Um apaixonado por música e com a curiosidade eterna em aprender novas habilidades. Mesmo sendo formado em tecnologia têxtil e tendo trabalhado por mais de duas décadas na área, Francisco Roberto Piancó Júnior, de 57 anos, decidiu que aprenderia a tocar saxofone.
No entanto, foi o instrumento em si que mais lhe chamou atenção, mais especificamente a boquilha, parte onde se apoia a boca. “Antes até de começar propriamente a tocar sax, desenvolvi um projeto de fabricação de boquilha e cheguei a vender no Brasil inteiro”, lembra.
O segundo instrumento que decidiu aprender mais afundo sobre a construção. A ideia seria conseguir desenvolvê-lo antes de saber tocar. Foi nesse momento em que ele descobriu que quem fabrica instrumentos de corda é chamado de luthier, que vem de luthieria. “Aí fui atrás de quem estaria disposto a me ensinar. Mas como é uma arte milenar e que normalmente passa de pai para filho, ninguém se dispõe a ensinar para estranhos, então foi muito difícil.”
Em 2010, após muito pesquisar, descobriu o multi-instrumentista, lutiê, regente e professor brasileiro, Braz da Viola. “Ele morava no interior de São Paulo, perto da Serra da Mantiqueira, em uma cidade chamada São Francisco de Xavier. Liguei para ele na sexta-feira, conversamos, ele se dispôs a me ensinar e acertei o valor. Disse que o curso duraria duas semanas, trabalhando de domingo a domingo, para terminarmos o instrumento”, explica.
Com isso, Roberto, como é conhecido, saiu de Jaraguá do Sul, cidade em que morava na época, de sábado para domingo. Quando chegou lá, Braz ficou surpreso e admitiu não esperar que a conversa se tornasse realidade. Durante duas semanas trabalhando todos os dias das 7h às 18h, o aluno finalizou seu primeiro instrumento: uma viola caipira de oito cordas.
Quando retornou para casa, passou a aprimorar a fabricação. “A forma que ele fazia era muito rústica, mas era o método que tinha. Eu, com minha cabeça de tecnologia, comecei a desenvolver ferramentas para diminuir o tempo de produção.”
Após adquirir uma casa em Pomerode e se mudar para a cidade com a esposa, a primeira coisa que fez foi construir uma oficina para que pudesse crescer ainda mais com esse “hobby”. “Hoje, tenho minha empresa de consultoria na área têxtil e temos o Alambique Enxaimel, uma destilaria, mas isso aqui é minha fuga, minha terapia, é uma paixão”, admite.

Além disso, com o passar do tempo, Roberto começou a sentir falta de lojas especializadas em ferramentas para luthieria e, com isso, montou o primeiro site no Brasil que vendia plantas e ferramentas para o luthier construir instrumentos, hoje já desativado. “Por eu não ser músico, eu tive que aprender do zero, mas minha experiência profissional me ajudou muito.”
Após construir a viola caipira durante o curso, Roberto se aventurou em fabricar diversos instrumentos de corda. “A sequência para construí-los é a mesma, o que muda são as medidas, medidas essas que busquei com as plantas que comprei e, depois, que desenvolvi. É só adaptar o conhecimento da construção de um instrumento para outro”, revela.
Mesmo tendo mais de uma década de experiência como luthier, ele assume que não sabe tudo e que o aprendizado na área é constante. “Sempre que tenho um tempo à noite, vou pesquisando no Youtube profissionais do mundo todo, vejo quais as técnicas eles utilizam para ir aprimorando a minha. É preciso ter a mente aberta.”
Sobre a produção, Roberto explica que demora aproximadamente um mês para finalizar um instrumento. No entanto, uma técnica utilizada por esses artistas é fazer entre cinco a seis instrumentos por vez, assim otimiza o tempo. “O processo de pintura e secagem, por exemplo, não tem como acelerar. Então quando estamos esperando um, fazemos outro, ganhamos tempo e conseguimos baixar o custo.”
No intervalo entre o trabalho com a consultoria e a destilaria, Roberto aproveita para dedicar os fins de semana à luthieria. “Não divulgo o meu trabalho, faço instrumentos mais para o meu filho e vendo para amigos e conhecidos. Não tenho o intuito de viver disso, mas quem sabe um dia. Quando estou dentro da oficina, não vejo a hora passar, consigo esquecer de tudo, é realmente uma terapia”, finaliza.
































