A morte de um familiar raramente é um acontecimento isolado. Ela costuma ser um ponto de ruptura, capaz de iluminar, com a mesma intensidade com que fere, aquilo que realmente sustenta uma vida. Foi assim que o morador de Pomerode, Matheus Ferrari Hering, transformou o luto pela morte do tio, João Arno Hering, conhecido como Joca, em um texto íntimo e comovente publicado em sua newsletter.
O tio morreu no dia 11 de novembro de 2025, poucos dias após uma cirurgia bem-sucedida para remoção de um tumor. Muito debilitado e desnutrido, não resistiu a uma infecção. “Depois de aproximadamente dois meses de muito cansaço e cuidados, nosso tio descansou”, escreveu Matheus.
Mas o que mais chama atenção no relato não é a cronologia do fim, e sim o que ela desencadeia: um mergulho profundo nos valores que definem quem somos e o que deixamos no mundo.
Joca era uma figura muito conhecida em Indaial, tinha até mesmo o título de “dentista do povo” e, além disso, possuía ligação com Pomerode, era bisneto do historicamente conhecido Heinrich Passold e sobrinho de Renato Klug.
A simplicidade como forma de grandeza
Matheus descreve o tio como alguém que não buscava status, aparência ou aprovação social. “Meu tio era um cara muito simples, não ligava para roupa ou bens materiais… era autêntico, espontâneo, e às vezes pagava o preço por isso”, conta.
No entanto, esse “preço” nunca o assustou. Para o sobrinho, o valor adquirido por viver com autenticidade é “inestimável”, muito superior ao custo de uma vida vivida “em suaves prestações” em troca de superficialidade.
O retrato que emerge é o de um homem que preferia vínculos a vitrines; presença a performance; verdade a aparência.
Uma intensidade que tocava
Como muitos temperamentos fortes, Joca era marcante. Tinha impetuosidade, dizia o que pensava e se indignava com a artificialidade das pessoas e das situações. Seus broncas, já célebres na família, vinham sempre inauguradas por um sonoro “porra!”. Mas, para Matheus, não havia ali violência, e sim sinceridade:
“Ele não suportava a superficialidade. Mas também se irritava com ninharias e quando contrariado.”
Era, ao mesmo tempo, firme e sensível — especialmente sensível. Um amante da música, da natureza e das pessoas.
O afeto que permanece
Entre todas as memórias, uma se destaca: o amor que Joca dedicava às filhas e, mais tarde, aos netos. “Ele ligava quase todos os dias, ao acordar, para perguntar como elas estavam”, relata o sobrinho, que completa: “Eu gostaria de ser o pai que ele foi.”
Essa imagem, um pai que começa o dia telefonando para as filhas, ecoa muito além do contexto familiar. É uma lembrança que convida qualquer leitor a revisitar suas próprias relações e prioridades.
O luto como convite à honestidade emocional
O texto de Matheus também aborda o arrependimento silencioso que acompanha muitas despedidas. Ele hesitou em visitar o tio no hospital, acreditando que haveria tempo. Joca pediu para vê-lo dois dias antes de morrer. A visita não aconteceu. “Eu me pergunto se não deveria ter feito mais por ele”, confessa.
O reconhecimento dessa falha humana, tão comum, tão difícil de admitir, aproxima o leitor do autor e do próprio luto.
A vida que valeu a pena
Apesar da dor que perpassa cada linha, o texto de Matheus não é sobre morte, mas sobre vida. Não sobre ausência, mas sobre permanência. Sobre aquilo que cada pessoa deixa como marca no mundo, nos outros e em nós.
Ao final, o sobrinho reflete:
“Se há um lado positivo de tudo que expressei aqui, e definitivamente há, é que o tio Joca fez a sua vida valer a pena.”
Confira o texto:
A despedida de meu tio – Em memória de João Arno Hering, falecido em 11/11/2025
Dia 11/11/2025 ficará marcado em minha memória como o dia em que meu grande amigo, meu tio Joca, nos deixou.
