No coração de mãe cabe sempre mais um

Prepare o seu coração para uma história tão emocionante que até fica difícil saber por onde começar a contar

Foto: Michele Utech
Lá vem um bebê: Orgulhosas e transbordando de amor, Ane se sente vó e é assim que Jéssica quer que ela seja vista.

O destino prega peças e coloca as pessoas frente a grandes desafios. Ane Maria Kluge perdeu sua mãe com apenas 12 anos de idade. Criada pelo pai teve que se tornar responsável pela educação dos irmãos. O pai de Ane teve outro relacionamento, do qual nasceram mais filhos. Irmãos que não tinham um contato muito próximo com a Ane, pois foram criados apenas pela mãe, devido à separação.

A vida seguiu seu rumo, Ane se casou e teve três lindos filhos. Apenas três? Mal sabia ela que teria uma grande missão pela frente. Em 2003, a ex-companheira do pai faleceu em consequência de um infarto. Foi então que, no dia do velório, se deparou com Jéssica Bianca Kreutzfeld, de oito anos, a sua meia-irmã, que estava desolada e sem alguém para cuidar dela, já que todos os seus outros irmãos abriram mão da responsabilidade de dar continuidade à criação da pequena. “Jéssica, eu estou indo embora, se você vier comigo eu vou cuidar de você!”, disse Ane. A pequena ficou desconfiada, pois queria ficar com seus irmãos, os quais tinha mais contato, mas quando percebeu que eles não poderiam ficar com ela, pegou sua bicicleta e foi atrás de Ane rapidamente.

Michele Utech/Parceria: Desde sempre Jéssica estava ao lado de Ane para tudo.

Como a mãe de Jéssica se separou do pai de Ane ainda durante a gravidez, ela cresceu sem o contato com a família paterna e eram raras as oportunidades de estarem juntos. “A Jéssica conhecia o pai como Nono, não teve relacionamento de pai e filha devido ao pouco contato”, explica Ane. Mesmo assim, a menina de apenas oito anos mudou-se para a casa de Ane para viver com o pai e com a sua nova família. “Eu não sabia sobre os hábitos e nem a rotina dela, éramos estranhas”, comenta Ane.

“Não lembro muito bem, mas eu pensava no que iria ser de mim. Foi difícil, sempre pedia muito pelos meus irmãos. Eu fui a única que me afastei deles. Sofri muito e fiquei com muita saudade”, relembra Jéssica, que hoje está com 24 anos de idade.

Muitos foram os desafios no início, mas o pior aconteceu. Apenas três meses após a mudança de Jéssica para a casa da Ane, quando a pequena já estava se acostumando e se relacionando com o pai, ele sofreu um acidente de trânsito no qual foi atropelado e veio a falecer. E agora? Sem pai e sem mãe, o mundo desabou para as duas. Com quem a Jéssica ficaria, já que estava na casa da Ane sob a tutela do pai? Foi então que Ane teve um chamado. “Quando meu pai morreu, soube que a partir daquele momento era comigo. A Jéssica veio correndo ao meu encontro e pediu para que eu não morresse também, pois agora ela só tinha a mim. Isso me cortou o coração. Nos dias seguintes eu sonhei muito com a mãe da Jéssica me pedindo para que cuidasse dela e não a deixasse ir embora com ninguém”, recorda.

Ane precisou de força para se reerguer e encontrou apoio ao lado do esposo e dos filhos. Foi então que decidiu entrar judicialmente na petição da tutela de Jéssica. “Eu prometi à Jéssica que iríamos superar isso juntas. Minha missão era cuidar dela”, diz nostálgica e empoderada. Foram três anos de espera até que a justiça determinou que Jéssica seria criada pela Ane.

Vários desafios permeavam a vida das duas. Ane tinha três filhos, e dois deles ainda moravam com ela, precisaram se adaptar com a nova rotina. “A Jéssica tinha uma personalidade e gênio difíceis de lidar, mas tudo foi dando certo. O maior desafio para mim foi superar meus sentimentos de excesso de preocupação com ela. Eu queria ser perfeita para ela e não queria deixar faltar nada”, explica Ane.

Michele Utech/Lá vem um bebê: Orgulhosas e transbordando de amor, Ane se sente vó e é assim que Jéssica quer que ela seja vista.

Aonde Ane ia, a Jéssica estava junto. As duas se aproximaram tanto que a ligação de mãe e filha foi ficando cada vez mais forte. A pequena cresceu, iniciou um relacionamento aos 19 anos e, no ano seguinte, decidiu que sairia de casa para morar com seu companheiro. “Quando ela saiu, não pensei que sofreria tanto. Fui muito enérgica na criação dela, porque eu tinha medo que ela se perdesse na vida e no mundo. Só a deixei ir embora porque vi que ele era um bom rapaz, que os dois se amavam e que ela teria uma vida feliz”, confessa Ane.

Faz quatro anos que Jéssica saiu de casa, mas não da família de Ane, sua mãe de coração. Os filhos de Ane consideram Jéssica como sua legitima irmã, a defendendo de tudo e de todos. “Eu a coloquei em bom caminho, jamais poderão dizer que faltou algo para ela. Não foi por obrigação, foi por amor”, diz Ane emocionada. Recentemente Jéssica descobriu que está grávida, e logo entrará no terceiro mês de gestação. “Meu filho vai saber quem foi a minha mãe, mas por consideração e eu vou ensinar ele a chamar a Ane de ‘vó’, porque ela é minha mãe também e ninguém pode mudar isso. Ela vai ser ‘vovó’ e ninguém tira isso da minha cabeça e do meu coração”, comenta Jéssica. “Eu a amo demais, quando me falou que seria mãe, me senti avó e não tia”, relata Ane.

Atualmente, o relacionamento das duas é baseado na saudade e no amor. “Sinto muito a falta dela, às vezes eu fico pensando em como o carinho dela faz falta no dia a dia. A atenção e a parceria que nós tínhamos era muito especial. Por mais que brigássemos, estávamos sempre juntas em tudo. Eu vi na Jéssica, alguma coisa que meu pai deixou pra mim. Foi algo que ele me disse, que se eu ficasse com ela, seria minha mão direita e isso realmente aconteceu”, relembra Ane.

Michele Utech/

E Jéssica, que será mãe, sente agora mais do que nunca. “A Ane é tudo pra mim. Não posso desmerecer minha mãe, que me criou até os oito anos. Porém foi a Ane que me deu educação, me deu uma família e me ensinou tudo, desde como viver no mundo até as melhores e piores partes da vida. Devo tudo a ela, ao esposo dela e aos filhos dela, que eu considero meus irmãos e também são tudo pra mim e, inclusive, serão padrinhos do meu filho. Eles são minha família e vou levar para sempre comigo”, finaliza Jéssica.

Ane, aos 55 anos de idade, sente-se realizada. “Me alegro e fico muito feliz. Fui superando a morte da minha mãe ao ser forte para cuidar dos meus irmãos. Sou privilegiada, pois fui mãe de tantas pessoas. A Jéssica será minha filha para sempre, é um pedaço do meu pai que ficou para mim”, encerra Ane, com os olhos cheios de lágrimas.

Imagens

Proibido reproduzir esse conteúdo sem a devida citação da fonte jornalística.

Receba notícias direto no seu celular, através dos nossos grupos. Escolha a sua opção:

WhatsApp

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui