Imigrantes de Pomerode: nem todos são Pomeranos

Pomeranos no Vale Europeu - Por: Genemir Raduenz, Edson Klemann, Johan Strelow, Cláudio Werling

Pomerode, um Vale delineado pelo Rio do Testo, carrega muitas histórias e curiosidades em mais de 160 anos de imigração europeia. Uma dessas curiosidades é o fato de que nem todos os imigrantes que aqui chegaram são da Pomerânia. Imigrantes de outras regiões germânicas aqui se assentaram, como de Schleswig-Holstein, Silésia e Vestfália. Um Vale construído por muitos braços que por aqui encontraram a esperança.

Uma destas famílias de origem não pomerana é a MOHR. Emigraram de Georgenthal das proximidades de Rendsburg (Schleswig-Holstein), estabelecendo-se no Großes Selkental/Vale do Selke Grande em 1861. O Vale do Rio do Testo tem como um dos primeiros imigrantes assentado em 1861, contrapondo a data oficial de 1863 que consta no brasão do município, mas isso é tema para outro artigo.

O imigrante Friedrich (Heinrich Fritz) Mohr e sua esposa Friederike Margarethe Mohr (nascida Kühl) emigraram para o Brasil saindo do porto de Hamburg a bordo do veleiro Nancy do capitão Frahm em 11 de abril de 1860 com destino ao Rio de Janeiro. Com eles, emigraram sete filhos: Wilhelm Mohr (*13.11.1843), Carl Friedrich Mohr (*19.03.1846), Heinrich Mohr (*06.05.1848), Christian Friedrich Mohr (*14.11.1850), Fritz (Friedrich Bendix) Mohr (*13.09.1853), Eduard Mohr (*1856) e Friedrich Mohr (*1858).

O filho Hermann Nikolaus nasceu no Brasil em 12.05.1861 no Selkenthal/Vale do Selke. Friedrich Mohr, pai dos 8 rapazes, faleceu em 30.05.1868, e sua viúva Friederike, casou posteriormente com Detlef Krambeck de Indaial. Antes de chegarem na Deutsche Kolonie Blumenau, os Mohr trabalharam na Fazenda “Independência” (Rio de Janeiro). 

No mesmo veleiro Nancy, outras famílias de Schleswig-Holstein vieram ao Brasil, como a Família de Johann Karsten, um dos fundadores da CIA Karsten em Testo Salto. Um dos filhos imigrantes, Christian Friedrich Mohr, comumente chamado por seus familiares de “Chrischaan” e que nasceu em Rendsburg (Schleswig-Holstein), casou em 26.09.1876 pelo pastor Rudolph Oswald Hesse na Igreja Luterana de Blumenau com Anna Elsabe Offe (*11.06.1856), também natural de Schleswig-Holstein da localidade de Schülp(s) (filha de Hinrich/Heinrich Friederich Offe e Magdalena (Lena) Offe, nascida Kühl).

Christian e Anna estão ambos sepultados no Cemitério Ecumênico do Vale do Selke Grande. Deste casamento nasceram 14 filhos, sendo 1) Friederike (*18.05.1877): 2) Heinrich (*12.12.1878): 3) Helenne (*30.10.1880): 4) Wiebke Elisabeth Magdalena (*30.10.1880) (Gêmeas): 5) Wilhelm Franz Hermann (*12.09.1882):  6) Emma (*06.01.1885): 7) Emma (*06.01.1885) (gêmea – faleceu-convulsão): 8) Bertha (*06.03.1887):  9) Fritz (*05.07.1889):  10) Wilhelm (*06.11.1891): 11) Carlos (*09.03.1894): 12) Otilie (*23.06.1896): 13) Anna (*18.11.1898): 14) Adelle (*07.05.1904).

De todos estes pioneiros vamos nos restringir ao Wilhelm (Guilherme) Mohr, o décimo filho de Christian e Anna. Wilhelm se casou com Bertha Hackbarth no dia 30 de maio de 1917. Sendo Bertha a filha de Theodor Hackbarth (*07.11.1857) e Albertine(a) Friederike Ulrike Kath (* 05.05.1860), esta filha de Friedrich Kath e Friederike Kath (nata Rahn). Theodor Hackbarth era filho do professor Ferdinand Hackbarth do Vale do Selke Grande.

