Roney Wigando Pagel fala do constante reaprendizado ao cuidar do seu pai

No auge dos seus 88 anos, os passos de Wigando Pagel até podem ser mais lentos e a memória pode até não ser mais a mesma da época da sua juventude. Mas uma coisa nunca vai mudar: o amor e o carinho que ele tem pelos seus dois filhos. Um é professor doutor e hoje mora em Sergipe, onde é professor universitário. Já o outro ficou mais perto e atua na indústria têxtil, como representante comercial.
Sempre muito ativo, Wigando foi empresário e empreendedor. Qualidades que herdou do pai e que passou para os filhos. Ele era dono de um mercado, que cresceu e logo se tornou supermercado. E também se especializou em carnes, com um açougue referência na região pela qualidade dos produtos e cuidados sanitários. Do açougue, surgiu a ideia da produção de embutidos. “As pessoas vinham de outras localidades só para comprar carne no mercado do meu pai”, conta orgulhoso o filho, Roney Wigando Pagel, 59 anos.
Roney afirma que o negócio do pai sempre era motivo de muito orgulho, tanto para os filhos, como para a esposa. E a forma como Wigando os educou sempre será lembrada. “Meu pai sempre foi muito presente em nossas vidas. Era muito justo e honesto com todos, em qualquer hora ou situação. E seu companheirismo estava em todas as atividades que fazíamos juntos, desde aprender pequenos consertos domésticos, até cuidar dos negócios da família”.
Com os filhos muito bem encaminhados e com a idade chegando, Wigando decidiu que era hora de vender o negócio para aproveitar um pouco a vida. Um dia, sem querer, a vida lhe pregou uma peça e Wigando viu sua companheira de vida partir. Como os filhos e familiares estavam dedicados aos cuidados com ela, não perceberam logo que Wigando apresentava alguns sinais do Alzheimer. “Foi com a ausência da minha mãe que começamos a notar algumas atitudes do meu pai. E por isso, achamos que era hora de procurar ajuda”, relembra Roney.
Para o filho, a doença do pai fez com que eles se tornassem ainda mais unidos. “Com a doença do meu pai, eu compreendi que cada dia é um novo reaprender”. Roney entendeu que essa era a hora de dar ainda mais carinho e cuidado para quem tinha dedicado a vida pela família. “Nós sabíamos que ele precisava ter alguém sempre por perto e não podíamos mais deixá-lo sozinho”, reforça.
Roney explica que todos os familiares estavam no auge de suas carreiras profissionais e não podiam deixar tudo, de uma hora para outra. E nem seu pai gostaria que eles fizessem o mesmo. “Hoje a insegurança também está muito grande e é difícil se sentir à vontade colocando uma pessoa estranha dentro de casa. Foi então que procuramos um local para que ele pudesse ficar e ter toda a assistência necessária”, expõe.
Mas aceitar que o pai não estaria mais todos os dias por perto, segundo Roney, também não foi uma decisão fácil. Ele reforça que pesquisou muito e conversou com muitas pessoas e profissionais até decidir trazer o pai para morar em Pomerode, no Centro de Convivência Pommernheim. “Meu pai está aqui há três anos, mas eu ainda sinto que existem muitos tabus quando se fala em centros de convivência. O que as pessoas precisam entender, é que aqui meu pai tem toda a assistência necessária para a doença que tem. Tudo é acompanhado diariamente, por muitos profissionais. E eu estou aqui semanalmente para acompanhar tudo e matar as saudades dele, assim como os netos e demais familiares”.
De acordo com Roney, o preconceito em relação a deixar um pai idoso em um centro de convivência surge quando alguns familiares confundem oferecer uma assistência ainda maior com o abandono de um ente querido. “Nunca, jamais abandonaria meu pai e é isso que faz toda a diferença, a presença constante que mantemos um na vida do outro. Sempre que estou aqui, ele me pergunta as novidades. Algumas vezes esquece fatos e o nome das pessoas. Mas nada que uma boa conversa não o ajude”.
Para Roney, o papel de Wigando, enquanto pai amoroso e presente, o fez entender como será também a sua vida como pai. “É até difícil dizer o que o meu pai representa para mim. Acho que por isso que cuido dele com todo o amor e carinho. Eu também tenho dois filhos e sei como tudo é difícil. E sei, enquanto pai amoroso, que não poderei tê-los o tempo todo perto de mim porque cada um precisa seguir o seu caminho”, declara.
Roney ainda reforça que agora o foco está em Wigando, que ainda continua muito vaidoso, preocupado sempre em andar com a roupa e cabelos bem arrumados. “As pessoas que trabalham aqui no Pommernheim costumam brincar que meu pai se tornou o garoto-propaganda oficial do centro de convivência. E eu acho que é esse carinho que faz toda a diferença. Sabemos como é difícil, por isso sempre dou muita atenção a ele. O Alzheimer nunca nos fará esquecer quem somos um para o outro. O maior ensinamento que eu aprendi com meu pai é dar valor às pessoas enquanto elas estão vivas, seja nas horas boas e também nas mais difíceis”, finaliza.
Imagens

Foto: Marta Rocha 
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