Daiane fala de sua luta contra a silenciosa doença renal e os primeiros passos após o transplante

Eram por volta das 17 horas do dia 06 de janeiro de 2019 quando o telefone de Daiane Cristina de Lima, de 30 anos, tocou. Do outro lado da linha estava uma médica do Hospital Santa Isabel, de Blumenau, mais do que isso, estava o fim da espera e a chance de um novo recomeço: havia um rim compatível, Daiane receberia o tão desejado transplante.
Pra entender melhor essa história é preciso voltar um pouco mais no tempo, Daiane tem dois filhos, Gabriela de 10 anos e Gregori, de cinco. Na segunda gravidez sofreu um quadro chamado de pré-eclâmpsia, responsável pelo aumento exponencial da pressão arterial e que acabou por atingir os rins. “A doença renal é muito silenciosa, somente depois de três anos, em 2017, quando tive crises de pico de pressão e fortes dores de cabeça, descobri minha condição. Inicialmente procurei por um cardiologista e fizemos todos os exames. O resultado apontou níveis muito alterados de creatinina e ureia, então o médico pediu para que procurasse urgentemente um especialista em nefrologia”, conta.
Naquela mesma semana, Daiane foi a Timbó e precisou enfrentar um dos momentos mais desafiadores de sua vida, a descoberta de que tinha doença renal crônica e que a qualquer momento seria necessário iniciar a hemodiálise (procedimento através do qual uma máquina limpa e filtra o sangue, ou seja, faz parte do trabalho que o rim doente não pode fazer). Ao lado do marido Wolfgang Woide, os pouco mais de 20 quilômetros do trajeto de volta foram de muita tristeza. “Vim de lá até aqui chorando, naquele momento eu nem sabia como funcionava a hemodiálise e nem para que servia”.
Consultas mensais se seguiram até que no dia 26 de dezembro de 2017, Daiane realizou o procedimento para a colocada de uma fístula no braço, necessária para o início das sessões. Dois meses depois, em fevereiro de 2018, ela iniciou a hemodiálise. “Nos dois primeiros meses foi muito difícil, pensei que não iria aguentar, pois passava muito mal. Com o tempo fui me acostumando”, relembra.
Daiane fez hemodiálise por 10 meses. No dia 04 de setembro de 2018, seu nome ficou ativo na lista de transplantes. Longos meses se passaram até que o telefone tocasse naquele 06 de janeiro. “Na hora nem consegui falar com a médica, só chorava e dizia sim. Não acreditei que era minha hora. Confesso que mesmo estando preparada, na hora bate um medo, pois você sabe dos riscos, ainda assim era o meu momento”.
No dia seguinte, às 9h, Daiane realizou o transplante. Após o procedimento ela precisou ficar por 24 horas em observação na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), pois havia a suspeita de uma embolia pulmonar, felizmente, o quadro não se confirmou. “Graças a Deus foi tudo bem”.
Dos desafios pelo tortuoso caminho, Daiane lamenta o fato de ter sido necessário parar de trabalhar, pois fazia hemodiálise três vezes por semana. “Saía de casa às 11h e voltava às 18h. Era muito cansativo, mas sinto falta das amizades que fiz lá”.
Além das novas amizades, Daiane teve o apoio do marido e dos filhos. “Eles sempre me deram muita força e eu mesma sempre fui positiva, pensava que tinha que agradecer por existir uma máquina que me ajudava a viver, porque se fosse outro órgão, não teria o que fazer”, revela.
Ela conta que a recuperação está sendo tranquila neste momento. Mas, sobretudo nos três primeiros meses, é preciso cuidar com alimentação e não fazer esforço. Ela também terá que tomar remédios contra a rejeição por toda a vida e tomar alguns cuidados, como não ingerir carne de porco.
Em seu coração está o agradecimento à família que permitiu a doação de órgãos. “Mesmo não sabendo de quem se trata, só consigo sentir gratidão. E essa é uma mensagem que quero deixar: seja um doador de órgãos, sei que não é fácil tomar essa decisão num momento de tristeza. Mas, pense nisso e converse com seus familiares antes, para estar mais preparado”.
Para o futuro, os planos são os mais desejados por ela. “Quero voltar a trabalhar e ter minha rotina normal, cuidando dos meus filhos e do meu marido”.
Sobre a Doença Renal Crônica
A doença renal crônica (DRC) se caracteriza por lesão nos rins que se mantém por três meses ou mais, com diversas consequências, pois os rins têm muitas funções, dentre elas: regular a pressão, filtrar o sangue, eliminam as toxinas do corpo, controlar a quantidade de sal e água do organismo, produzir hormônios que evitam a anemia e as doenças ósseas, entre outras. Em geral, nos estágios iniciais, a DRC é silenciosa, ou seja, não apresenta sintomas ou eles são poucos e inespecíficos. Por causa disso, pode haver demora no diagnóstico e ele só acontecer quando o funcionamento dos rins já está bastante comprometido, necessitando de tratamento por meio da diálise ou transplante renal. Assim, são fundamentais a prevenção e o diagnóstico precoce da doença, que tem tratamento e que pode ser observada com a realização de exames de baixo custo, como o exame de urina e a dosagem de creatinina no sangue.
Saúde dos Rins Para Todos
De acordo com a Sociedade Brasileira de Nefrologia, estima-se que haja atualmente no mundo 850 milhões de pessoas com doença renal, decorrente de várias causas. A Doença Renal Crônica (DRC) causa pelo menos 2,4 milhões de mortes por ano, com uma taxa crescente de mortalidade.
Este ano, o Dia Mundial do Rim (13 de março) se propôs a aumentar a conscientização sobre a alta e crescente presença de doenças renais em todo o mundo e a necessidade de estratégias para a prevenção e o gerenciamento delas.
A saúde do rim para todos, em qualquer lugar, propõe uma cobertura universal de saúde para prevenção e tratamento precoce da doença renal.
Fatores de risco e cuidados
Os principais fatores de risco são a hipertensão arterial, o diabetes e doenças familiares, mas obesidade, fumo, uso de medicações nefrotóxicas e outros fatores também podem comprometer a função renal. Evitar ou tratar esses fatores é a única forma de prevenção.
Cuidar da saúde global ajuda a proteger a saúde do rim. As práticas recomendadas incluem:
-Praticar exercícios físicos regulares;
-Evitar o excesso de sal, carne vermelha e gorduras;
-Controle de peso corporal;
-Controle da pressão arterial;
-Controle do colesterol e da glicose;
-Não fumar;
-Não abusar de bebida alcoólica;
-Evitar o uso de anti-inflamatórios não hormonais;
-Cuidar com quadros de desidratação;
-Realizar, uma vez por ano, exames laboratoriais para avaliar a saúde dos rins: dosagem de creatinina no sangue e análise de urina
-Consultar regularmente seu clínico geral;
-Não fazer uso de medicamentos sem prescrição médica.
Imagens

Foto: Arquivo pessoal
Planos: dois meses após realizar o transplante, Daiane quer voltar a trabalhar e ter sua rotina restabelecida.
Foto: Arquivo pessoal
Apoio: o marido e os filhos foram vitais para que ela tivesse força para enfrentar a doença.
