Wilhelm Mohr e Bertha Hackbarth Mohr foram agricultores em Testo Central e trabalhavam com gado leiteiro e produção de fumo/tabaco.  Wilhelm também era músico sendo ele tocador de Basshorn/tuba na Lieskow Kapelle, e, antes de se casar, trabalhou fora de Pomerode na medição de colônias/terras em Taió e Salete no Alto Vale do Itajaí com o agrimensor Büttgen, conforme o relato de Adalberto Werling, neto de Wilhelm e Bertha.

E nestas andanças à trabalho pelo interior, Wilhelm contava que eles nunca entravam em confronto com os indígenas, que na época ainda não se encontravam na Reserva de José Boiteux, contudo eles sabiam que não estavam sozinhos e sim sendo observados/seguidos. Entretanto encontros com a rica fauna eram comuns.

Em pé da esquerda para direita: Adelle Mohr e Reinold Tribess, Emma Mohr (viúva de Heinrich Hackbarth), Bertha Hackbarth e Wilhelm Mohr, Anna Mohr e Richard Alsleben, Otillie Mohr (casada com Franz Bublitz) e Maria Krüger e Heinz Ohf. Sentados da esquerda para direita: Bertha Mohr (viúva de Ernest Larsen), o casal Helenne Mohr e Johann Ohf (celebrando suas Bodas de Diamante), e ao lado a irmã de Johann Ohf. Foto acervo: Regina Mohr

Segue o relato sobre um destes encontros com animais de nossa fauna em língua alemã de seu Adalberto Werling, que gostava muito de ouvir as histórias de seu avô desta época:

Banda Lieskow Kapelle que tinha como integrantes: Fritz Lieskow, Oswald Lieskow, Hermann Struck, Wilhelm Mohr, e Hermann Marquardt. Neste registro na Festa de Atiradores Gute Brüderschaft (Sociedade de Atiradores Boa Irmandade ) em 1931, atual Clube de Caça e Tiro XV de Novembro em Testo Alto. Foto Acervo: Museu Pomerano de Pomerode

“Opa Mohr, der früher mit Landmesser Büttgen beim Aufmessen unterwegs war, um da oben in Taió und Salete die Kolonien im Wald aufzumessen, hat mir diese Geschichte beim Arbeiten mit ihm auf dem Feld erzählt. Es war dann so, dass sie so viel zu schleppen gehabt hatten, dass sie es alleine nicht schaffen konnten. Und sie haben sich deswegen einen Träger angenommen. Und nachts war es dann so, dass immer ein Posten aufgestellt wurde. Jeder hatte dann seine Wachzeit gehabt. Wegen “Tiger”, Pumas und alle anderen wilden Tiere, die da in der Nacht um ihr Lager herum erscheinen könnten. Und eines Tages als sie sich alle zum Schlafen hinlegten, musste der Träger aufpassen. Er war dran! Und da hat es gar nicht so lange gedauert, da hat er losgeschrien. Als sie dann wach geworden sind, wegen der Schreierei des Trägers, da waren sie umzingelt von Wildschweinen und der Träger hat vor Angst oben im Baum gesessen. Als das nun alles vorüber war, musste er trotzdem wieder Wache stehen, denn es war seine Schicht, seine Zeit zum Aufpassen. Aber es hat gar nicht lange gedauert, da hat der Mann schon wieder losgeschrien. Und als sie wach wurden, da hat der Mann schon wieder oben in Baum gesessen. Und da konnten sie die glänzenden Augen des “Tigers” durch das Reflektieren des Lagerfeuerlichtes in der Dunkelheit auch schon erkennen. Da ist aber weiter nichts passiert, da der “Tiger” ja hinter den Wildschweinen her war, die er vor sich hertrieb. Und so schnell wie er (der Tiger) dann kam, war er auch wieder weg!”

Registro da saída da família Mohr no Porto de Hamburgo em 1860

Do casamento de Wilhelm e Bertha nasceram três filhas e um filho. Erika Mohr casada com Helmut (Helmo) Klemann; Frieda Mohr casada com Adolf Kraft; Luzzi Mohr casada com Alfredo (Otfried) Werling e o único filho do casal Carlos (Karl) Mohr, solteiro, todos in memoriam. Outra família de origem não pomerana em destaque, partiu da Silésia. Trata-se da família GLATZ.

