons ultrapassam em muito os ruins. Para mim, ter uma família por adoção significa colocar o amor acima de tudo, do preconceito, da opinião alheia e assim por diante. Tem uma frase da qual gosto muito: você ama seu filho biológico porque ele é seu filho, e o filho por adoção, é seu filho porque você o ama.”
































