Pioneirismo e capacidade de adaptação como combustíveis para a rentabilidade

Propriedade que já teve o arroz como principal fonte de renda, hoje se tornou referência na produção de alevinos

Foto: Matheus Kurth
Testo Rega: dezenas de lagoas estão espalhadas pela propriedade da família Wachholz.

O equilíbrio econômico de uma propriedade rural está diretamente relacionado à capacidade de adaptação, diversificação e à busca por conhecimento. Essas são as principais lições aprendidas pelo engenheiro agrônomo, Dagvin Wachholz com o pai, Elmo.

Desde criança, viu Elmo presar pela diversificação das atividades na propriedade da família, que fica no bairro de Testo Rega, em Pomerode. “Na agricultura familiar, como o próprio nome já diz, somente a família trabalha na propriedade e, como essas geralmente são pequenas, precisa aproveitar todo o potencial que têm a oferecer”, pondera.

Além de ser músico, o pai de Dagvin tentou implantar várias culturas e criações para garantir a o sustento da família e a rentabilidade do negócio, desde a plantação de verduras, fumo, milho, suínos até a criação de gado de leite. “Nenhuma delas se mostrou atrativa. Talvez pelo tamanho da propriedade que no total, com as áreas restritas e reservas obrigatórias, não passa de 10 hectares”, analisa.

Marta Rocha /Tilápia: a produção de alevinos dessa espécie passou a ser o carro-chefe.

As tentativas de adaptação levaram Elmo a conhecer e investir na rizicultura (plantio de arroz), a partir daí, o pioneirismo passou a fazer parte da vida da família. Na década de 1980, Dagvin e o cunhado, Mauricio Rauh, resolveram reativar uma pequena lagoa existente na propriedade, nela, colocaram alguns peixes, da espécie carpa.

Até aquele momento eles não possuíam muito conhecimento sobre a atividade, mas isso mudaria. Dagvin resolveu estudar agronomia e, ao ler notícias sobre como, na China, a criação de peixes em consonância com o plantio do arroz já acontecia há dois mil anos, resolveu buscar informações com a Acaresc (antiga Epagri) e através de livros. “Iniciamos a Rizipiscicultura (produção de peixes com arroz). Fomos um dos pioneiros no país. O pai colhia o arroz, geralmente no mês de março, em seguida com as taipas (tapumes) já mais altas e com uma lâmina de água de aproximadamente 50 centímetros, colocávamos os alevinos nas quadras”. Os peixes ficavam lá até meados de outubro, quando se iniciava o novo ciclo de plantio do arroz. Os animais eram comercializados entre vizinhos.

Essa foi uma grande inovação e se tornou o carro-chefe das atividades na propriedade da família Wachholz por cinco anos. Depois eles começaram a trabalhar com as duas culturas separadamente.

A partir daí eles conheceram um novo nicho de mercado. “Como em outubro já chega a época de reprodução dos peixes, em várias quadras de arroz apareciam filhotes de carpas (alevinos). No início não demos muita importância. Meu pai os entregava de graça para quem pedia, pois nosso foco era a venda do peixe adulto e a limpeza para diminuir os custos de preparo de solo”, relembra.

Marta Rocha /De pai para filho: Dagvin Wachholz administra a propriedade ao lado do cunhado, Mauricio Rauh.

No entanto, a cada ano os pedidos por alevinos cresciam, superando a procura pelo peixe já adulto. Foi então identificada uma promissora fonte de renda. “Passamos a investir na criação de alevinos até que em 1996 plantamos arroz pela última vez. O peixe se transformou na principal cultura desenvolvida pelo meu pai”.

A administração da propriedade era feita por Elmo, mas o filho sempre esteve ao seu lado, sobretudo trazendo novas tecnologias e atuando na abertura de mercados. “O ajudava principalmente na parte técnica, na indução artificial para desova dos peixes”.

Dagvin conta que dentre os principais desafios estava justamente no fato do pioneirismo na implantação desse tipo de cultura no Brasil. “Iniciamos ao mesmo tempo em que a piscicultura moderna chegava ao país. Não existia ração para peixes na região, muitos testes foram realizados, muito custo para definir o que era mais produtivo e economicamente viável”, revela.

Nessa época, Maurício morava no interior de São Paulo e trabalhava como representante comercial. Graças à profissão, conheceu várias cidades em que o governo investia em piscicultura para repovoamento de barragens e hidroelétricas. “Visitamos várias delas e em cada uma, ‘pescávamos’ uma ideia”. Com a busca de conhecimento por todos os cantos, conseguiriam promover o desenvolvimento da atividade.

Do ponto de vista técnico, a maior barreira enfrentada foi a reprodução artificial de espécies exóticas (carpas chinesas: capim, cabeçuda e prateadas). Até o fim dos anos 1990, essa era a principal espécie comercializada. Com o passar do tempo, a Tilápia se tornou a protagonista e, atualmente, 95% da produção de alevinos se destina a peixes dessa espécie. A produção é escoada para o Vale do Itajaí e Litoral Norte do Estado.

Matheus Kurth/

Dagvin conta que a administração da propriedade agora fica a seu cargo em sociedade com Maurício. O papel já vinha sendo desempenhado por ambos nos últimos anos, período em que Elmo enfrentava a luta contra o câncer.

A rizicultura deixou de ser aplicada na propriedade, que trabalha principalmente com a produção de alevinos. No local também há a criação de ovelhas e gado de corte, porém em pequenas quantidades e para consumo próprio. Além disso, algumas palmáceas foram plantadas em áreas onde não é possível desenvolver a piscicultura.

Aperfeiçoar potencialidades  

Dagvin não trabalha exclusivamente na propriedade da família, atua também na Cooperativa Juriti, uma associação de agricultura familiar que congrega 750 produtores de arroz, de 26 municípios. Ele revela acreditar fielmente na possibilidade de viver do campo. “Trabalho há 30 anos com esses produtores e a maioria vive só da agricultura”.

Para isso, explica ele, é preciso estudar qual atividade é a mais rentável para cada propriedade. “Hoje temos inúmeras opções que podem se tornar lucrativas, o importante é otimizar ao máximo o espaço e sempre buscar inovações. A diversificação de atividades é importante, pois quando uma estiver em baixa, a outra pode ajudar a equilibrar a economia da propriedade”.

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