O imigrante Carl/Karl Glatz (*17/02/1833) que faleceu em 21 de novembro de 1896, é proveniente da localidade de Polnisch/Groß Marchwitz, no Kreis de Namslau na antiga província prussiana da Silésia/Schlesien, tendo como capital Breslau, atualmente Polônia. Os Glatz partiram do porto de Hamburg em 25.10.1864 a bordo do veleiro/Segelschiff holandês Hellichina Reina, do capitão Muntendam, que trouxe colonos com destino as Colônias Dona Francisca e Blumenau.

Carl/Karl emigrou com a sua esposa Marie Christine nascida König (1829-1869) e com os seus quatro filhos: Robert Johann Glatz (1857/1858-1911), Marie Auguste Emilie Glatz (1859-1925), Julius Johann Carl Glatz (1861-1929) e Carl Wilhelm Glatz (1863-1906). A família Glatz se estabeleceu em Pomerode (Testo Central), adquirindo em 1867 na margem esquerda os lotes de terra número 76 e 77.

Carl/Karl Glatz (imigrante), sua segunda esposa nascida Rux e os filhos Hermann e Pauline. Foto feita na Alemanha/Prússia. Foto acervo: Rosemari Glatz.

Carl/Karl também é um dos fundadores da Deutsche Schule Testo Central (atual Escola Básica Municipal Olavo Bilac). No Brasil nasceram as filhas Anna Amalie Clara Glatz (*1865), Alwine Rosine Hulda Glatz (*1866) e Anna Caroline Emma Glatz (*1867). Em seu segundo matrimônio Karl casou com Anne Louise Marie Rux (1842 – 1919), tendo os filhos: Bertha Wilhelmine Ernestine Glatz; Albert Max Carl Glatz; Auguste Wilhelmine Luise Glatz;  Hermann Heinrich Glatz;  Richard Bernhard Glatz e Pauline Albertine Glatz. Uma curiosidade e algo nada comum entre os imigrantes foi o fato de Carl Glatz ter retornado para a Alemanha/Prússia.  

Segundo Kelli Cristina Pasold, descendente do imigrante por parte de sua mãe Evelina Glatz, e esta, por sua vez, filha de Norberto e Modesta Glatz, o imigrante Carl voltou para a Alemanha/Prússia por volta de 1891 com a segunda esposa Anna Louise Marie. Posteriormente retornou ao Brasil para a colônia Blumenau, falecendo em 1896 (sepultado no cemitério do Fidélis em Blumenau).

Esse fato está evidenciado no livro “Famílias de Origem alemã em Santa Catarina”, no qual consta que Carl retornou para a Alemanha com a segunda esposa e três dos filhos, Albert, Hermann e Pauline, e que, o filho mais velho Albert teria ficado na Alemanha.

Mapa de parte da Europa destacando a região da Silésia e tendo a capital Breslau ao centro, terra natal da família Glatz. Fonte: Der Eckart 2022 – Monatszeitung für Politik, Volkstum und Kultur.

Muitos desafios os imigrantes tiveram que superar para enfim se estabelecer em sua própria terra. A imensidão da América do Sul por si só já era assustadora, que o diga a família LENFERS. Oriundos da cidade de Heek, município localizado no distrito de Borken, região administrativa de Münster, Estado da Renânia do Norte (Vestfália).

Hino da Silésia, região dos imigrantes Glatz. Fonte: Der Eckart 2022 – Monatszeitung für Politik, Volkstum und Kultur.

O casal Johann Bernard Gerhard “HENRICH” LENFERS e a sua segunda esposa Anna Maria “GERTRUD” Heidemann, emigraram ao Brasil na barca belga Belgique que saiu do Porto da Antuérpia em 19/04/1862. Os católicos Lenfers chegam em Santa Catarina com o filho Johann BERNARD Lenfers (*01/02/1852 em Heek) que nasceu da primeira esposa Maria Franzisca Vermaessen, falecida em 19/01/1856 também em Heek. Também chegou com o casal a filha ANNA Lenfers (*11/11/1859 em Heek), filha da segunda esposa Gertrud.

Inicialmente se estabeleceram na colônia alemã Teresópolis (atualmente compreende o município de Águas Mornas no Sul do Estado de Santa Catarina). Devido as dificuldades encontradas em Teresópolis, a família Lenfers decide em meados de 1870 (data incerta) migrar para a Colônia Blumenau em busca de melhores terras para cultivar.