Apesar de bem sucedida a cirurgia de retirada do tumor, ocorrida em 04/11/2025, nosso tio não resistiu. […]
Meu tio era um cara muito simples, não ligava para roupa – embora nunca se vestisse de maneira desleixada – ou para bens materiais em geral, era autêntico, espontâneo, e às vezes pagava o preço por isso. Não vejo nisso um problema, uma vez que o bem adquirido por essa maneira de ser é de valor inestimável enquanto que o custo por uma vida superficial, ainda que despendido em suaves prestações, é a eterna danação.
O tio Joca era alguém que se importava muito com as pessoas, que gostava de andar pela cidade, de ser visto, embora tivesse também os seus momentos de recolhimento. Era alguém que dificilmente passava despercebido na sociedade indaialense, quase todos o conheciam, seja por ter sido dentista do povo (do município), seja por ter tido muitos amigos que o tinham em grande estima; ele era para eles um amigo de verdade, daqueles que guardamos e carregamos em nosso peito e que de vez em quando nos vem à cabeça, mesmo longe, mesmo sem vermos há muito tempo.
O seu amor pela música e pela natureza denunciava a sua sensibilidade humana. O tio Joca não queria ser alguém bem visto, ele queria morar nos corações, ele queria ser. A sua impetuosidade marcava o seu temperamento, mas era um verdadeiro tempero que o distinguia das gentes mornas. Os seus esporros, geralmente inaugurados com um “porra!”, não nos machucavam profundamente porque não provinham da maldade (se bem que aqui quem fala é alguém que nunca foi vítima direta de sua impetuosidade). Creio eu que, nas muitas das vezes, esses rompantes decorriam da superficialidade do ambiente (das relações). Ele não suportava a artificialidade. Mas também irritava-se com ninharias e quando contrariado.
Dito tudo isso, tem algo de meu tio que guardarei em meu peito para sempre: o carinho que ele teve por suas filhas (e depois também com os netos). Foi lindo de se ver. Esse homem amava de verdade as suas filhas (e netos). Elas me confidenciaram que ele ligava quase todos os dias, ao acordar, para perguntar como elas estavam. Eu gostaria de ser o pai que ele foi.
Desde a notícia de seu falecimento, parece que os dias estão cinzas, sem graça. Parece que se abriu um buraco em meu peito e que nada voltará a ser como antes. Ele nunca mais me mandará músicas de que gostava; notícias e opiniões sobre a situação do país, que o preocupava. Ele nunca mais me perguntará como vai a gravidez da Alessandra, como foi o parto, como está a Betina.
Parece que minhas visitas à minha querida Indaial não serão mais as mesmas, que há um vácuo no centro da Cidade, por onde ele costumava perambular, com o seu caminhar tranquilo (ainda lembro da última vez que o vi atravessando a rua do prédio onde mora, não parei para cumprimentá-lo porque pensei que o veria na casa do Opa). As visitas à casa do Opa e da Oma já não serão acompanhadas da expectativa de vê-lo chegar de repente.
Eu me pergunto se não deveria ter feito mais por ele, ter me aberto mais, conversado mais, demonstrado mais carinho. Deixei de visitá-lo no hospital por hesitação (e também por recomendação), principalmente porque eu tinha verdadeira esperança de que ele sairia dessa situação. Ele pediu a sua filha, na quarta-feira (05/11), que eu fosse vê-lo, mas não deu tempo. Eu combinei com ela que iria na sexta-feira, mas na sexta-feira de manhã não deu, e mais tarde, naquele dia, ele piorou, para não mais melhorar.
É duro perder alguém tão querido, por mais que tentemos nos preparar para esse momento, mas se há um lado positivo de tudo que expressei aqui, e definitivamente há, é que o tio Joca fez a sua vida valer a pena.

































O pai esse cara aí! Um homem de coração puro, que colocou sempre a frente o ser, do que o ter. Que amava as filhas, os netos, os bons amigos, um bom rock cla´ssico, a natureza, os animais. Uma pessoa evoluída. Que brigava contra o sistema. Que no fim só queria um mundo melhor, pra todos! Obrigada por existir, pai. Obrigada, Deus, por ter me escolhido ser filha dele.