A luta e a vocação de aprender a ensinar

Ana Cristina trilhou um caminho repleto de desafios para realizar o sonho de ser professora

Foto: Janaina Possamai
Amor que transborda: com um enorme sorriso, Ana Cristina posa para a foto em um dos cantinhos que mais ama na E.B.M. Olavo Bilac.

A vida é composta por um emaranhado de desafios, pequenos e grandes, que precisam ser superados por aqueles que buscam transformar sonhos em realidade. Para Ana Cristina Kamchen Buettgen, de 50 anos, não foi diferente. A alegre professora precisou transpor muitas barreiras para seguir a vocação de ensinar.

Ela conta que o desejo de ser professora acompanhou a mãe durante toda sua vida, mas como os tempos eram diferentes, não propícios ao estudo, ela não conseguiu seguir a profissão. Ainda assim, incentivou os filhos com o amor pelo saber. “Foi ela quem me ensinou as primeiras letras e também a ler em língua alemã. Já meu pai despertou em mim o gosto pela música”, conta.

Ana Cristina tem outros cinco irmãos e, embora os pais quisessem muito que todos estudassem, não tiveram condições de garantir o ingresso deles na escola após o término do primário. Dessa forma, quando completou 10 anos de idade, Ana Cristina precisou interromper os estudos. “Quando comecei a frequentar a doutrina, conheci o pastor Gustavo Germano Krieger e sua esposa, dona Ilonca. Na época não sabia, mas os dois fizeram toda a diferença em minha vida. Dona Ilonca me estimulou a estudar música e o Pastor Gustavo me fez enxergar que, embora as condições daquele momento não fossem as mais propícias, eu tinha o direito de sonhar”, relembra.

Mais tarde Ana Cristina começou a trabalhar na Companhia Karsten, e foi incentivada pelos pais e pelo pastor Gustavo a voltar a estudar, já que poderia pagar pelos estudos com o próprio salário. “Mesmo sem poderem me ajudar financeiramente, me deram todo o suporte para contribuir com a busca do meu sonho, que na época era o de ser missionária para ajudar as pessoas que mais necessitavam. Com o passar dos anos percebi que não seria necessário ‘atravessar os mares para dar aos outros novas salutares’, verso de uma música que marcou minha vivência como orientadora de Culto Infantil. Vi que também aqui, na minha comunidade, poderia fazer a diferença”.

Divulgação/Equipe: Ana Cristina ao lado dos colegas da Escola Olavo Bilac.

Foi então que ela decidiu fazer o Magistério e deu um novo rumo a sua vida. Foi em fevereiro de 1991 que Ana Cristina pisou em uma sala de aula pela primeira vez. “Numa sexta-feira à tarde recebi uma ligação no meu local de trabalho. Era a dona Elke Volkmann Steuck me convidando para ser professora na Creche Rosa Borck. Sem pensar muito, e com a certeza de que teria o apoio dos meus pais, fui ao Departamento Pessoal pedir minha demissão. Já na segunda-feira comecei a lecionar na Educação Infantil. Em 1995 me efetivei no Ensino Fundamental e comecei a trabalhar na E.B.M. Olavo Bilac. Na mesma época também trabalhei no Colégio Doutor Blumenau, escola da qual guardo lindas lembranças e muitos aprendizados. Desde lá foram muitas experiências, muitas alegrias, algumas frustrações, porque também estas fazem parte de nossas vidas, e uma certeza, a de que eu escolhi a profissão certa para mim”.

Nesses quase 30 anos de profissão, Ana Cristina já teve a oportunidade de caminhar por diferentes áreas da Educação também fora da sala de aula. Já foi responsável por coordenar os anos iniciais do Ensino Fundamental do Município, onde teve como maior desafio desenvolver o projeto do Ensino Bilíngue e coordenar sua implantação. “Sinto muito orgulho em fazer parte dessa história, porque hoje vejo que valeu a pena todo o esforço e estudo para dar suporte aos profissionais que trabalhavam com os alunos. Três escolas de Pomerode têm o Ensino Bilíngue em sua grade curricular, garantindo o aprendizado diferenciado da língua alemã”. Ana Cristina também assumiu a direção da E.B.M. Olavo Bilac por quatro anos, vivências que transformaram seu olhar em diversos aspectos e pelas quais é grata.

Atualmente ela é professora do segundo ano do Ensino Fundamental, na turma de alfabetização. “E posso afirmar que a sala de aula é meu lugar! O que mais encanta é poder fazer a diferença na vida dos alunos. É olhar cada um deles como um Ser único, é ver o brilho no olhar quando uma dificuldade é superada, é ouvir aquela expressão ‘agora eu entendi’ ou ‘consegui’. É olhar o percurso e observar a evolução. É conseguir entender a lógica por trás do ‘erro’ e chegar em casa depois de um dia por vezes exaustivo e me perguntar: o que vou fazer de diferente amanhã para que o aprendizado dos meus alunos seja melhor? Ou ainda: para que as relações na sala de aula sejam melhores? E conseguir pensar em algo novo e desafiador”.

A experiência na profissão também a fez adquirir um olhar crítico sobre as necessidades latentes para a evolução da Educação. Para ela, os sistemas educacionais precisam repensar os tempos pedagógicos. “Muitas novidades foram inseridas, mas a grande maioria das escolas ainda continua com um período de apenas cinco aulas de 45 minutos cada. Quer dizer, aumentaram as exigências, mas o tempo para trabalhar esse novo conteúdo continuou o mesmo. Talvez seis aulas diárias de 45 minutos, com dois intervalos, dessem conta de um aprendizado mais efetivo, sem a necessidade de ampliação do espaço físico”, pondera.

Além disso, ela afirma que é preciso valorizar quem ensina. Da forma como o fazem os países mais desenvolvidos. “Aqui no Brasil ainda há muito que se avançar. E quando falo em respeito não me refiro a discursos vazios, falo de ações concretas. Porque por mais que eu ame minha profissão, digo que atualmente não é fácil ser professor. São muitas as exigências e para conseguirmos fazer um trabalho diferenciado, muitas vezes abrimos mão do tempo com nossos familiares para pesquisar e planejar algo novo, desafiador, significativo. E mesmo assim somos classificados por ‘alguns’ como uma classe com ‘muitos privilégios'”, assinala.

No entanto, nada disso a faz se arrepender da escolha profissional, muito pelo contrário. Aliás, Ana Cristina pondera que aqueles ou aquelas que por ventura escolherem essa profissão, devem fazê-lo por realmente gostar e desejar fazer a diferença na vida de crianças e jovens. “Somos os profissionais que trabalham com a matéria-prima mais preciosa desse país: as crianças, adolescentes e jovens em formação. E eles merecem, como já escreveu Augusto Cury, ‘Pais Brilhantes e Professores Fascinantes’. Parabéns a todos os profissionais da Educação que todos os dias fazem o seu melhor, finaliza. 

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