Do sonho de garoto aos mais de três milhões de quilômetros rodados

Adeson Falk conta causos e a evolução presenciada em mais de 30 anos de profissão

Foto: Janaina Possamai/ Testo Notícias
Escolha de sucesso: Adeson Falk nunca se arrependeu da decisão de se tornar motorista profissional.

Que tal dar a volta ao mundo mais de 25 vezes? De certa forma, Adeson Falk acumulou, durante sua carreira como motorista de ônibus, quilometragem suficiente para isso. Um dos aventureiros que se dispôs a dar a volta ao mundo por terra, de carro e, claro, cruzando os oceanos de navio, percorreu pouco mais de 141 mil quilômetros para realizar o feito. Em 30 anos de profissão, Adeson calcula já ter percorrido cerca de 3,6 milhões de quilômetros por estradas do Brasil e da América Latina. Se considerarmos essas distâncias, ele já poderia ter dado a volta ao mundo 25 vezes. E com tanto chão rodado, o que não faltam são histórias para contar.

Filho de um marceneiro, ele revela que havia algo, uma espécie de vocação, que levou ele e seus cinco irmãos homens a se tornarem motoristas profissionais. Com exceção de Adeson, que escolheu a cabine de um ônibus desde o começo, todos os outros optaram por iniciar na profissão dirigindo caminhões.

Atualmente, ele administra a própria empresa, Volkstur, mas não largou de vez o volante, pois é atrás dele que se sente mais confortável. “De 1985 até 1999 são os anos que mais dirigi por essas estradas. Era o auge do turismo rodoviário, inclusive do turismo de compras. Até 2015 ainda dirigia com muita frequência, dividindo essa função com a parte administrativa”, conta.

Hoje com 58 anos, Adeson começou a dirigir aos 21 anos, logo após servir o Exército. O primeiro emprego de sua vida foi em uma fábrica muita tradicional da cidade de Pomerode, mas logo optou por correr atrás da verdadeira vocação. “Sempre quis ser motorista de ônibus, esse sonho me acompanhava e consegui realizá-lo. Em nenhum momento da vida me arrependi dessa decisão”, afirma, emocionado.

Nas mais de três décadas de profissão foi testemunha de muitas transformações, tanto nas rodovias quanto na forma de agir da classe. “Antigamente tínhamos uma cumplicidade maior entre os motoristas, não importando se fosse de caminhão ou ônibus. Também vimos a transformação das estradas. Fomos o primeiro ônibus de turismo a entrar em Bonito, no Mato Grosso do Sul, naquela época a viagem exigia que passássemos por 460 quilômetros de estrada de chão. Hoje, nesse mesmo roteiro, não há mais nenhum quilômetro sem asfalto. Isso é algo muito marcante, nós vimos rodovias desaparecendo e outras sendo criadas, as mudanças são muito grandes”, conta.

Uma curiosidade destacada por ele é que lá no início, mesmo com a potência menor dos carros, ônibus e caminhões, era possível fazer viagens em menor tempo. “Percorríamos um trecho de mil quilômetros em 13 ou 14 horas, hoje, para cobrirmos a mesma distância, levamos em torno de 17 ou 18 horas”.

De todas as viagens realizadas por ele, guarda com carinho na memória àquela com destino ao Chile, eram em torno de 18 a 20 dias na estrada, passando por alguns dos locais mais belos daquele país. Uma dessas aventuras, inclusive, foi feita no inverno Chileno. “Hoje em dia é mais difícil que uma pessoa tenha de 18 a 20 dias para viajar. As viagens para destinos mais distantes são uma fatia que o aéreo tirou bastante do rodoviário, mas eram experiências maravilhosas”.

Outras rotas inesquecíveis para ele são as do Nordeste do Brasil, destino muito popular. “O turismo rodoviário ainda é muito forte e proporciona uma experiência diferenciada a quem opta por ele. Assim também é muito forte o turismo de compras, existem empresas especializadas apenas nesse segmento”, explica.

Quando questionado sobre as melhores experiências proporcionadas pela profissão, Adeson não titubeia e afirma ter sido a oportunidade de conviver com pessoas das mais variadas opiniões, culturas e classes sociais. “Você tem contato com os mais diferentes tipos de pensamento, e cresce com isso. De certa forma, isso lhe dá acesso ao universo de aprendizados. Sem dúvida, o contato com as pessoas é a melhor das lembranças. Atualmente, quando viajo para certos lugares ainda tenho amigos daquela época”.

Outra saudosa lembrança é a forma respeitosa com que os motoristas eram tratados. “Havia algo de diferente em como nos viam nos lugares em que chegávamos. As pessoas já se impressionavam muito com o próprio ônibus, pois sempre trabalhávamos com o que havia de mais moderno no mercado. Mas também na forma com que tratavam a figura do motorista, era sempre muito bom”.

Como em toda profissão, há também muitas dificuldades. A principal delas atualmente é a falta de segurança, não só relacionada às condições das rodovias, mas também quando o assunto é assaltos. Mas, para ele, nada disso apaga as boas memórias e todas as alegrias trazidas pela profissão.

Adeson lembra que entre os anos de 1985 e 1999, mal parava em casa. “Tinha meses que eu dormia uma ou duas noites na minha cama. Mas era muito bom, foi tudo gratificante, tenho muitas histórias para contar”, brinca ele ao afirmar que precisaria de um dia completo para lembrar-se de todas elas.

Assim como Adeson, milhares de homens e mulheres dedicam suas vidas às estradas, transportando desde passageiros a alimentos, fazendo com que nosso país continue em movimento. Por isso, através da história e das memórias de Adeson, o Testo Notícias homenageia todos os motoristas e deseja que essa data seja também um dia de reflexão para que busquemos por mais segurança e cumplicidade em nossas estradas. 

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