Em 25 de abril de 1877, BERNANRD Lenfers se casa com Agnes Büttgen (*11/04/1859), também católica, oriunda da região de Leichlingen, Bispado de Colônia na Alemanha, filha de Pedro Büttgen e Gertrud Viehöfen. Em 08/09/1878, a filha ANNA Lenfers se casou com Bernard August Hemkemeyer.

O casal BERNARD LENFERS e AGNES BÜTTGEN se estabeleceu no distrito Rio do Texto (Pomerode), onde nasceram os seus 08 filhos: Guilherme (1878), Augusto Bernardo (1879), João Geraldo (1883), Mathilde (1885), Anna Maria (1890), Rosália (1894), Antônio (1899) e Bernardo (1902). Todos esses filhos geraram muitos netos, que se espalharam na região do Vale do Itajaí, nos municípios de Pomerode, Blumenau e Gaspar. Famílias Dreiss, Theiss e Wollick se relacionam com os Lenfers através dos casamentos.

Família Glatz num registro de Bodas do Ouro de Alvina e Erwin Glatz. Em pé nos fundos da esquerda para a direita: Norberto Glatz, Hilbert Glatz, Egon Glatz, Fredelinda Glatz, Elgida Glatz. Na frente da esquerda para a direita: Richard Glatz, Laurina Glatz, Alvina Bertha Maria Viergutz Glatz, Erwin Glatz, Ilse Glatz e Heltraudt Glatz. Foto acervo: Modesta Glatz

O patriarca BERNARD LENFERS faleceu no dia 22/09/1927 e sua esposa AGNES BÜTTGEN faleceu no dia 08/03/1945, ambos estão sepultados no cemitério católico de Pomerode ao lado da igreja. O vale do Rio do Testo também recebeu imigrantes professores que impactaram de forma definitiva no desenvolvimento.

Entre eles, podemos destacar o professor Friedrich Schümann, o pioneiro na comunidade de Testo Alto. Schümann nasceuem 01 de outubro de 1836 em Hohenwestedt, (Schleswig Holstein). Fez toda sua formação no continente europeu, prestando seus exames com o Bispo Koopmann, formando-se professor. Antes de emigrar para o Brasil, residia na vila de Kattbeck, que também ficava em Schleswig Holstein.

O casal Bernard Lenfers e Agnes Büttgen. Foto acervo: Rafael Jandre
Mapa da Alemanha com destaque em vermelho para Schleswig Holstein, localizado no Norte. Desta região emigraram várias famílias que colonizaram nosso Vale, entre elas Mohr, Schümann, Frahm, Karsten e Glau. Foto: https://www.kfz.net/zulassungen/schleswig-holstein/

O professor chegou no Brasil em 1870 com a esposa Margaretha Schümann e a filha Christine no Veleiro Franklin. Na comunidade de Testo Alto, Friedrich Schümann atuou na escola de 1871 até outubro de 1881. Christiam Frahm, outro professor que deixou seu legado em Pomerode, nasceu em Lübeck (Schleswig Holstein) emigrando ao Brasil em meados de 1882. Lecionou para duas turmas, uma em Testo Alto e outra no Wunderwald, se dedicando ao magistério no município de Pomerode por 27 anos.

Ao observar os breves históricos das famílias destacadas neste artigo, independentemente do local de origem, elas desbravaram nosso Vale com elevada resiliência, espírito cooperativista e uma inestimada vontade de vencer, por aqui encontraram a maior oportunidade de suas vidas para prosperar.

Nota: agradecimentos especiais aos que colaboraram com o artigo: Dirceu José Zimmer, Osvaldo Tomazeli, Rafael Jandre, Arlete Nuss, Vilson Werling, Adalberto Werling, Roseli Zimmer, Kelli Cristina Pasold e Rosemari Glatz

Pomeranos no Vale Europeu: como tudo começou

Nesta edição do especial “Um Olhar para o Passado” temos a participação especial do grupo Pomeranos no Vale Europeu, que traz um pouquinho mais da história dos imigrantes de Pomerode.
Por isso, trouxemos um material inédito para que você conheça como a paixão dos pesquisadores pela história começou. Confira!

Proibido reproduzir esse conteúdo sem a devida citação da fonte jornalística.

Receba notícias direto no seu celular, através dos nossos grupos. Escolha a sua opção:

WhatsApp

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui